Ortografia brasileira

Ortografia brasileira é o conjunto de regras oficiais que determina nossa escrita. Nossa ortografia tem um vínculo histórico e social profundo com a variante culta do idioma. Tradicionalmente, as regras ortográficas consideram apenas a variante culta e podemos dizer que não existe nenhuma ortografia oficial para as demais variantes da nossa língua.

No Brasil, as regras ortográficas oficiais têm sido definidas pela ABL (Academia Brasileira de Letras). Os principais documentos que regem nossa ortografia são:


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Hífen gera empregos

A mais recente reforma ortográfica lusófona unificou a grafia em língua portuguesa a partir de 2012, pelo menos aqui no Brasil. No além-mar os gajos ainda resistem em adotá-la. As mudanças mais enjoadas trazidas pela reforma se referem ao uso do hífen.  O emprego do hífen era nebuloso e, com o acordo, ficou enevoado, hermético, iniciático. Eu gosto de me expressar nos rigores do português castiço, mas confesso que não domino as novas regras do hífen e tenho uma boa razão para isso: não há regras para o uso do hífen.

Hífen é aquele risquinho horizontal que colocamos entre duas palavras como em bem-vindo ou em dia-a-dia (mas só em alguns casos, bem entendido). Na teoria, uma das funções do hífen é avisar que as palavras unidas por ele costumam andar juntas e comunicam um significado distinto daquele que vem da compreensão das palavras em separado. Por exemplo: quando falamos pé-de-meia não estamos falando do nem da meia mas de economias. Essas palavras que andam de mãos dadas graças ao hífen e que são conhecidas entre os especialistas como locuções são bem compreendidas na língua falada onde obviamente não existe hífen. Os falantes entendem as relações entre as palavras quando conversam entre si e só precisam usar hífen no discurso escrito porque algum dia no passado remoto da língua alguém achou que seria interessante usar o tal risquinho em alguns casos especiais. A utilidade prática do hífen é nula. Se analisarmos as regras da escrita em português veremos que as locuções são escritas ora com hífen (recém-nascido), ora com espaços entre as palavras que a compõem (pé de moleque) e, em outros casos juntando as palavras (paraquedas).

Gramáticos da velha guarda se desmancham em dar explicações “científicas” para o uso do hífen nesta ou naquela situação, mas o fato é que o emprego do pequeno risco horizontal virou samba-do-crioulo-doido depois do AcordoOrtográfico e ninguém mais sabe porque tudo-junto se escreve se-pa-ra-do. Uma coisa é certa. O acordo ortográfico foi acordado por pessoas do ramos das letras que tinham interesse cartorial em manter a língua repleta de exceções confusas. Se a nova ortografia tivesse sido pensada por um programador de computadores, por exemplo, haveria uma regra simples do tipo: usa-se o hífen em todas as locuções. Infelizmente, ainda há gente que vive de colocar hífen nos lugares certos. Hífen dá emprego e escasso poder a alguns pedantes. As reformas ortográficas da língua portuguesa acontecem em média a cada 30 anos. Espero que na reforma de 2040 a regra seja simples e direta: não se usa mais hífen e ponto.

Essa reforma ortográfica! Grafias duplas

cartaz do concerto coral sinfónico

O económico agrónomo cleptómano. Se você é português não deve ter estranhado a frase anterior, mas se é brasileiro pode ter ficado com a impressão que os acentos estão errados.

A reforma ortográfica, destinada a unificar a escrita em língua portuguesa, admite muitas grafias duplas. Não falo das palavras que se escreve de dois modos tanto no Brasil como em Portugal. Refiro-me às grafias duplas geograficamente marcadas. Por aqui, ninguém escreve telefónica com acento agudo e no além mar eles não escrevem toxicômano com acento circunflexo. As palavras proparoxítonas com a vogal oral o fechada têm duas grafias: uma tipicamente brasileira com acento circunflexo e outra com acento agudo usada em Portugal.

