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as minhas caminhadas
por este mundo a parte,
é diante de ti que estaco,
como arqueólogo diligente
sobre pergaminhos cifrados
de uma civilização perdida.
Amaste com fé e orgulho,
tombaste em prol do estilo
e eu que não amo e não tombo
rio de teu mundo saudável
quando o risível sou eu.
Ah, se ainda houvesse tema elevado,
se fosse possível soneto bem torneado,
se não houvesse escombro e caos.
Estou postando este poema como mote para dar
continuidade à discussão que vi alinhavada nalguns mails da lista:
os rumos da poesia no final do milênio. Por que retornar a Bilac?
Por que voltar cem anos? Porque foi lá que se tomou o bonde para o
aparente fim de linha do terceiro milênio.
Há anos que cultivo uma relação de amor e
ódio com a poesia do Bilac. Por um lado parece-me impossível não
sucumbir diante da força de versos como:
‘Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha. ...’
(Nel Mezzo del Camin ...)
ou então:
‘Última flor do Lácio, inculta e bela, ...’
(Língua Portuguesa)
ou ainda o ufanista:
‘... Ama com fé e orgulho
a terra em que nasceste.....’
que já ultrapassou a dimensão de poema e se
converteu num daqueles ícones que na infância formam a consciência
da nossa nacionalidade.
Por outro lado, não consigo ler sem me
irritar a sua Profissão de Fé, onde compara os que se insurgem
contra as serenas e consagradas formas a uma turba de bárbaros.
Bilac é essa contradição. Nenhum como ele encarna com tamanha
perfeição o estereótipo do poeta de província. E como Bilac ainda é
imitado nas academias de letras municipais do Brasil afora. Até o
Ferreira Gullar confessa que no seu primeiro contato com a poesia
foi nos parnasianos que ele bebeu. De quem são os versos que tocam a
sensibilidade de tantos jovens na idade escolar, colocados diante da
literatura por pressões de currículo?
Bilac pode não existir mais para o fechado
círculo literário, mas está bem vivo lá no mundo real.
Isto posto, vamos à segunda parte da
história. Um dia o Manuel Bandeira decretou que estava farto do
lirismo comedido, do lirismo funcionário público. Agora queremos o
lirismo dos bêbados e dos loucos. Não sei se o Bandeira estava
consciente do que estava fazendo na época, mas ele na verdade
decretou o fim da inocência na poesia. Instaurou uma era de
liberdade que foi experimentada até as últimas conseqüências. O
modernismo, que na sua essência está carregado de furor
revolucionário juvenil e iconoclasta colocou no pedestal a liberdade
e a novidade. Mas os homens que estavam lá para usufruir esta
liberdade eram homens em crise e o Manuel Bandeira mesmo concluiu
que a única coisa a fazer era tocar um tango argentino. A crise
ganhou uma dimensão metafísica com o Claro Enigma do Drummond. E o
modernismo prosseguiu experimentando e desconstruindo tudo na mais
pura política de terra arrasada. O desdobramento final desse
processo não poderia ser outro, senão o beco sem saída. Para mim,
esse beco está representado de forma lapidar no livro Poesia
sobre Poesia do Affonso Romano de Santana. O Affonso Romano,
nosso Bilac da geração phD, inventou uma metapoesia que não é mais
um canto onde o autor exibe sua proposta estética, mas uma
declaração de falência onde o poeta diz apenas que não sabe o que
dizer, que tudo já foi escrito e de todos os modos dito. Para o
leitor, o efeito é o mesmo que ir ao um banco sem dinheiro ou a um
restaurante que fecha para almoço.
Vamos recapitular para unir as pontas. Tudo
começou com um parnasianismo que tem muito a ver com o estereótipo
popular do poeta, com aquela visão de banco de escola da poesia. O
Bilac é o píncaro da glória deste mundo saudável de sonetos bem
torneados e temas elevados. O modernismo é uma reação a isso: às
regras fixas e sem sentido, ao academismo. Os modernistas queriam
provar o mundo fora da redoma de cristal, descer da torre de marfim.
Levaram suas experiências até a fronteira do possível e agora
estamos nós aqui sentados sobre os escombros do legado modernista. O
que fazer?
Talvez cedo ou tarde comecem a se mover as
velhas leis imutáveis da ação e reação e do retorno ao princípio.
Talvez seja hora de dialogar novamente com a tradição literária,
aprender com os erros do passado, em vez de querer reinventar a
roda. Os vanguardismos afastaram o público da poesia. Este problema
um Bilac nunca teve. Foi e é amado, não pelos seus pares, mas pelo
leitor. E para quem escrevemos? |