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Crase
Em sentido amplo, crase é a pronúncia
contraída de dois fonemas iguais e adjacentes. Por exemplo: no
enunciado seus sapatos temos dois fonemas /s/
adjacentes. A tendência do falante é realizar uma pronúncia
contraída desses fonemas que, em muitos casos, chega aos ouvidos do
receptor como um único fonema. O fenômeno da crase é muito comum na
fala. Basta que dois fonemas iguais ocorram adjacentes. Isso se dá
com freqüência nas fronteiras de palavras, quando o fonema final da
primeira se repete no início da seguinte. Percebemos a crase em
enunciados como:
as sete espadas /ásétêspádás/
os céticos sábios /ôsétikôsábiôs/
o ouro ornava a
aba /ôurôrnávábá/
Um dos princípios básicos de nossa
ortografia é a segmentação do texto palavra a palavra, que parte da
suposição que a realização oral do discurso se dá com pausas entre
as palavras. Sabemos que isso não ocorre na fala cotidiana, mas há
um princípio de produtividade aceitável em favor da prática da
segmentação palavra a palavra na escrita. Escrevemos supondo que a
palavra é pronunciada isoladamente. Com isso, ganhamos uma maior
uniformidade na escrita, evitando que a mesma palavra possa ser
representada de formas diferentes dependendo do contexto em que é
proferida. A conseqüência dessa convenção é que nossa escrita ignora
o fenômeno da crase. No entanto, há um caso particular em que
representamos a crase na escrita. Para isso, fazemos uso do acento
grave.
Acento grave
Representamos a crase somente na contração
da preposição a com o fonema /á/, se este formar o artigo
feminino definido (a, as), ou o demonstrativo aquele e suas
flexões (aqueles, aquela, aquelas, aquilo). Veja alguns
exemplos:
* Dirija-se
a a recepção.
Dirija-se à recepção.
* Refiro-me
a aquele livro.
Refiro-me àquele livro.
* Obediência
a as leis.
Obediência às leis.
* Viagem a a
Bahia.
Viagem à Bahia.
A crase
de dois fonemas /á/ é representada substituindo a+a por à,
ou seja, pelo a com acento grave, ou craseado. Observe que a
representação da crase não se estende a outros casos de contração de
dois fonemas /á/ contíguos. Não é válido usar crase em situações
como no exemplo a seguir:
*
Viagem Àtenas.
Viagem a Atenas.
As
dificuldades no uso do acento grave
O uso
do acento grave costuma confundir até os redatores experientes. Isso
acontece porque, devido às sutilezas de nossa estrutura gramatical,
nem sempre é fácil identificar corretamente a contração a+a.
Vamos analisar as frases a seguir.
Viagem a
Brasília.
Viagem à Bahia.
As
frases parecem similares, mas em uma temos contração e em outra,
não. A palavra Brasília não é precedida por artigo em frases
como a do exemplo. Já, a palavra Bahia ocorre precedida por
artigo. Podemos perceber melhor a presença ou a ausência do artigo
criando frases alternativas. Vamos fazer isso permutando a
preposição a por até.
Viagem até
Brasília.
Viagem até a Bahia.
Soa
estranho dizer:
* Viagem até
a Brasília.
* Viagem até Bahia.
Essa
aparente similaridade confunde os redatores. A dúvida aqui está em
saber se o artigo está presente ou não e se temos contração. Em
situações assim, o melhor é tentar gerar frases similares que nos
dêem uma idéia mais clara sobre a estrutura sintática da frase.
Outra situação que costuma gerar dúvidas está exemplificada nas
frases a seguir.
Respondo a
pergunta.
Respondo à diretoria.
Aqui, a
dúvida que pode surgir é quanto à presença da preposição a na
estrutura das frases. Para tirar a dúvida, precisamos analisar a
estrutura sintática. Fazendo
isso, vamos perceber que na primeira frase, a palavra
pergunta é objeto direto da frase (o que respondi), logo não
temos preposição. Na segunda frase, a palavra diretoria forma o
objeto indireto (a quem respondo), logo temos preposição.
O médico
assistiu a paciente.
O médico assistiu à peça teatral.
Nesse
exemplo, temos que observar em que sentido o verbo está sendo
empregado. Assistir no
sentido de cuidar, zelar, atender não é seguido de preposição, mas
no sentido de acompanhar como espectador, será seguido de
preposição.
Em
muitos casos, a presença do artigo ou da preposição é opcional. O
redator, nessas circunstâncias, fica livre para usar o acento grave
ou não. Exemplo:
Refiro-me à
sua prima.
Refiro-me a sua prima.
Artifícios
para testar o uso da crase
Podemos
usar vários artifícios para analisar a estrutura da frase e assim
determinar se usaremos crase ou não. Um deles é permutar o
substantivo feminino que sucede a provável contração por um similar
masculino. Com isso verificamos a presença do artigo feminino.
Fui à praia.
Fui ao campo.
Respondo à
diretoria.
Respondo ao conselho de administração.
Respondo a
pergunta.
Respondo o teste.
Se
fazendo a permuta, tivermos que usar ao, então ocorre crase,
pois temos preposição + artigo.
Outro
artifício para verificar a presença do artigo feminino consiste em
substituir a preposição a por outra de mesmo efeito.
Vire à
esquerda.
Vire para a esquerda.
Como se
vê, a dificuldade não está precisamente no uso do a craseado,
mas sim, em saber quando se usa a preposição a e o artigo
definido feminino. Infelizmente, só o convívio com o idioma nos traz
a fluência no uso de ambos e, conseqüentemente, do acento grave.
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