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ma das coisas que o modernismo fez melhor
foi instaurar a ditadura da simplicidade. Eu acho muito bom quando
você pode escolher entre terno ou calça jeans. O problema começa
quando você tem que usar calça jeans obrigatoriamente. Com o
modernismo começou a vigorar uma lei informal e subentendida. A lei
da abolição do dicionário. Ninguém mais quer usá-lo. As pessoas
ficam indignadas quando lêem um texto e desconhecem uma palavra. Eu,
da minha parte, fico feliz ao encontrar palavras desconhecidas, pois
elas me dão a excelente oportunidade de ampliar meu vocabulário,
recorrendo ao mestre Aurélio. E por que esta ojeriza ao dicionário?
Tudo se dá em nome da simplicidade do texto, como se a Literatura
tivesse que imitar o jornalismo. Como se Literatura fosse anúncio de
prancha de surfe. Estamos num mundo moderno e apressado, onde
ninguém tem mais tempo de perder tempo, dizem. Ora, então, por Deus,
se time is money esqueçam a Literatura e vão para a Gazeta
Mercantil.
Vamos voltar no tempo e entender como
começou a ditadura da simplicidade. Começou na melhor das intenções,
aliás, como todas as revoluções. Os escritores da década de vinte
estavam fartos do lirismo comedido, das frases retorcidas, do
vocabulário precioso, de toda aquela arenga parnasiana e sem vida.
Seguindo a lei da ação e reação começaram a praticar um discurso
coloquial, direto, simples e sem rebuscamento. Este foi o princípio
legítimo. Depois veio a fase estalinista e a simplicidade se
converteu em ditadura, quando já não era mais necessária. Você tem
que expressar uma idéia com meia dúzia de palavras simples quando
existe uma palavra menos freqüente que acolhe a idéia com perfeição.
Talvez seja o tempo de pôr em prática a
teoria de Ezra Pound da palavra justa. Eu creio que deve haver uma
hierarquia: primeiro a justeza, a precisão, depois a simplicidade.
Se pudermos contemplar as duas prioridades simultaneamente, ótimo,
caso contrário, obedecemos a hierarquia. Nem que isto custe uma
visita ao Aurélio. É claro que podemos insistir na teoria da
simplicidade e caminhar a passos largos para o vocabulário de
surfista. O dicionário Aurélio ficará tão fino que deixará de ser
editado, pois, ninguém precisará consultá-lo. |
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