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i recentemente na revista Veja a resenha do
romance americano Um Garoto de Sorte. Confesso que não li o
livro e o objetivo aqui não é comentá-lo e sim usar o comentário do
resenhista como gancho. O resenhista manifesta suas preocupações com
a inserção de elementos da cultura pop na literatura atual. Para o
resenhista o pop dilui o texto, deixa-o plano, pasteurizado, levando
o leitor a comungar com a massificação bovina tão comum do mundo
pop. O que o resenhista talvez não tenha distinguido corretamente é
a diferença entre ser pop e ver o pop. Vou mais longe e digo que
muitos artistas não estão conseguindo fazer esta distinção.
A cultura pop é uma realidade da nossa
época, tão forte que cobra do artista um posicionamento. Há três
possibilidades dominantes: ser pop, ser anti-pop ou retratar
criticamente o pop.
Ser pop exige talento. Não o talento na
forma que o entendemos tradicionalmente. Não o talento de um
Drummond, ou de um Guimarães Rosa. Refiro-me ao talento de acertar
na veia o gosto do grande público e vender milhões como faz o Paulo
Coelho. Se isto fosse fácil, qualquer um venderia milhões e qualquer
bunda serviria para rebolar no conjunto É o Tchan.
Ser anti-pop exige renúncia e
desprendimento, mais do que talento. É só aderir a uma das milhares
de seitas literárias pentecostais que existem por aí e enfrentar o
isolamento. É claro que o isolamento não é doloroso para todos. Para
alguns o charme da coisa está justamente em pertencer a uma pequena
tribo, a uma seita oculta para iniciados. Mas para um escritor
maduro que quer levar qualidade ao público o isolamento é um fardo.
Ver criticamente o pop exige cautela.
Primeiro para não ser confundido como pop e depois, para não ser
absorvido por ele. O exemplo clássico vem de Andy Warhol, que
pintava garrafas de Coca Cola, que começou fazendo a crítica do
mundo pop e tornou-se ele mesmo um pop star. O pop tem o poder
satânico de se alimentar de tudo que o combate. Lembremos da calça
jeans, que foi símbolo de resistência e hoje é artigo de griffe.
Lembremos de tantos cantores de rock, rap e companhia que começaram
combatendo a sociedade de consumo e hoje só andam de BMW.
A inserção do elemento pop na arte, mesmo
quando é feita com intenção crítica, sempre suscitou polêmica. Tenho
visto os saudosistas de plantão se referindo a essa prática como uma
dos piores desdobramentos do terrível pós-modernismo que assola o
mundo. O fato é que desde que o mundo é mundo a matéria prima do
artista é a realidade que o cerca. Será que o melhor é ignorar a
Coca Cola? E falando em Coca Cola lembrei-me de um romance que fez a
minha cabeça há anos atrás e que serve como grande exemplo de arte
que recicla o pop com inteligência: Sangue de Coca Cola do
Roberto Drummond. |