Uniban ou Taliban?

Geisy Arruda na Uniban

O incidente envolvendo a aluna Geisy Arruda colocou a direção da Uniban em uma saia justa cor de rosa e mostra que os acadêmicos dessa universidade tem muita lição de casa para pôr em dia. Recapitulando: a aluna compareceu ao campus da Universidade Bandeirante em São Paulo desfilando um modelito curtíssimo e foi hostilizada pelos alunos que a xingaram de puta, entre outras humilhações. A moça teve que sair do campus escoltada pela polícia militar. O episódio ficou registrado em vídeos amadores publicados no YouTube. Com isso, o caso ganhou repercussão nacional na imprensa, o que faz sentido, tendo em vista as cenas grotescas.

A universitária errou no comprimento do vestido e confundiu as rampas da universidade com a avenida Marquês de Sapucaí, onde desfilam as escolas de samba do Rio de Janeiro. O comportamento exibicionista dela não foi adequado ao contexto, mas temos que dar um desconto, pois se trata de uma caloura de 20 anos que mora em um país tropical de costumes flexíveis. O que se faz nesses casos é chamar a moça assanhada para uma conversa na coordenação e pronto.

A reação dos colegas de Geisy, por outro lado, foi desproporcional e preconceituosa. É inadmissível que universitários tenham esse comportamento tacanho de manada. Os estudantes que xingaram, perseguiram e ameaçaram Geisy porque ela desfilou de vestido curto pela escola precisam de uma urgente reciclagem ética. Analisando o desdobramento do incidente concluímos que o amadurecimento desses jovens ainda está longe de acontecer. Até agora os estudantes estão devendo uma retratação para a opinião pública, mas parece que querem apenas ser deixados em paz como se a questão fosse um assunto interno da escola no qual ninguém de fora deve meter o bico. A direção da universidade mostrou que não tem compromissos éticos e que vai para onde sopra o vento. Primeiro expulsaram a aluna, provavelmente, por causa das pressões dos alunos clientes. Menos de 24 horas após a expulsão reverteram a decisão sob a forte pressão da opinião pública.

Esse transbordo fundamentalista da Uniban me faz pensar em outro momento da mobilização estudantil ocorrido na UnB. Em 2008, os estudantes da Universidade de Brasília também se mobilizaram pela exclusão de um membro da comunidade universitária. No caso, tratava-se do reitor Timothy Muholland. Ainda lembro como fiquei contente ao ver os estudantes da UnB lutando para não deixar mais um caso de corrupção acabar em pizza. O arrogante reitor da UnB estava trançando seus pauzinhos para se manter no cargo, mas não contava com o espírito aguerrido dos estudantes que ocuparam a reitoria até que ele anunciasse seu afastamento do cargo. Quanta diferença entre um episódio e outro. Na UnB vimos estudantes lutando pela ética no melhor estilo da combativividade estudantil. enquanto que na Uniban vimos um retrógrado linchamento moral.

Pode ser que eu tenha uma visão idealizada sobre os universitários, mas a minha expectativa é alta e o que espero desses jovens é vê-los envolvidos com as boas causas. Incidentes como esse da Uniban só servem para manchar a imagem dos universitários. Com certeza, na Uniban há muitos jovens descontentes com o desenrolar dos fatos, mas onde estão eles? Por que não se manifestam? Será que só os preconceituosos arruaceiros tem voz naquele campus?

Eu sei que é perigosa a comparação entre os acontecimentos da UnB em 2008 e da Uniban em 2009. Temos de um lado uma universidade pública, concorrida e prestigiada e, do outro, uma instituição privada, popular e com mensalidades a partir de R$ 199,00. O incidente Geisy Arruda teria alguma relação com a massificação do ensino universitário? Espero que não, mas é preciso meditar antes de responder. A parte boa dessa história foi o uso da Internet como canal de expressão do cidadão. A direção da Uniban tentou tirar os vídeos do ar, o que não causa espanto, pois bola fora é com eles mesmo. Felizmente, depois da trapalhada da expulsão da aluna, a direção da Uniban tomou uma medida acertada: promover um ciclo de palestras na escola sobre cidadania. O senador Suplicy de São Paulo foi o primeiro palestrante. Quem sabe assim, a classe universitária vai ao paraíso.

O feminista e o galão de água mineral

Bebedouro de água mineral

Quando acaba a água no bebedouro do escritório não demora até aparecer uma colaboradora pró-ativa para resolver o problema:

— Será que não tem um homem forte nesta sala para virar o galão de água mineral?

