A estronha língua portuguesa

Fico imaginando os apuros que as professoras passam para ensinar às crianças como se fala e escreve em língua portuguesa. As crianças têm a maior facilidade para incorporar regras e descobrir a lógica das coisas. Deve ser frustrante para as crianças e para quem as ensina ter que demolir construções mentais elegantes e simples, substituindo-as por exceções intermináveis que só poluem nossos arquivos mentais. Vamos exemplificar com algumas palavras pitorescas do nosso idioma:

Campi. Plural de campus. Mas o plural em português não se forma acrescentando um S no final da palavra?

Démodé. Sabemos que as palavras em português têm no máximo um acento agudo, exceto essa palavra démodé citada inicialmente.

Know-how. Todo aluno sabe que em português não se usa as letras K nem W, a não ser em um calhau de palavras dicionarizadas e citadas no VOLP (Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa).

Habitat. É de conhecimento geral que consoantes travadas no final de palavra não pertencem ao habitat da língua aportuguesa.

Papisa. Se a Igreja Católica não permite que mulher reze missa, por que existe o feminino de papa?

Pizza. Eu adoro pitza, mas será que pedindo pizza receberei a verdadeira pitza napolitana?

Sushi. Aquele fonema chiado que aparece na culinária japonesa é escrito em português de muitas formas, às vezes com x, outras com ch e de vez em quando com sh.


Veja também: Conjugador de verbos em Excel

Para provar que existe lógica em nossa língua resolvi criar um conjugador de verbos em Excel. Baixe a planilha e use no celular ou no computador. Download Assista ao vídeo, veja como a planilha funciona e entenda melhor o nosso sistema de verbos.

Já tivemos tantas reformas ortográficas no Brasil, Infelizmente, nenhuma delas teve caráter simplificador. Somos liberais e aceitamos palavras estrangeiras sem problemas, inclusive continuamos a usar as regras ortográficas do país de origem da palavra.  Tudo bem, somo assim, mas há um preço a pagar por esse crescimento desordenado do idioma. Quem sabe um dia aprender e ensinar a língua se torne uma tarefa mais fácil.

Hífen gera empregos

A mais recente reforma ortográfica lusófona unificou a grafia em língua portuguesa a partir de 2012, pelo menos aqui no Brasil. No além-mar os gajos ainda resistem em adotá-la. As mudanças mais enjoadas trazidas pela reforma se referem ao uso do hífen.  O emprego do hífen era nebuloso e, com o acordo, ficou enevoado, hermético, iniciático. Eu gosto de me expressar nos rigores do português castiço, mas confesso que não domino as novas regras do hífen e tenho uma boa razão para isso: não há regras para o uso do hífen.

Hífen é aquele risquinho horizontal que colocamos entre duas palavras como em bem-vindo ou em dia-a-dia (mas só em alguns casos, bem entendido). Na teoria, uma das funções do hífen é avisar que as palavras unidas por ele costumam andar juntas e comunicam um significado distinto daquele que vem da compreensão das palavras em separado. Por exemplo: quando falamos pé-de-meia não estamos falando do nem da meia mas de economias. Essas palavras que andam de mãos dadas graças ao hífen e que são conhecidas entre os especialistas como locuções são bem compreendidas na língua falada onde obviamente não existe hífen. Os falantes entendem as relações entre as palavras quando conversam entre si e só precisam usar hífen no discurso escrito porque algum dia no passado remoto da língua alguém achou que seria interessante usar o tal risquinho em alguns casos especiais. A utilidade prática do hífen é nula. Se analisarmos as regras da escrita em português veremos que as locuções são escritas ora com hífen (recém-nascido), ora com espaços entre as palavras que a compõem (pé de moleque) e, em outros casos juntando as palavras (paraquedas).

Gramáticos da velha guarda se desmancham em dar explicações “científicas” para o uso do hífen nesta ou naquela situação, mas o fato é que o emprego do pequeno risco horizontal virou samba-do-crioulo-doido depois do AcordoOrtográfico e ninguém mais sabe porque tudo-junto se escreve se-pa-ra-do. Uma coisa é certa. O acordo ortográfico foi acordado por pessoas do ramos das letras que tinham interesse cartorial em manter a língua repleta de exceções confusas. Se a nova ortografia tivesse sido pensada por um programador de computadores, por exemplo, haveria uma regra simples do tipo: usa-se o hífen em todas as locuções. Infelizmente, ainda há gente que vive de colocar hífen nos lugares certos. Hífen dá emprego e escasso poder a alguns pedantes. As reformas ortográficas da língua portuguesa acontecem em média a cada 30 anos. Espero que na reforma de 2040 a regra seja simples e direta: não se usa mais hífen e ponto.

A superioridade do internetês

Não sei me expressar em internetês como meus filhos, o que não me impede de ter uma certa admiração por essa variante de escrita que se difundiu pela Internet. Continuarei escrevendo na ortografia padrão, mas tenho certeza que o internetês vai influenciar profundamente as reformas ortográficas do futuro. Quando a garotada de hoje estiver no poder, vai querer incorporar alguns princípios do internetês na escrita oficial. E quais seriam as qualidades do Internetês? Nenhuma, diriam os tradicionalistas ranzinzas, mas olhando bem elas existem sim. Vejamos:

Fim das maiúsculas. As maiúsculas têm função meramente cerimonial na escrita oficial. Se fossem eliminadas, não haveria prejuízo nenhum ao entendimento da escrita.

