O que podemos aprender com a crise hídrica?

A escassez de água na região Sudeste que começou em 2014 e avança em 2015 com resultados imprevisíveis pode pelo menos ser didática. Sem querer dar uma de engenheiro de obra pronta, podemos fazer algumas perguntas críticas sobre a crise que vivemos e que pode piorar bastante antes de melhorar.

represa seca

A culpa é do clima?

Em parte, sim. Estamos vivendo uma seca sem precedentes na região Sudeste e ninguém arrisca dizer se a diminuição de chuvas é uma tendência climática, mas o fato é que enfrentamos nos últimos anos um ciclo de chuvas mais escassas. Esse extremo climático era previsível? Talvez, sim, mas nenhum administrador competente faz planejamento considerando situações totalmente fora da curva. Pessoalmente, considero que o sistema se sustentou bem até agora considerando a duração longa e inédita da estiagem. Por outro lado, os especialistas já emitiam alertas há tempos sobre os riscos de uma crise de água em períodos secos.

Mais obras, mais reservatórios?

Tradicionalmente, quando enfrentamos algum gargalo de infraestrutura no Brasil, surgem clamores pedindo mais obras e mais investimentos. Essa linha desenvolvimentista que resolve todos os problemas com obras superfaturadas há tempos está em xeque, pois supõe recursos ambientais ilimitados, como se a água surgisse por geração espontânea e os reservatórios pudessem ser aumentados ao infinito e além. Não é preciso ser engenheiro para entender que suprir uma população  de quase 20 milhões de habitantes com água à vontade como em São Paulo é um desafio gigantesco. O aumento da população combinado com aumento de consumo cedo ou tarde chega a um limite.

Reduzir, reutilizar, reciclar água?

Talvez seja a hora de parar de investir em obras e começar a aproveitar melhor a estrutura já disponível.  A população já percebeu que este é o caminho e está descobrindo ideias simples como captar água de chuva ou reutilizar a água que sai da máquina de lavar. Essas medidas que são mostradas pedagogicamente pela imprensa deveriam ser política de governo. É preciso ensinar o uso racional da água nas escolas, em campanhas educativas e por que não penalizar os abusos e desperdícios? Infelizmente, os governantes hesitam sempre que é necessário partir para a austeridade. E a população, na média, prefere comodidade máxima e nenhum esforço de economia como se isso fosse sintoma de decadência econômica.

Quando a água voltar

Um dia a chuva vai voltar a cair com mais força no Sudeste e a escassez vai amenizar, mas ficará a lembrança dolorosa da crise. Cabe ao poder público aproveitar a oportunidade para aprofundar uma cultura de uso responsável da água. Já tivemos períodos de escassez de água e energia no passado que resultaram em uma queda de consumo no período imediatamente posterior. A população aprende a economizar na adversidade, o problema é que o tempo passa e não se dá continuidade às iniciativas adotadas no período de escassez. Logo, a maioria esquece que a chuva não segue regras.  Temos que estar preparados para fechar a torneira aos primeiros sinais de alerta e não apenas depois da eleição.

Autor: Radamés

Engenheiro curitibano pela UFPR, professor e produtor de conteúdos e ferramentas educacionais para a Internet.

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