Não sei porque os redatores do Acordo Ortográfico deixaram essa grafia dupla persistir. Foi uma bola fora, pois aqui no Brasil ninguém vai escrever anómalo, da mesma forma que os portugueses não vão escrever autômato. A presença dessas palavras na escrita vai denunciar a procedência do texto. Tudo bem que é fácil identificar se o texto é de Portugal ou do Brasil sem olhar para a grafia, afinal, existem diferenças sensíveis de vocabulário e estruturas sintáticas entre essas duas variantes do português. Mas a ideia do Acordo não era unificar a escrita? Ah, esses letrados e suas excessivas exceções. Chegam a ser cómicos/cômicos.

Essa reforma ortográfica! Menos maiúsculas

frontão romano

A reforma ortográfica flexibilizou o uso de maiúsculas na grafia portuguesa. Nesse ponto, a reforma seguiu a tendência dominante pela diminuição da formalidade nas relações sociais. O uso de maiúsculas na escrita é marcadamente cerimonial. Historicamente, as maiúsculas são mais antigas, surgiram na Idade Antiga, enquanto que as minúsculas foram desenvolvidas na Idade Média. Esse aspecto histórico gerou uma associação das maiúsculas ao passado glorioso do período clássico e, por isso, elas são reconhecidas como mais nobres. Começar um nome com maiúscula dá um toque de formalidade à expressão, soa como uma reverência.

O Acordo Ortográfico deixa por conta dos escribas escolherem entre a opção mais formal (com mais maiúsculas) e a mais contemporânea como nestes exemplos:

Prédio na Rua XV de Novembro.
Prédio na rua XV de Novembro.

O Governador José Serra.
O governador José Serra.

O livro Memórias de um Sargento de Milícias.
O livro Memórias de um sargento de milícias.

As ciências naturais Biologia, Física e Química.
As ciências naturais biologia, física e química.

Em outros usos as iniciais maiúsculas foram suprimidas como nos nomes dos dias da semana, meses, estações do ano e pontos cardeais (segunda-feira, janeiro, primavera e sudoeste).

Houve um tempo em que os cavalheiros tiravam o chapéu ao cruzar com as senhoras de passagem. Atualmente, os homens sequer usam chapéu e, se usassem, dificilmente fariam mesuras às damas. Foi-se o tempo das reverências. A escrita segue o espírito da sociedade, por isso, menos maiúsculas, mais moderno. Ou seria pós-moderno?

Essa reforma ortográfica! Genève, Milano e München

nippon

O Acordo Ortográfico recomenda o uso dos topônimos estrangeiros vernáculos, ou seja, devemos usar os nomes de locais estrangeiros seguindo o português tradicional. Vou exemplificar: o nome do país dos japoneses é escrito Japão aqui no Brasil, Japan pelos americanos e Nippon pelos japoneses quando eles usam o alfabeto latino. Japão é o topônimo vernáculo para o país dos japoneses e pouca semelhança tem com a forma que os nipônicos usam para se referir à sua terra. Isso acontece porque no português vernáculo era comum fazer adaptações drásticas nos topônimos estrangeiros. München passou a Munique, Milano a Milão, Genève a Genebra e assim por diante. Dá para perceber que a língua portuguesa era dominada pela idéia nacionalista de aportuguesar os nomes estrangeiros. Na atualidade, a tendência é de manter a grafia e pronúncia originais dos nomes, sempre que possível.

A regra do Acordo sobre os topônimos vernáculos não é apenas ortográfica. É também uma regra de escolha lexical, pois sugere o uso de uma palavra em lugar de outra. No caso, sugere a palavra aportuguesada em lugar da forma de origem. O Acordo Ortográfico adotou uma postura de equilíbrio nesse ponto. Manteve um pé na tradição ao recomendar o uso das formas vernáculas e se alinhou com a tendência atual do pensamento multicultural ao permitir a grafia original dos topônimos estrangeiros de formação recente. Afinal a língua não pára de evoluir e na época de Camões não existiam Zimbábue, Sri Lanka ou Mianmar.

Por isso, quando for viajar aos EUA lembre de escrever Nova Iorque enquanto estiver em solo brasileiro. Só use New York quando chegar lá. Quanto a Nova York, esqueça tanto aqui como lá.