Conservapedia e os adoradores do acaso

Felizmente, a Wikipedia não é a única enciclopédia da Internet, pois apesar de todas as suas virtudes, ela tem suas limitações. Recentemente, surgiu a Conservapedia (www.conservapedia.com), que usa estrutura de wiki e se propõe a fazer um contraponto à Wikipedia trazendo uma visão cristã conservadora do mundo. Seus verbetes mais polêmicos são aqueles ligados à evolução. Lá se afirma que o mundo surgiu a cerca de 6000 anos e que os homens conviveram com os dinossauros. Todos têm o direito de crer no que acham melhor para si, mesmo que as evidências apontem na direção oposta. Mas o que me incomoda nesse caso, não são os criacionistas que mantêm a Conservapedia. Preocupa-me o fundamentalismo oposto. Os criacionistas não têm voz ativa no meio científico, ao contrário dos ateístas militantes. Eu nunca consegui entender o que o ateísmo tem a ver com ciência. Sempre entendi que a ciência deve manter igual distância tanto do criacionismo quanto do ateísmo, porque as duas vertentes tem muito em comum entre si e nada em comum com o pensamento científico. Nunca fui a fundo para saber se o fundamentalismo ateu influencia de alguma forma negativa o pensamento científico. Sabemos que o criacionismo, turvou por muito tempo o avanço de teorias como a da evolução. Resta saber se a hipótese do acaso não causa igual estrago à evolução da ciência.

Homo artificalis

Ao escrever o romance Frankenstein, Mary Shelley antecipou um dos grandes dramas humanos do terceiro milênio: o cientista cria e a criatura se rebela contra o criador. Ao meditar sobre as possibilidades da engenharia genética sou levado a crer que um dia o homem criará o seu sucessor como espécie dominante nesse planeta. No passado, o homo sapiens, de alguma forma, venceu a luta pela perpetuação em contraste com outros hominídeos que como o homem de Neanderthal se extinguiram. Quando os homens usarem os recursos da engenharia genética para criar novas espécies a tentação será irresistível no sentido de criar uma espécie derivada da humana, mas superior em habilidades. Como a evolução é progresso e não meramente adaptação, estará aberto o caminho para o surgimento de formas de vida mais complexas do que as que conhecemos, no caso mais complexas e sofisticadas do que nós mesmos. Não estou falando de robôs ou andróides que se rebelam contra a espécie humana, mas em uma nova espécie derivada da humana, vida autêntica com aquele irresistível impulso de perpetuação e que há de se impor como nova espécie dominante. E isso se dará por uma ração simples: a nova espécie é superior em habilidades e terá uma vantagem competitiva esmagadora sobre a espécie que a gerou. Nesse ponto o papel do homo sapiens estará cumprido. Entregaremos o bastão e uma espécie mais qualificada assumirá o comando na tortuosa tarefa de se aproximar de Deus.

Promessas de ano novo

Bem, ano novo chegou e tenho que fazer algumas promessas a mim mesmo. Para não me levar ao auto-engano, vou divulgar as promessas aqui para que haja testemunhas.

8 macro promessas

Ler os 1024 livros mais importantes escritos até hoje.
Escrever 8 livros (espero que sejam importantes para alguém).
Ouvir a Abertura 1812 de Tchaikovsky … Na praça Vermelha.
Refazer o caminho de Van Helsing ao perseguir o conde Drácula de Londres até a Transilvânia … Em um Mercedes.
Fundar uma sociedade secreta. Não posso dar detalhes sobre isso.
Tirar 128 fotos de Curitiba e repetir cada foto todo ano até o resto da minha vida.
Criar uma caranguejeira. (Acho que o IBAMA não vai permitir.)
Inventar uma palavra que acabe dicionarizada.

4 micro promessinhas

Ler um livro a cada 15 dias.
Assistir um filme clássico por semana.
Escrever um post por semana neste blog.
Ficar unplugged um dia a cada semana.

A Globo quer saber de onde virá o dinheiro

Estava eu vendo o Jornal Nacional quando notei um novo padrão de cobertura da corrida presidencial 2006. A Globo agora cobre a agenda de todos os candidatos, inclusive dos nanicos, o que pode ser bem democrático, mas cacete, na medida que dá voz a pessoas que não tem representatividade para consumir o horário nobre das nossas mentes. Mas o padrão que eu quero ressaltar é o seguinte: a emissora anuncia a proposta do candidato. Fulano prometeu isso ou aquilo. Só que na seqüência, ele deve dizer “como” cumprirá a promessa. Quando a Globo acha que o candidato não deu explicações satisfatórias sobre “como” cumprirá a promessa, encerra a cobertura com a frase: “o candidato não informou de onde virão os recursos para realizar sua proposta.”

