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A última sessão de cinema
Há várias formas de assistir um bom filme como comprar o DVD, alugá-lo, esperar pela exibição na TV a cabo ou aberta, só para citar algumas alternativas dentro da lei. Na teoria, nenhuma dessas formas se compara à experiência clássica de ir a um bom cinema. Só no cinema você assiste o filme em primeira mão, com a melhor imagem e o melhor som, acomodado no melhor ambiente, certo? Há controvérsias. Eu adoro bons filmes, porém sou franco em dizer que vou pouco ao cinema e, provavelmente, vou abandonar essa opção que nos últimos tempos tem me causado mais chateações do que bons momentos.
No último feriado, minha filha me propôs que fôssemos assistir Bastardos Inglórios. Eu pensei: é um filme do Tarantino. Deve ter todo aquele cinismo e rios de sangue. Por que você quer ver esse filme, filha? Porque fala sobre a Segunda Guerra Mundial. Lembrei que ela deve estar estudando esse assunto na escola e que na semana anterior ela tinha alugado O menino do pijama listrado, um filme sobre Holocausto. Ok, bom argumento, bom filme, vamos lá. Na bilheteria, pediram a carteira de identidade dela. Infelizmente, sua filha tem 17 anos e meio e o filme é para maiores de 18. Para não deixar sem registro, fui falar com a gerente do cinema. Com aquele tom burocrático dos colaboradores contemporâneos ela me explicou que são regras do Ministério da Justiça, bla bla bla. Eu lembrei à gerente que na semana anterior eu estive no mesmo cinema e precisei pagar inteira para meu filho porque ele tinha esquecido a carteirinha de estudante. Se meu filho de 12 anos não é estudante, quem é então? Essas aporrinhações se somam a outras como horários inconvenientes, sessões lotadas, algazarra, sem falar do cara que atende o celular ao seu lado durante a sessão. Como pão duro de carteirinha que sou, não poderia deixar de citar o preço do cinema que para a família toda fica pelo menos cinco vezes mais caro do que o DVD da locadora.
Federico Fellini dizia que filmes são para se ver no cinema e não em casa, pois só na sagrada sala escura se encontra o ambiente mínimo de respeito que uma obra de arte merece. Concordo com o mestre quanto ao respeito, mas garanto que consigo esse ambiente muito mais facilmente em casa do que no shopping. Sou de um tempo anterior ao videocassete em que só havia duas maneiras de ver um filme: no cinema ou pela TV aberta. Naquela época, os cinemas de Curitiba tinham nomes como Avenida, Excelsior, Vitória, Astor, Rívoli, Lido, Bristol e não ficavam em shoppings porque não havia shoppings. Naqueles tempos de ditadura militar existia uma tal de censura e, mesmo assim, eu assisti alguns filmes impróprios para a minha idade. Por causa desse passado saudoso, eu tenho uma relação sentimental com as salas de cinema, mas meu lado Spock me diz: que videolocadora cobra meia locação de uns e inteira de outros? Ao comprar um DVD, o vendedor pergunta qual é a idade das pessoas que vão assistir o filme? A pipoca feita em casa vai me custar R$ 15,00?
Eu poderia ter dito à gerente do cinema: Ok, vou para casa agora baixar o filme pela Internet e vou assisti-lo de graça sem dar a mínima para portaria de Ministério, mas calma lá! Se todo mundo fizer isso por um punhado de dólares vamos quebrar a indústria do cinema e não teremos mais filmes do Tarantino para ver. Por isso, conversei com minha filha e vamos procurar algumas alternativas de passeio porque a velha sala escura está precisando de uma reforma. Quanto a Bastardos Inglórios, basta esperar uns meses até o filme ser lançado em DVD. Até lá, minha filha já terá 18 anos e poderemos assisti-lo em casa sem problemas de nenhum tipo.
| Imprimir artigo | Este artigo foi escrito por Radamés em 09/27/2010 às 23:07, e está arquivado em Divagações. Siga quaisquer respostas a este artigo através do RSS 2.0. Você pode deixar uma resposta ou fazer um trackback do seu próprio site. |










