Anatomia de um crime

Anatomia da justiça

Anatomy of a murder
Direção de Otto Preminger
1959 : EUA : 160 min :  preto e branco
Com James Stewart (Paul Biegler),
Lee Remick (Laura),
Ben Gazarra (Manion),
Arthur O’Connell (McCarthy),
George C. Scott (Dancer) e
Eve Arden (Maida)
Música de Duke Ellington

Uma sugestão para quem vai assistir o filme: imagine que você é um dos doze jurados e que no final terá que dizer: inocente ou culpado. Fique atento, pois nesse filme o espectador não recebe informações privilegiadas. O crime não aparece diante das câmeras em nenhum momento. Temos que reconstituir os fatos a partir de dados que vão surgindo durante o julgamento. Ficamos sabendo que há um corpo cravejado de balas e que quem fez os disparos foi o tenente Manion, mas não é um caso fácil. Agravantes e atenuantes estão embaralhados de tal forma que o espectador fica dividido. Afinal, o tenente deve ser inocentado ou tem que pagar pelo ato que cometeu? Que saudades daqueles filmes de tribunal em que sabíamos com nitidez cristalina se o réu é culpado até a medula ou inocente como um anjinho de Rafael. Anatomia de um crime coloca-nos diante do direito real, com todas as suas manipulações, cortinas de fumaça, incertezas e seres humanos que não são absolutamente bons ou maus.

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Apocalypto

Caçada implacável ao bom selvagem

Direção de Mel Gibson
2006 : EUA : 139 min
Com Ruddy Youngblood (Pata de Jaguar) e
Dalia Hernandez (Seven).
Site oficial: www.apocalypto.com

O filme é sobre caçadas e já na primeira tomada um grupo de índios caçadores acua uma anta para a armadilha mortal. Depois de abater a presa, o líder da caçada arranca o coração do animal. Esse é o primeiro coração arrancado durante o filme.

Pata de Jaguar é o jovem caçador de uma tribo das selvas mexicanas que vê o seu mundo desmoronar quando sua aldeia é atacada por maias caçadores de cabeças. Os agressores maias querem mulheres índias para escravizar e homens para sacrificar em rituais ao deus Sol. As crianças não interessam e são simplesmente abandonadas no meio da mata. A aventura de Pata de Jaguar é para salvar sua família da brutalidade a que são submetidos. Para isso, ele terá que enfrentar situações inimagináveis para um homem urbano. O filme se divide em três momentos distintos. Na primeira parte, que é descontraída temos um retrato da vida cotidiana da tribo de Pata de Jaguar. Na segunda parte, o foco está na crueldade com que os prisioneiros dos maias eram capturados e levados ao sacrifício. Na última parte, temos a fuga espetacular e a redenção do herói que se transforma quando regressa ao seu habitat. No seu terreno, Pata do Jaguar é senhor. Sua é a terra e lá ele levará a cabo a sua vingança.

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Colateral

Quem se importa se um estranho morrer?

Collateral
Direção de Michael Mann
2004 : EUA :  116 min
Com Tom Cruise (Vincent) e
Jammie Fox (Max)
www.collateral-themovie.com

No início de Colateral todos os personagens são desconhecidos uns dos outros. Por capricho do destino ou do acaso eles vão se cruzar ao longo das poucas horas em que a história acontece e suas vidas vão se entrelaçar de forma trágica. São pessoas perdidas na noite de uma cidade desumana e que parece vazia. Colateral fala sobre solidão na selva urbana, solidão que desilude uns e que torna outros em selvagens insensíveis. Max (Jammie Fox) e Vincent (Tom Cruise) são subprodutos opostos da metrópole. Max é um pacato fracassado e Vincent um psicopata bem-sucedido. Um pensa que nada pode e o outro que pode tudo. O pacato tem um sonho distante e busca refúgio olhando para uma foto pendurada no seu quebra sol. O psicopata é uma máquina de matar dado a filosofar sobre a inutilidade da virtude. Colateral é um duelo entre dois extremos. Seria o duelo entre o bem e o mal?

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Como era verde meu vale

Paraíso perdido

How green was my valley
Direção de John Ford
1941 : EUA : 118 min : branco e preto
Com Walter Pidgeon (Mr. Gruffydd),
Maureen O’hara (Angharad),
Roddy McDowall (Huw Morgan),
Donald Crisp  (Gwilym Morgan) e
Anna Lee (Bronwyn Morgan)

O filme começa com Huw Morgan, narrador e personagem, se preparando para deixar o vale em que viveu toda sua vida até então. O lugar está decadente e triste: vemos uma colina com casas decrépitas enfileiradas à beira da estrada e, lá no alto, chaminés de uma mina de carvão expelindo uma inesgotável e grossa fumaça negra. Depois dessa breve introdução, a narrativa recua 50 anos e voltamos à infância do narrador, a um paraíso mítico que se perdeu no tempo.

O mundo perfeito de Huw (Roddy McDowall) é simples e puro. Nele, cada pessoa tem um lugar e um papel a cumprir. Na pequena comunidade do País de Gales vive-se em função da mina de carvão onde todos os homens trabalham. As mulheres cuidam da casa, a família é completa, numerosa e sólida. A mesa é farta e todos sentam juntos na hora do jantar, fazem uma oração e só então o patriarca distribui a comida. No domingo, a família unida vai ao culto protestante na pequena capela. Todos conhecem a todos, namoro é uma coisa muito séria e termina em casamento. E as festas de casamento são alegres, com muita dança, cantoria e regadas a cerveja. Tudo perfeito não fossem as coisas da vida.

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Crepúsculo dos deuses

A estrela cadente e o Joâo Ninguém

Sunset Boulevard
Direção de Billy Wilder
1950 : EUA : 110 min : preto e branco
Com William Holden (Joe Gillis)
Gloria Swanson (Norma Desmonds) e
Erich Von Stroheim (Max)

Quem conhece o diretor Billy Wilder a partir de suas deliciosas comédias, pode pensar que Crepúsculo dos deuses nem seja obra dele. Embora alguns vejam toques de humor negro no filme, trata-se de um drama melancólico com uma visão dura, duríssima, sobre a decadência e o fracasso. A história tem fim trágico, mas não há problema em revelar isso, afinal o filme começa com um cadáver boiando na piscina e depois regride no tempo para contar como tudo aconteceu.

Um roteirista de cinema desempregado é perseguido pelos cobradores que querem tomar o seu carro. Fugindo das dívidas, Joe Gillis (William Holden) acaba por acaso na mansão em que Norma Desmonds (Gloria Swanson), ex-estrela de cinema, vive reclusa. Os interesses se cruzam e Joe acaba se tornando roteirista da ex-atriz em um projeto dela para retornar às telas. Só que aquilo que começa como uma relação profissional e oportunista evolui para um relacionamento complexo e dramático. Para complicar a situação, temos o mordomo Max que desempenha um papel chave na trama.

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