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Meu inconsciente curitibano insiste em ver Curitiba como a capital com as melhores soluções de transporte coletivo do Brasil. No horário eleitoral gratuito vejo o prefeito Beto Richa, que disputa a reeleição, falar sobre o que fez e o que quer fazer em favor do transporte coletivo. Em um desses programas pude ouvir os prefeitos de Londres e Chicago em visita à nossa capital elogiando as virtudes do nosso transporte coletivo. A questão é que em paralelo ao desenvolvimento do nosso transporte público, estamos vendo o aumento descontrolado dos veículos particulares. Em 2008 a frota curitibana ultrapassou 1 milhão de veículos. A última estatística aponta Curitiba como a capital brasileira com a maior proporção de carros por habitante. Temos 489 veículos para cada 1.000 habitantes, o que dá praticamente um veículo para cada duas pessoas. Em alguns bairros de maior renda existe mais veículo do que gente.

Conversei com meus botões para ver se chegávamos a uma explicação para esse paradoxo: por que a capital com o transporte coletivo mais elogiado tem a maior frota proporcional de veículos particulares? Depois de matutar, eu e meus botões ficamos desapontados.
São duas coisas distintas que pouco se relacionam: o transporte coletivo e a frota de veículos particulares. A prefeitura investe em transporte coletivo, mas as pessoas não vão deixar de comprar um carro só porque o transporte coletivo é eficiente. Na cabeça das pessoas, transporte coletivo é uma coisa para ser usada quando você não dispõe de uma opção mais cômoda. Mesmo que nosso transporte coletivo fosse uma maravilha, o que não é, as pessoas continuariam desejando comprar um carro porque ele é símbolo de status e vivemos na civilização da gasolina. Nos últimos anos, graças ao crédito farto, ficou fácil comprar um carro e o curitibano foi às compras. Ele pode até se orgulhar do seu transporte coletivo, mas andar de carro dá mais ibope, é mais confortável, geralmente mais rápido. Não é mais barato, nem mais ecológico, mas sustentar um carro é uma conta que dá para encarar e a preocupação ecológica ainda não evoluiu a ponto de fazer as pessoas motorizadas optarem pelo transporte coletivo.
Como resolver essa equação? Curitiba antecipa o que vai acontecer em outras cidades brasileiras. Por mais que o transporte coletivo se aperfeiçoe, será deixado de lado por mais e mais pessoas que vão optar pelo carro.
Uma das administrações anteriores tentou colar em Curitiba a marca de capital ecológica. Realmente, nossa proporção de áreas verdes por habitante é uma das melhores do país, temos coleta seletiva de lixo organizada, mas essa quantidade de carros em circulação acaba com qualquer pretensão nossa de sermos os mais ecológicos. Nosso trânsito se deteriora a cada dia. Se Curitiba quiser voltar a ser capital ecológica, teremos que deixar o carro na garagem para prestigiar ligeirinhos, estações tubo, canaletas, biarticulados, etc. Só que isso envolve uma mudança cultural e algumas iniciativas ousadas da prefeitura. Não sei se criando soluções vip de transporte coletivo, quem sabe fazendo restrições à circulação de carros em áreas movimentadas. Só espero que Curitiba se torne um dia a capital com a maior taxa de carros parados na garagem.

Crédito de imagem: Gazeta do Povo

Curitiba: a capital mais motorizada do Brasil, 5.0 out of 5 based on 2 ratings