Imediatamente, vão surgindo as desculpas:

— Estou com uma séria lombalgia.

— Tenho que terminar esse relatório urgente.

— Cadê o pessoal dos serviços gerais?

Algumas vezes eu já virei o galão, mas antes disso sempre pergunto:

— Será que nenhuma mulher moderna da sala se habilita a executar essa operação braçal?

Felizmente, lá no escritório existem mulheres que viram galão de água mineral. Infelizmente são poucas; a maioria delas ainda torce o nariz diante da tarefa, como se tudo que envolve esforço físico fosse coisa de homem.

Durante quase toda a História, as mulheres realizaram atividades que envolvem esforço físico moderado. Minhas avós, Judite e Sofia trabalhavam na roça, capinavam, tiravam água do poço, tratavam os animais, partiam lenha, debulhavam milho. Essa história de dizer que mulher não pode fazer esforço físico é invenção moderna. Provavelmente, começou no pós-guerra com a proliferação dos aparelhos elétricos de uso doméstico. Com a eletricidade dentro de casa, algumas mulheres passaram a crer na ideia de que o máximo esforço que devem realizar é apertar botões. Juntando essa crença com a lógica da divisão de papéis e tarefas da sociedade industrial criou-se a cultura de que mulher faz algumas coisas e homem faz outras. Homem faz força e mulher faz limpeza. Com honrosas exceções, lá no escritório essa divisão continua em vigor. Uma mulher limpa o galão, passa álcool e um homem forte vira o galão no bebedouro.

Como homem feminista que sou, conclamo essas mulheres saudáveis e saradas das academias a galgarem um novo patamar da libertação feminina. A mulher do século XIX tinha deveres. a mulher do século XX tinha direitos, a mulher do século XXI tem direitos e deveres. Decididamente, a libertação da mulher passa por trocar um pneu e pagar a conta do motel.

Crédito de imagem: Submarino

Todo mundo é jornalista

Jornalismo e liberdade de expressão

Eu sou blogueiro, escrevo sobre assuntos atuais e me ocupo mais da opinião do que da informação. O que faço é jornalismo? Se for, não estou mais na ilegalidade, afinal o STF (Supremo Tribunal Federal) liberou a atividade jornalística a todos, mesmo que não tenham graduação em jornalismo. Acompanhei com atenção as matérias na imprensa em torno dessa decisão do STF, pois é um assunto em que os jornalistas são parte interessada. É divertido ver o que acontece com a imparcialidade jornalística quando a matéria é do interesse corporativo da classe dos jornalistas.

A abordagem mais usada para tratar do tema foi a cobertura das reações nas escolas de jornalismo. Estudantes e professores foram entrevistados e, na sua maioria, as declarações foram de repúdio à decisão do STF. Vamos fazer a engenharia reversa desse interessante casuísmo jornalístico. O jornal precisa ser imparcial, inclusive quando a matéria tem a ver com seus interesses de classe, principalmente nesse caso. Por outro lado, seria interessante fazer alguma coisa para moldar a opinião pública na direção conveniente. Como fazer com que a opinião pública fique contra a decisão do STF? Entrevistando estudantes de jornalismo, claro. Eles ainda não são jornalistas, serão supostamente prejudicados pela medida e farão a defesa da obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo com argumentos bem formados. Dessa maneira, o jornal faz a defesa de uma linha de pensamento sem correr o risco de acusação de parcialidade. Se alguém questionar esse enfoque, o jornal poderá dizer que o repórter vai onde a notícia está e quem está reagindo mais intensamente à decisão do STF são as escolas de jornalismo. Mas será que uma cobertura focada nas escolas de jornalismo e nas entidades de classe dos jornalistas dá um panorama da opinião da sociedade? Suma majesta, o leitor de jornal, foi entrevistado?

