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literatura é a mesma desde Homero. Calma lá.
Antes de iniciar o apedrejamento permitam-me esclarecer e no final
vocês verão que a maioria das celeumas começam por meras
divergências semânticas.
Para chegar onde quero começarei falando da
linguagem dos índios: Será possível fazer poesia na língua dos
ianomanis, que vivem lá na Amazônia, em estado de relativo
isolamento, imersos numa cultura supostamente primitiva? Como
expressar as angústias de um poeta do final do milênio em ianomani,
se na realidade deles não existe asfalto, web, poluição, papel ou
globalização e por conseguinte não existe vocabulário para expressar
tais coisas. A língua dos ianomanis seria muito primitiva para nossa
sofisticada poesia cosmopolita?
Bem, um dos grandes avanços da antropologia
no século XX foi a constatação que não existem culturas primitivas.
Se por um lado os ianomanis não têm nosso conhecimento científico e
tecnológico, os elementos da sua cultura, tais como: cosmogonia,
costumes, etiqueta, economia, religiosidade e linguagem formam um
todo organizado e rico, totalmente adequado à realidade que os cerca
e comparável em complexidade a qualquer rica sociedade européia.
Nesta linha de pensamento, a língua dos ianomanis é adequada para a
comunicação entre homens e não fica devendo muito, exceto pelo
vocabulário associado ao avanço do conhecimento, a qualquer outro
idioma de civilização avançada. E poesia, entre outras coisas, é
comunicação. Sim, talvez a poesia seja possível em ianomani.
Agora, já municiados, voltemos à Literatura.
É lamentável, mas muita gente que atua no meio literário ainda não
absorveu as conclusões dos nossos vizinhos antropólogos e crê que
tanto a linguagem como a arte são aspectos da cultura sujeito a
evolução de qualidade, complexidade e adequação. Para estas pessoas
existe um avanço linear, um progresso literário ao longo do tempo.
Esta idéia da evolução literária, quando levada ao extremo nos faz
concluir que a literatura de hoje é melhor que a de cem anos atrás.
Talvez alguns desses arautos do progresso literário considerem
Homero ridículo porque fala de deuses e mitos que nunca existiram.
Imagine o quanto riem estes positivistas da Literatura quando se
debruçam sobre A Divina Comédia de Dante.
Se, por outro lado, dermos ouvidos aos
grandes antropólogos do século XX, como Malinowski e Levi Strauss,
talvez cheguemos à conclusão que a grande Literatura não piora nem
melhora com o tempo. Ela será sempre a resposta mais adequada para a
realidade de uma época, pois, a arte é um daqueles elementos da
cultura cuja complexidade, qualidade e adequação independem do
desenvolvimento histórico, embora seja essencial mente histórica. O
mesmo é válido para a linguagem. Não existe língua superior, nem
língua primitiva. Certa vez, .um conhecido meu disse-me que a poesia
brasileira não era difundida mundialmente como a de língua inglesa,
porque o problema está na língua em si, que não tem a sonoridade
adequada ao fazer poético. Tive que me segurar para não recorrer à
boa e velha ignorância, tão útil nestas horas. Em outra ocasião,
tive o desprazer de ler que a filosofia só era possível em alemão.
Absurdos como estes citados proliferam por aí, mas todos tem uma
raiz comum: a crença na superioridade de uma cultura sobre outra e
na idéia da evolução de elementos culturais, que na verdade apenas
mudam para se adequarem a uma realidade dada.
É neste sentido que para mim a literatura
nunca evolui. A melhor literatura do século XX se ombreia com a
melhor literatura da Grécia antiga. Felizmente é assim. |
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