Belo artefato obsoleto por apenas R$ 10.000,00

Esta semana estive no Templo do Consumo (shopping center) e como sempre faço, parei na vitrine da joalheria para observar os relógios masculinos. Belos artefatos de marcas famosas de primeira linha em exposição: Breitling, Longines, Omega, Rolex, Tag Heuer. Design sofisticado, precisão impecável, maravilhas da mecânica e da eletrônica, enfim.  Tudo perfeito, não fossem dois detalhes. Um deles é o preço que fica em média na faixa de R$ 10.000,00, mas que pode disparar para muito além disso. O segundo detalhe é a pergunta: quem precisa de relógio de pulso?

Eu já tive vários relógios de pulso, bons mas de marcas mais modestas que podem ser comprados com um zero a menos na nota fiscal. O último deles parou de funcionar faz alguns meses e, sinceramente, vai continuar parado porque não vou mais atrás de reparos e pilhas. Posso ver a hora no computador, no celular e até no microondas. Os relógios de pulso cumpriram sua função e agora se reúnem a outros artefatos maravilhosos e obsoletos como canetas tinteiro e máquinas de escrever.


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Lá no Templo do Consumo a vitrine estava cheia de relógios de alto padrão. Calculei que estavam expostos mais de R$ 500.000,00 em mercadoria. Sinal que os relógios estão vendendo como nunca e que a minha teoria sobre o obsoletismo deles é furada. Quem desembolsa R$ 10.000,00 por um relógio de luxo não está atrás apenas do belo design e da mecânica fina. Da mesma forma, ainda se vende canetas tinteiro por preços estratosféricos que serão usadas de vez em quando para assinar contratos importantes. Relógios de pulso têm uma sobrevida garantida por conta de valores como tradição, status e elegância. São misteriosas as relações entre utilidade e valor.

Telefonema sempre é prioridade 1

O som de um telefone tocando porta uma energia misteriosa capaz de colocar as pessoas em disponibilidade máxima. Por isso, se você quiser a atenção de alguém, ligue para ela. Nenhum outro artefato tem tanto poder para atropelar prioridades como o telefone, seja celular ou fixo. Não importa se o destinatário está em reunião, dormindo, fazendo uma refeição, se está no banheiro ou mantendo relação sexual. O toque do telefone funciona como uma ordem imperiosa da presidência: ATENDA JÁÁÁÁÁÁ. É como o choro de uma criancinha ou como uma sirene de alerta de bombardeio. Chamada telefônica tem que ser atendida. Fomos condicionados como cães de Pavlov a responder de forma incondicional e insana ao toque do telefone. Esta é uma das razões pelas quais não tenho telefone celular. Telefone fixo ainda tem lá em casa, mas bem que eu gostaria de dispensá-lo. Na mesa do escritório, o telefone fixo está lá de prontidão para impor o ritmo na minha rotina de trabalho. Não pensem que quero me isolar do mundo, mas hoje dispomos de tantos meios de comunicação que já está na hora de escolhermos quais nos são mais convenientes. O telefone é um meio síncrono, ou seja, quando toca você tem que atender. Não é como mensagem SMS ou e-mail que podem ser lidos mais tarde. Sou fã da comunicação assíncrona, pois me dá a ilusão que controlo a minha agenda. Infelizmente, não sou dono dela e acredito que por muito tempo ainda terei que atender telefonemas assim que eles soarem nervosos. Ainda bem que os telefones modernos permitem escolher o toque que teremos de ouvir. Fico na dúvida se o ideal seria os primeiros acordes da Quinta Sinfonia de Beethoven ou da Tocata e Fuga de Bach. Ambas sugerem a iminência trágica do destino.

O feminista e o galão de água mineral

Bebedouro de água mineral

Quando acaba a água no bebedouro do escritório não demora até aparecer uma colaboradora pró-ativa para resolver o problema:

— Será que não tem um homem forte nesta sala para virar o galão de água mineral?

Imediatamente, vão surgindo as desculpas:

— Estou com uma séria lombalgia.

— Tenho que terminar esse relatório urgente.

— Cadê o pessoal dos serviços gerais?

Algumas vezes eu já virei o galão, mas antes disso sempre pergunto:

— Será que nenhuma mulher moderna da sala se habilita a executar essa operação braçal?

Felizmente, lá no escritório existem mulheres que viram galão de água mineral. Infelizmente são poucas; a maioria delas ainda torce o nariz diante da tarefa, como se tudo que envolve esforço físico fosse coisa de homem.

Durante quase toda a História, as mulheres realizaram atividades que envolvem esforço físico moderado. Minhas avós, Judite e Sofia trabalhavam na roça, capinavam, tiravam água do poço, tratavam os animais, partiam lenha, debulhavam milho. Essa história de dizer que mulher não pode fazer esforço físico é invenção moderna. Provavelmente, começou no pós-guerra com a proliferação dos aparelhos elétricos de uso doméstico. Com a eletricidade dentro de casa, algumas mulheres passaram a crer na ideia de que o máximo esforço que devem realizar é apertar botões. Juntando essa crença com a lógica da divisão de papéis e tarefas da sociedade industrial criou-se a cultura de que mulher faz algumas coisas e homem faz outras. Homem faz força e mulher faz limpeza. Com honrosas exceções, lá no escritório essa divisão continua em vigor. Uma mulher limpa o galão, passa álcool e um homem forte vira o galão no bebedouro.

Como homem feminista que sou, conclamo essas mulheres saudáveis e saradas das academias a galgarem um novo patamar da libertação feminina. A mulher do século XIX tinha deveres. a mulher do século XX tinha direitos, a mulher do século XXI tem direitos e deveres. Decididamente, a libertação da mulher passa por trocar um pneu e pagar a conta do motel.

Crédito de imagem: Submarino