A Globo está agindo em sintonia com a Lei de Responsabilidade Fiscal, que tem uma lógica bem simples: gastou tem que pagar. Provavelmente algum guru da emissora, elocubrando lá debaixo de seu turbante, decidiu que é preciso levar os brasileiros a um novo patamar de consciência política. Sempre didaticamente, um degrau de cada vez, a emissora resolveu que sua cruzada nessa eleição será inculcar no eleitorado brasileiro a consciência da responsabilidade fiscal. Por coincidência, os candidatos mais dispostos a assumir a imagem de fiscalmente responsáveis são o primeiro e o segundo colocado nas pesquisas.

Vamos e venhamos: orçamentos são finitos e escassos, mas existem mil maneiras diferentes de fatiar o queijo, dependendo das prioridades de quem tem a faca na mão. É cansativo a cada dia ouvir o repórter perguntar: “mas de onde virá o dinheiro?” O dinheiro vai ser tirado de outro lugar onde faz menos falta, ora. Infelizmente, seria preciso analisar a proposta completa do candidato, saber onde ele vai cortar, onde ele vai injetar dinheiro, etc., mas isso tudo é muito técnico. Não creio que estejamos preparados para esse nível satisfatório de questionamento.

Essa tentativa da Globo de evangelizar o eleitor me faz lembrar da primeira campanha realizada aqui em Curitiba pela prefeitura em pról da coleta seletiva do lixo. Nessa campanha, que ocorreu há anos atrás, o público foi orientado a separar o lixo em duas latas diferentes: a do lixo comum e a do lixo que não é lixo (o reciclável). Só depois de muitos anos, em 2006, a prefeitura iniciou uma nova campanha, mais aprofundada. Agora os curitibanos começam a separar o lixo em cinco latas diferentes: orgânico, papel, metal, plástico e vidro, cada uma com sua cor específica. Se a coleta seletiva de lixo ocorresse da forma mais sofisticada possível o número de latas seria bem maior. Infelizmente, a população não está pronta para tanto. Com o eleitorado não é diferente. Ainda estamos no primeiro degrau da conscientização sobre a responsabilidade fiscal. Espero que o eleitor não absorva de forma equivocada esse conceito e passe a agir como os repórteres papagaios da Globo: “mas de onde virá o dinheiro?”

Bia Falcão e os dólares na cueca

Novela de televisão é melodrama e uma das regras desse gênero é que, no final, os mocinhos se dão bem e os vilões se dão mal. Não foi o que aconteceu ao final da novela Belíssima. Bia Falcão, a vilã, após cometer alguns assassinatos no Brasil, foge em um jatinho para Paris, onde encerra a novela em grande estilo bebendo champanhe com seu gigolô trazido do Brasil. Outra regra válida para novelas é que, somente em alguns poucos casos, o autor tem o direito de formar opinião no público e que, na maioria das vezes, ele apenas reflete a opinião formada dos espectadores. Infelizmente, para criar esse final contrário às regras do melodrama, o autor de Belíssima não teve que contrariar a opinião formada dos telespectadores. Ao contrário, a novela teve o fim que teve justamente porque os telespectadores estavam preparados para aceitar um fim com inversão de valores.
Ocorreu algo semelhante em 1988 com a novela Vale Tudo, da Rede Globo. No final de Vale Tudo, o vilão também escapa em um jatinho e manda uma banana para os brasileiros da janela.
Diferentes épocas, mas o mesmo contexto social. Em 1988, o país vivia um período de grande desgaste da classe política diante da opinião pública. A população presenciava políticos corruptos escapando ilesos de qualquer punição por suas falcatruas. Em 2006, a situação não é diferente na degradação da vida política.
Como em todo melodrama, o final é o momento de se passar a mensagem. Seria típico esperar um final em que os valores positivos triunfam, o bem vence o mal, etc. Mas porque o autor optou pela inversão de valores? Por que Bia Falcão terminou tomando champanhe na janela, com a paisagem da Torre Eifel ao fundo? Por que o garoto de programa, que durante a novela toda teve a oportunidade e o incentivo para mudar de ramo, optou por acompanhar Bia a Paris em mais uma concessão do autor à negação dos valores que um melodrama deveria reforçar?
Infelizmente, autor de novela não forma opinião num caso desses. Ele não pode ir contra a vontade do público. E talvez o público queira mesmo ver os vilões se dando bem. Talvez seja esta a reação torta do público diante da ressaca moral que vive o país. Talvez o brasileiro se enxergue bem no papel de gigolô da classe política e ache natural carregar dólares na cueca como mula a serviço de políticos corruptos.