Poder pornográfico e absoluto
Caligola
Direção de Tinto Brass
1979 : Itália : 156 min
Com Malcolm McDowell (Calígula),
Teresa Ann Savoy (Drusila),
Helen Mirren (Cesônia) e
Peter O'Toole (Tibério).
Roteiro de Gore Vidal
Essa polêmica não tem fim: Calígula é um grande filme ou aquelas cenas de sexo explícito comprometeram definitivamente o seu valor? Vamos ignorar os muito carolas e ficar apenas com as críticas mais razoáveis: dizem que o sexo explícito não era essencial à obra e que deixou o filme grosseiro. A polêmica gerada por Calígula é interessante porque traz a tona a relação da sociedade com a pornografia. Na locadora, Calígula costuma ficar disponível na estante dos filmes 'sérios', que fica perto da salinha reservada aos filmes 'grosseiros'. Estes também fazem bastante sucesso. Está certo, sucesso não é medida ideal para a qualidade, mas porque um filme sério não pode ser 'grosseiro'? É interessante que as críticas ao filme costumam se focar no sexo explícito que aparece em algumas cenas. Não se faz reservas à violência, ao sadismo e à corrupção que o filme retrata. Ah, sim, essas outras mazelas costumam aparecer em abundância nos filmes sérios e nosso senso crítico já está bem anestesiado para fazermos alguma objeção em relação a isso.
Calígula é um filme indecente como a vida dos humanos demasiado humanos que retrata. Diz a História que o imperador Calígula era louco, sádico, devasso e praticava incesto com a irmã. O filme mostra isso tudo de forma nua e crua. É uma produção grandiosa, o diretor tem currículo, tem atores do primeiro time e um roteiro escrito por um grande nome do romance histórico. Bem, não vou mais ficar mostrando que o filme é bom e que se tornou maldito por causa daquelas benditas cenas de sexo caliente e pervertido.
Calígula mostra a vida do famoso imperador romano desde o momento em que ele estava prestes a assumir o cargo até o seu fim trágico. Nosso protagonista tem uma coleção admirável de defeitos. É inseguro, dependente da sua irmã, devasso ao extremo, ganancioso e depois que se torna imperador acrescenta mais adjetivos ao currículo. Torna-se sádico, cínico, déspota, irresponsável, megalomaníaco, sanguinário e psicótico. A Roma da época era um lugar perigoso para se viver. O imperador tinha poderes absolutos, mas estava cercado de inimigos dispostos a pôr fim em seu reinado. Calígula não se constrange de usar expedientes sórdidos para se manter no topo. Compra a lealdade dos soldados e do povo e elimina fisicamente potenciais adversários. Em paralelo a esses atos administrativos, transforma a corte em um bordel. Calígula teve um fim trágico, mas isso não quer dizer que em Roma o bem prevalecia sobre o mal. Quando ele se tornou inconveniente para a elite, foi substituído por outro tirano.
Como espetáculo, Calígula é teatral, até operístico. Muitas cenas são criadas explicitamente para a formação de clima. Os personagens principais estão sempre envoltos por um contingente de figurantes que compõem um cenário vivo ao fundo enquanto transcorre o diálogo dos protagonistas. Em uma das primeiras cenas, Calígula e Tibério dialogam no interior do zoológico humano cultivado pelo velho imperador. Nesse local sinistro, ocorrem toda a sorte de perversões enquanto o imperador filosofa com seu potencial e indesejado sucessor.
Malcolm McDowell compôs um Calígula atormentado, obcecado pelo poder, com momentos de insanidade, de carência, de crueldade, de arrogância, de astúcia. O Calígula do filme nutria um amor sincero pela irmã, não amor fraterno, mas carnal; talvez, por um certo anarquismo juvenil era dado a desafiar as elites; temia a morte e sabia que ela viria cedo como veio para seus pais. Por que um ser humano tão abjeto conquistou o posto com mais poderes em todo o mundo? Ainda bem que isso é passado e não ocorre mais, não é mesmo? Calígula é um filme sobre o poder absoluto e a degradação profunda que deriva desse poder. Quanto ao sexo explícito: por que não? Faz parte do realismo realista.
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