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O rito de passagem da publicação

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amos separar duas coisas distintas que nos dias de hoje cada vez menos acontecem juntas: divulgação e reconhecimento. Uma coisa é fazer uma obra chegar aos quatro cantos do país, outra é ser reconhecido como autor de talento.

No passado divulgação e reconhecimento comumente andavam juntos. Quando um autor era publicado por uma editora como a José Olympio significava que as duas coisas, divulgação e reconhecimento, estavam acontecendo ao mesmo tempo. A obra teria lugar nas estantes das boas livrarias e o simples fato de ser autor da JOE, valia mais como reconhecimento que qualquer prêmio literário ou crítica positiva do crítico mais ranzinza.

A regra da publicação por uma editora de prestígio como parâmetro de reconhecimento da qualidade do autor continua sólido. Uma obra lançada por uma editora renomada é notícia, tem noite de autógrafos, gera matéria na mídia. É um autêntico rito de passagem. Através de toda esta movimentação é que o autor consegue se posicionar no universo da produção cultural e é por ela que o leitor se inteira das obras de qualidade. Lembremos que reconhecimento é um dos poucos alimentos com que o autor conta para manter o ânimo de produzir.

Bem, estamos entrando numa era de sites, CDs, DVDs, livro eletrônico, arquivos de texto zipados, produção de livros barata e sob demanda, comércio eletrônico, etc.. Em outras palavras, se o autor quiser, pode divulgar seu trabalho a baixo custo e com total independência. Estamos bem próximos de resolver os problemas logísticos da divulgação da obra. Mas como fica nesta nova realidade a questão do reconhecimento, pois, o autor de qualidade precisa ser reconhecido e o leitor precisa saber quem são os autores de qualidade. Que parâmetros teremos no futuro para avaliar a qualidade da informação que nos chega em enxurrada por inúmeros canais?

Quando um autor publica um site com sua obra ele se desvia do circuito editora, noite de autógrafos, resenhas na mídia, etc.. Sim, porque a resenha de sites ainda é incipiente. Aqueles parâmetros tradicionais de reconhecimento se evaporam. Numa visão simplista poderíamos dizer que se o autor publicou em site então sua obra não era aquelas coisas. Mas nós temos o Arnaldo Antunes, o Augusto de Campos, o Frederico Barbosa, o Régis Bonvicino e vários outros, bem reconhecidos e com seus sites no ar.

Quando o sujeito que gosta de poesia vai a uma livraria média, encontra uns vinte ou trinta títulos para escolher, todos de autores que já passaram por vários crivos de qualidade. Quando o mesmo sujeito faz uma busca com a palavra poesia no Cadê? recebe aquela avalanche de sites pela frente e tem que fazer a via crucis se quiser encontrar algo bom.

Aí está o desafio desta nova era da informação democratizada. Ela passa ao largo dos tradicionais filtros de qualidade do complexo ecossistema da cultura. Alguns desses mecanismos tem que ser mantidos ou novos precisam ser criados para que seja possível o reconhecimento do autor, caso contrário chegará o dia em que nossas antenas só captarão ruído de fundo.

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