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iquei fascinado com o depoimento do
ex-presidente Figueiredo, publicado postumamente pela revista Veja.
Que figura complexa o falecido presidente Figueiredo. Falta um
Dostoievski para retratá-lo nas letras. Eu perguntava-me sempre de
onde vinha o desprezo do General pela classe política e pela
sociedade civil em geral. Eu não sabia se era algo inato e merecedor
de acompanhamento psicológico ou se surgiu de uma crescente
desilusão acumulada no seu exercício da política.. Depois de ler o
depoimento comecei a crer que o general era um misantropo genético.
Depois de vê-lo destilar seu sarcasmo contra figuras sacrossantas do
regime militar como o General Golbery ou seu vice-presidente, o
Aureliano Chaves, não tive mais dúvida. Nem o também general e irmão
Guilherme foi poupado pelo ex-presidente. Em quem confiava o general
presidente, afinal? No que acreditava? Decididamente o General era
um estranho no ninho da política. Uma mente brilhante, sem dúvida.
Comprovam isso seu impecável currículo e também o seu último
depoimento cheio de ironia e observações agudas sobre os personagens
da cena política nacional. A ironia às vezes fina, às vezes grossa
do general não deixam dúvida sobre seus dotes intelectuais. Mas se
ele era uma pessoa tão avessa ao relacionamento com os outros como
foi ocupar os cargos mais importantes na hierarquia do regime
militar, participando ativamente dele do começo ao fim? Como uma
pessoa que pede para ser esquecida governa um país por seis sofridos
anos? A personalidade intrigante desse general abre uma questão que
me dá arrepios. O Figueiredo abriu a boca e se mostrou com toda sua
sinceridade e grossura típica. Assim pudemos ficar estupefatos com
os cacoetes de sua personalidade. Mas e todos aqueles políticos que
politicamente nunca mostram sua face verdadeira ao povo? Ah, se
Dostoievski estivesse aqui para se debruçar sobre esta figura
atípica da nossa história. |
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