Nossas opiniões têm muito a ver com nossa experiência de vida. Sou formado em engenharia química, uma graduação disputada por dois conselhos profissionais: o de química e o de engenharia. Regulamentação não falta para o exercício dessa engenharia. Atuei como engenheiro durante muitos anos, mas hoje não tenho nenhum diploma na parede para legitimar a minha ocupação atual que é a produção de conteúdos e ferramentas educacionais para a Internet. De engenheiro a conteudista da educação. Essa mudança em minha carreira fortaleceu a minha convicção de que regulamentação profissional deve se restringir a poucos casos, especialmente aqueles que envolvem risco à vida humana (medicina, engenharia civil, farmácia, etc.). A regulamentação da profissão de jornalista apresenta o agravante de ir contra o princípio superior da liberdade de expressão. Creio que o STF tomou a decisão sensata e contemporânea na direção de uma desregulamentação do exercício das profissões. Com a dinâmica acelerada do mercado profissional e o aumento da escolaridade da população a regulamentação não faz mais sentido. Como a regulamentação conseguiria lidar com a blogosfera, com o jornalismo cidadão? O bom jornalismo continuará demandando pessoas de formação sólida, mas não necessariamente graduadas em um curso específico. E se somente jornalistas puderem fazer jornalismo quem é que vai fazer a crítica ao corporativismo da classe?

A volta do pinguim de geladeira

pinguim de geladeira

Durante a infância, eu convivi pacificamente com os pinguins de louça que decoravam 9 em 10 geladeiras das casas do Brasil. Dependendo da região, o pinguim dividia espaço com a estátua de São Jorge Guerreiro. Então eu cresci e comecei a implicar com esse objeto de decoração preto e branco. O coitado do pinguim tornou-se para mim sinônimo de gosto duvidoso a ponto de eu usar a expressão “mais brega que pinguim de geladeira”. E aí veio a terceira fase da minha vida em que, por misteriosos caminhos, começamos a nos reconciliar com o passado. Foi nessa época que eu entrei em uma loja de artesanato e me deparei com uma prateleira cheia de simpáticos pinguins de geladeira. E eu pensando que eles estavam extintos. Uma estranha força magnética me levou até a prateleira e quando percebi o pinguim já estava sobre a geladeira lá de casa. Pois é, o pinguim tornou-se cult, pelo menos para mim. Não é qualquer coisa que tem esse potencial. Para o brega virar cult algumas condições são necessárias. É preciso pitadas de humor, de saudosismo, de folclore para que ocorra essa transição.

Hoje, olho os objetos à minha volta e me pergunto: o que vai ser brega cult daqui a vinte anos? É difícil prever, mas tenho um palpite de que o candidato natural a sucessor do pinguim é o porta celular. Quem consegue viver sem ele? São tão criativos, vem com formas variadas como aqueles em forma de mãozinha. Só tem um problema para eu me reconciliar com o porta celular daqui a vinte anos: eu precisaria ter um celular para apoiar nele, o que não está nos meus planos. E quem garante que daqui a vinte anos haverá celulares?

suporte porta celular

Para que serve um caderno de caligrafia?

Parker duofold ouro

Já é possível ver alunos brasileiros assistindo aula com notebook sobre a carteira. Alguns deles são felizardos com renda familiar para tanto. Outros são alunos que participam de programas de governo como o UCA (Um Computador por Aluno). Esses alunos são resistentes à escrita manual. Dizem que teclar é mais prático, mais organizado, mais moderno. Uma parte dos professores acha que independente dos avanços tecnológicos, escrever à mão é importante. Não dá para contar com o computador em todas as situações, dizem.

Estamos em um período de transição das tecnologias de escrita e ainda é cedo para dizer se a escrita manual vai se tornar obsoleta, mas essa conversa me fez lembrar de outra habilidade: a de produzir fogo sem recorrer a fósforos ou isqueiro. Nossos antepassados que moravam em cavernas dominavam bem essa técnica que hoje só é conhecida por poucos especialistas como escoteiros e militares. No tempo das cavernas, ninguém pensava que fosse possível sobreviver sem saber acender uma fogueira a partir de madeira seca. Atualmente, se você sair por aí dizendo que essa habilidade é importante vai ser ridicularizado.

Tenho a impressão que a habilidade para a escrita manual logo estará empalhada no museu das técnicas obsoletas. Em uma geração a tecnologia da escrita vai ser reescrita. Para ser sincero, não estou preocupado com o destino dos cadernos de caligrafia. Ao longo da história tantas habilidades foram ultrapassadas. Quantos sabem se expressar com pena e tinta nanquim na atualidade?

Não se descabelem, saudosistas das belas formas curvilíneas dos calígrafos exímios. Outras habilidades mais urgentes vos esperam. Digitar com dez dedos sem olhar para o teclado, por exemplo. Bem, talvez nem isso seja necessário no futuro próximo repleto de computadores comandados por voz.