Triunfo da vontade

Triunfo da manipulação

Triumph des villens
Direção de Leni Riefenstahl
1935 : Alemanha :  114 min
Documentário sobre o sexto congresso do Partido Nazista em Nuremberg

Enquanto via a procissão infindável de rostos exibidos em Triunfo da Vontade, veio-me à cabeça uma pergunta: quantos desses arianos sólidos e confiantes estariam vivos onze anos após as filmagens? Não muitos, provavelmente, a começar por Hitler e seus seguidores mais próximos.

Triunfo da vontade é um documentário rodado em uma semana para cobrir o sexto congresso do Partido Nazista de 1934 em Nuremberg. Uma super produção que utilizou 36 câmeras, em sintonia com as dimensões do gigantesco evento promovido por Hitler para consolidar seu poder sobre o partido nazista e sobre a Alemanha. A própria estrutura do congresso foi pensada para favorecer as filmagens, por isso, Triunfo da vontade é mais que um documentário, é História em si. A linha do documentário é anunciada já nos créditos iniciais quando lemos a frase: “Autorizado por ordem do führer.” O próprio ditador sugeriu o nome para o filme, em uma referência à vontade de potência, enaltecida por Nietsche e vista por Hitler como motor da História.

Triunfo da Vontade é um filme obrigatório por várias razões. Primeiro, por ser uma fonte histórica que nos mostra a máquina nazista em seu apogeu. Também porque nos ajuda a entender até onde se pode ir com a propaganda política. Com ele, conhecemos melhor a essência do totalitarismo e podemos refletir sobre as relações entre arte, ideologia e poder. Por fim, trata-se de uma experiência estética arrojada do ponto de vista formal que influenciou os rumos do cinema documental. É um filme maldito por tudo que o nazismo representa, mas que deve ser visto. Com olhos bem abertos.

A diretora Leni Riefenstahl caiu nas graças de Hitler, que a escolheu para dirigir o documentário. Hitler sempre valorizou os espetáculos grandiosos e percebeu em Leni o talento para dirigir esse filme que mostraria ao mundo o poderio nazista. A grandiosidade é a marca registrada do documentário. A simbologia da propaganda nazista surge já na primeira cena. Hitler e seus asseclas chegam a Nuremberg de avião, sobrevoam a cidade e depois baixam à terra como se os deuses nórdicos estivessem visitando a terra alemã.

A narração é mínima. Quase todo o documentário é criado somente com a força de imagens sob um fundo musical que alterna temas de Wagner, canções folclóricas alemãs e marchas militares. O espaço para a palavra acontece nos discursos dos líderes nazistas, com ênfase nos pronunciamentos de Hitler. As câmeras parecem estar em todos os lugares como se fossem parte do público que acompanha o congresso.

Há basicamente dois personagens no documentário: Adolf Hitler e a massa. Embora vários nazistas do primeiro escalão apareçam, eles são retratados em curtas referências. Todas as artimanhas da propaganda nazista estão lá: culto messiânico ao líder; onipresença da suástica; desfiles militares suntuosos; discursos inflamados; massas perfiladas fazendo a saudação nazista; uso do fogo nas manifestações noturnas; culto aos mortos, aos heróis e ao trabalho. Leni Riefenstahl faz a sua parte com a câmera: closes em rostos viris e corpos atléticos cuidadosamente selecionados na multidão, constroem a metáfora da raça superior; a câmera colocada abaixo do líder deixa-o em condição de superioridade; tomadas no meio da massa deixam o espectador em uma condição de participante do processo.

Apesar de impressionante, o filme resulta cansativo para o espectador contemporâneo por causa da sucessão interminável de desfiles e discursos. Sua estética se liga aos ideais nazistas, que combatiam uma suposta decadência do expressionismo alemão. Nessa estética, só os homens são protagonistas, tanto que mesmo sendo dirigido por uma mulher, a participação feminina no filme é secundária e apagada. Bons observadores perceberão que essa estética não está morta. Os diretores de Hollywood continuam se valendo dela para criar atmosferas guerreiras e a propaganda política contemporânea colhe exemplos no filme para induzir o alinhamento incondicional da massa.

Leni Riefenstahl conheceu a glória e ganhou prêmios internacionais com esse filme. Mas os tempos eram outros e o nazismo ainda não tinha levado o mundo à tragédia da Segunda Guerra. Depois da guerra, Leni caiu no ostracismo e o seu principal filme tornou-se maldito. Triunfo da vontade é uma obra em que a promiscuidade entre arte e ideologia foi levada às últimas conseqüências. Leni colocou seu talento a serviço de um projeto totalitário de poder e isso custa um alto preço, principalmente quando o projeto desmorona.


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Marcante

  • O culto aos mortos no estádio das grandes concentrações ao ar livre do partido. A simbologia nazista em um de seus momentos máximos de manipulação coletiva. Não é à toa que os nazistas mantinham um Ministério da Propaganda.
  • O discurso de encerramento do congresso proferido por Hitler. Retórica fulminante a serviço da insanidade. Rudolf Hess arremata com uma frase emblemática: “O partido é o führer. O führer é a Alemanha e a Alemanha é o führer”.

Autor: Radamés

Engenheiro curitibano pela UFPR, professor e produtor de conteúdos e ferramentas educacionais para a Internet.

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