E o Camaro amarelo ficou cult

A Universidade de Brasília divulgou as obras que podem ser cobradas em seu processo seletivo e a surpresa foi a inclusão da música Camaro amarelo da dupla Munhoz e Mariano na lista. Os candidatos que participam do PAS (Programa de avaliação seriada) da UnB terão que estudar criticamente esse clássico instantâneo do sertanejo universitário para se preparar melhor para as provas. Quando ouvi a notícia me veio à cabeça o pensamento: Se a ideia é fazer a garotada valorizar a cultura popular não seria melhor escolher uma canção sertaneja de raiz? Aí descobri que Cuitelinho, também entrou na lista. Perfeito. A canção interpretada por Pena Branca e Xavantinho é um belo exemplo da poética sertaneja, mas e o Camaro amarelo? Qual a razão para esse hit com mais de cem cavalos de potência ser objeto de estudo de adolescentes desesperados em busca de vaga em uma universidade de prestígio?

camaro amarelo

Quando prestei vestibular em mil novecentos e cacetadas a lista de obras da UFPR era formada por dez livros de literatura brasileira. Naquele tempo, cultura era ler Machado de Assis, Nelson Rodrigues, Dalton Trevisan, Carlos Drummond de Andrade e alguns outros. Vivíamos na ditatura da alta literatura nacional. Os tempos mudaram e hoje a UnB, por exemplo, adota uma lista mais eclética que inclui ensaios filosóficos como O príncipe de Maquiavel, músicas eruditas como Carmina Burana de Carl Orff, além de pinturas e obras arquitetônicas. Acredito que a lista da UnB é mais adequada ao ideal de formação humanística para a vida que a escola deve perseguir. Nesse ambiente moderno de abrangência e respeito à diversidade é que surge espaço para tratar da cultura popular na escola. Mesmo assim, creio que ainda não chegamos a um bom motivo para nos debruçarmos com ferramentas críticas sobre o motor do Camaro amarelo.

Estamos acostumados na escola a estudar clássicos e para ser clássico é preciso passar pela prova do tempo. Não é o caso de Camaro amarelo, lançada recentemente. Temos que lembrar, porém, que a escola de hoje sofre pressão para se dedicar aos temas atuais. Espera-se que o professor discuta em sala o que os alunos assistiram no telejornal da noite anterior. Sim, faz sentido partir do que está na boca do povo para alcançar o conhecimento formalizado. Se Camaro amarelo não é clássica certamente é o hit da vez assistido milhões de vezes no YouTube. A regra da atualidade é boa se não for aplicada a torto e a direito. Temos que nos ocupar dos clássicos também cuidando para não dar importância exagerada ao superficial, afinal o espaço da sala de aula é nobre e o tempo é curto para ser desperdiçado. Sem dúvida, Camaro amarelo pode render boas discussões em sala de aula sobre a evolução da música sertaneja, sobre consumismo e relações interpessoais frívolas. Além disso, os programas de vestibular orientam os rumos do Ensino Médio. Incluir um ponto fora da curva no currículo pode funcionar como um recado pedagógico: vocês aí na escola deem um pouco de atenção à cultura popular despidos de preconceito e com disposição para quebrar paradigmas. O que não convém concluir é que a canção seja sublime porque foi listada lado a lado com outras obras-primas. Só o tempo dirá se Camaro amarelo vai se tornar clássica como Cuitelinho.


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Para arrematar, uma seleção de clássicos sertanejos:

Dia do Saci ou das bruxas?

Neste 31 de outubro, ao abrir meu Facebook, encontrei várias postagens comemorando o dia das Bruxas e outras tantas falando do dia do Saci. Para mim, essas duas “tradições” são novidade, afinal não me lembro de nenhuma delas na minha infância. Tá certo que a minha infância já se perdeu na poeira do tempo, mas tradições são coisas que vem de um passado remoto, não é mesmo?

O Halloween, conhecido aqui no Brasil como Dia das Bruxas, é uma tradição de países de língua inglesa e não sei por que cargas d’água está se popularizando cada vez mais aqui no Brasil. Seria por causa da existência de muitas bruxas por aqui? Eu mesmo não acredito nelas, mas conheço algumas. Já o dia do Saci foi instituído pela lei federal 2702 de 2003 justamente para fazer um contraponto ao dia das Bruxas. O que devemos comemorar, afinal, no dia 31 de outubro?

Não sou simpático ao Halloween em terras tupiniquins, afinal, estamos importando uma celebração que não tem nada a ver com nossa cultura. Ou tem? Se levarmos em conta que somos fortemente influenciados pela cultura americana muita coisa se explica. O Halloween tem apelo antropológico. Seria uma festa em que se brinca com a morte para exorcizá-la. Não por acaso, o Dia das Bruxas é comemorado antes de Finados. O Dia das bruxas tem raízes na cultura europeia. Já a lenda do saci é mais brasileira; o saci é uma entidade traquina nem sempre boazinha, mas acreditem o danadinho também remonta a lendas europeias. O gorro vermelho do saci remete à figura lendária do trasgo português, que por sua vez se conecta aos duendes europeus.

