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Um bom vinho (ou wiskie, ou cachaça) desce macio e não deixa resíduos para o dia seguinte. Se a bebida é de qualidade, não dá ressaca, desde que consumida com moderação, obviamente. Com filme, é o contrário, quanto melhor a fita, mais vestígios ficam para o outro dia. Os melhores filmes, aliás, podem causar alterações prolongadas que se estendem por dias. Por isso, é praticamente sacrilégio assistir bons filmes um atrás do outro. Fazendo isso, os aromas se misturam. O bom filme deve ser degustado com a mesma reverência que se dá a um vinho de fina casta. Não veja nada depois dele para que os efeitos posteriores possam se manifestar.

Já assisti bons filmes que no dia seguinte me deixaram leve, cheio de imagens e sons na cabeça. Outros me deixaram pensativo, intrigado, buscando respostas. Em alguns casos, fiquei deprimido e chocado. O importante é que esses efeitos tenham espaço para acontecer, por isso não acredito muito na autoridade de cinéfilos que veem filmes em escala industrial. Para aproveitar um bom vinho, quem degusta precisa manter o paladar apurado. É preciso estabelecer intervalos entre as degustações, não dá para misturar os sabores.

Para manter uma perspectiva crítica você não pode se saturar.Isso vale para quase tudo: filmes, bebidas, música, perfumes e até sexo.

O bom filme se conhece no dia seguinte, 5.0 out of 5 based on 1 rating