Fim dos acentos. Quem precisa de acentos? Alguns alegam que os acentos orientam a leitura, mas isso é conversa fiada. Acentos não servem para nada, que o digam os ingleses.

Escreve-se como se lê. O internetês procura se aproxima do ideal de escrever como se lê, embora esteja longe de ser bem sucedido nessa empreita. Mesmo assim, é mais competente nesse intento do que a ortografia tradicional.

Abreviar sempre. O internetês é bom na arte de abreviar. Você vira vc. Sõ ficam as consoantes suficientes para captar a mensagem. Trata-se de uma técnica antiga e eficiente encontrada em outras ortografias.

Emoção na escrita. O internetês encontra recursos para expressar no texto as emoções de quem está escrevendo. Os emoticons e outros recursos que colocam no papel a entoação deixam o internetês mais expressivo que a ortografia oficial.

Criatividade. O internetês abusa da criatividade e com isso consegue efeitos muito interessantes. A escrita fica mais estética.

E sobre os defeitos do Internetês? Certamente existem, mas deixo a missão de identificá-los a cargo daqueles que defendem a expressão nos rigores do português castiço.

Essa reforma ortográfica! Quarentena para os estrangeirismos

cognac conhaque

Os criadores da Reforma Ortográfica deixaram a ABL (Academia Brasileira de Letras) em uma saia justa. Cabe à ABL publicar o Vocabulário Ortográfico, o livro que mostra a grafia oficial das palavras da língua portuguesa no Brasil. O problema é que o Acordo Ortográfico veta as grafias estrangeiras. O que são grafias estrangeiras? Boa pergunta, mas não vamos respondê-la nesse post. Basta sabermos que elas são vetadas no VOLP (Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa). São exemplos de grafia estrangeira: hardware, jingle e pizza. O que fazer se essas palavras circulam por aí e precisam ser escritas? A ABL adotou uma solução engenhosa: no final do VOLP incluiu uma lista de palavras sob o lacônico título palavras estrangeiras. Entende-se que são palavras de uso corrente no país, mas que usam grafia estrangeira. Dessa forma, a ABL se livrou do ridículo que seria não registrar oficialmente a grafia de palavras que estão na boca do povo como bunker, yakisoba ou blog. Ao mesmo tempo, colocou essas palavras em quarentena antes de uma incorporação oficial definitiva ao idioma.

Nós estamos acostumados a uma velocidade alta de transformação social e, por isso, achamos leeeeeeento o processo de incorporação das palavras estrangeiras ao nosso léxico. No entanto, é preciso admitir que o conservadorismo da ABL tem sua razão para ser. Primeiro a palavra tem que se firmar como genuína do idioma; depois ela passa por uma acomodação fonética e, por último, por uma acomodação ortográfica. Esse processo ocorre com todos os estrangeirismos. Basta lembrar como demorou a acomodação de palavras que chegaram ao nosso idioma há mais tempo como as francesas boate (de boite), abajur (de abat-jour) ou conhaque (de cognac). E mesmo depois que a palavra ganha sua grafia nacional, leva um bom tempo até que os nativos passem a adotar a grafia aportuguesada. Você já viu alguém tomando uísque? Whisky é mais chic (ops, chique), não é mesmo?

Como será a reforma ortográfica de 2040

Internetês

No Brasil, acontece uma reforma ortográfica a cada 30 anos aproximadamente. Tivemos reformas em 1943 e 1971. Em 2009, iniciamos a primeira reforma do século XXI. Seguindo essa lógica podemos imaginar que haverá uma nova reforma daqui três décadas.

Em 2040, a garotada de hoje estará no poder. Hoje, eles passam o dia enviando torpedos pelo celular, teclando no MSN ou xeretando no Orkut. Com certeza, essa experiência de escrita vai influenciar a próxima geração de tomadores de decisão. Quem sabe, então, teremos a primeira reforma ortográfica realmente simplificadora da nossa história.

Esses dias, eu estava no Google Analytics observando os hábitos dos usuários que frequentam o meu site. Os números são claros e mostram que os internautas praticam a ortografia simplificadora. Um exemplo: quando olhei o relatório, 380 internautas tinham procurado uma página do meu site pelo argumento de busca “lixo organico“. Outros 34 usaram as palavras-chave “lixo orgânico“. Ou seja: menos de 10% dos usuários utilizaram o acento circunflexo nesse contexto informal que é uma busca na Internet. Mesmo assim, a pesquisa dá certo porque os mecanismos de busca entendem o que o usuário quer dizer.

No site onde trabalho, os usuários nos enviam perguntas por escrito. A esmagadora maioria delas é redigida somente com minúsculas. As maiúsculas são solenemente ignoradas por 90% desses internautas. Os sinais de pontuação também costumam ser suprimidos. A ausência de pontuação seria uma variação da velha elipse, recurso retórico muito apreciado por quem valoriza a concisão? Sim. Trata-se de uma redação mais concisa, onde não se busca estilo, mas apenas comodidade. Diante desses fatos, penso que se os teclados de computador deixassem de ser fabricados com teclas para acentuação, pontuação e maiúsculas a maioria dos usuários nem notaria a ausência. Por aí, dá para ter uma idéia do rumo que pode tomar a próxima reforma ortográfica. Alguns vão dizer: Qua qua qua, esse internetês não vai dar em nada. Veremos. Basta esperar uns trinta anos.

Crédito de imagem: Revista Língua