A comemoração do Halloween é voltada para as crianças e tem crescido nas escolas de Educação Infantil e Ensino Fundamental. Isso incomoda bastante os nacionalistas que contra atacam de saci. Será que as bruxinhas do Halloween serão substituídas por sacis traquinas? Quem não gosta de nem uma das duas comemorações pode acusar o Halloween de neopaganismo e a lenda do Saci de crendice popular. Talvez, o saci e seus companheiros nacionais como o caipora, a mula sem cabeça e a cuca vençam a batalha contra as bruxas e suas vassouras do hemisfério norte. Se isso acontecer, é bem provável que algum defensor das políticas corretas comece a implicar com o cachimbo do saci. Onde já se viu uma criança fumar.

Livros para maiores de trinta anos

Esses dias minha filha pegou uns livros na estante para escolher o que iria ler. Passando por perto, eu olhei as capas e disse a ela: este aqui você espere completar trinta anos antes de ler. Acho que ela não gostou do meu palpite, mas eu entendo. Ela está para completar 18 anos e quando eu estava nessa fase da vida também ficava mordido com restrições por idade. Acredito que ela já tenha maturidade para ler o que quiser, mas a questão é outra.

É uma coisa de pai tentar preservar os filhos em estado de inocência e é bem difícil definir quando chega a hora de eles conhecerem as questões complexas da vida. Lá em casa, por exemplo, fizemos o possível para levar a fantasia de Papai Noel o mais longe possível. Conheço pais que eliminam o velhinho do imaginário dos filhos o mais rápido possível. Talvez esses filhos se tornem adultos mais objetivos e realistas, embora de pouca imaginação. Sou adepto da ideia ingênua de que inocência e felicidade andam juntas. Ingenuidade maior, porém, seria acreditar que a inocência pode ser preservada indefinidamente e, por isso, o contato gradual e bem dosado com as questões complexas pode fazer a diferença entre a maturidade e a amargura na idade adulta.

Minha filha já leu todos os volumes de Harry Potter e da série Crepúsculo. Recentemente, tem mostrado interesse maior por clássicos como Cem Anos de Solidão ou O lobo da estepe. Sem dúvida, uma ótima trajetória de leituras, mas ainda acho que certos livros são escritos para pessoas muuuuuittto velhas, quer dizer, com mais de trinta anos. Por que? Não pela eventual indecência neles contida, ou porque possam levar o jovem a imitar o comportamento dos personagens, mas porque a sua compreensão plena envolve uma experiência mínima de vida.

A esta altura você, caro leitor, pode estar curioso para saber qual foi o livro que desrrecomendei para minha filha. Desculpe-me, mas quem escreve tem seus truques para levar o leitor até a última linha. Era um clássico da literatura universal que fala sobre a perda precoce da inocência: Lolita de Wladimir Nabokov.

Quem tem saudades da Amélia?

A minissérie Dalva e Herivelto da Rede Globo nos mostrou um pouco da música brasileira da década de 1940 e não poderia faltar nesse panorama a canção Ai que saudades da Amélia de Ataulfo Alves e Mario Lago. Depois de escutar a música inserida no contexto de época comecei a matutar com meus botões: quem inventou essa associação da Amélia com o estereotipo da rainha do lar? Em décadas recentes, Amélia virou sinônimo de mulher submissa ao marido tirano, presa à rotina do lar, totalmente ultrapassada, enfim, uma escrava do lar. As feministas de plantão não perdiam a oportunidade de esbravejar:

— Tá me achando com cara de Amélia? Pois saiba que sou mulher emancipada.

No entanto, se prestarmos atenção não é essa a mensagem que está na música. Faça o teste. Leia a letra da canção apresentada no final do post e ignore que se trata de uma canção de 1942. Para começar, ela nos fala de outra mulher, a sucessora da Amélia que não é nomeada na canção, mas que tem lá seus defeitos e nem de longe se compara à virtuosa Amélia. A sucessora é uma sem noção, como diriam os jovens de hoje. Ela não é um exemplo do feminismo, porque apesar de exigente, não reivindica direitos e, sim, luxo e riqueza. Amélia, ao contrário, é uma pessoa que apoia o amado mesmo na pobreza. Amélia não tem vaidade, o que pode ser um defeito para a mulher bem posicionada na vida, mas certamente é um desprendimento útil para quem enfrenta a miséria. Não seria ousado afirmar que Amélia era uma mulher devotada ao seu amor e companheira para todas as horas. Nos dias de hoje será que existem mais Amélias ou sucessoras?

Não sei o que Ataulfo Alves e Mario Lago diriam sobre emancipação da mulher, nem o que a Amélia pensava sobre relações conjugais modernas. Acredito também que a sucessora da canção não é o modelo de mulher defendido pela causa feminista, que nunca fez a apologia do consumismo e do interesse. Agora que já temos uma perspectiva histórica tanto da música como dos movimentos de emancipação feminina acho que dá para dizer de novo: ai que saudades da Amélia.

Ai que saudades da Amélia
Composição de Ataulfo Alves e Mário Lago
Lançamento: 1942

Nunca vi fazer tanta exigência
Nem fazer o que você me faz
Você não sabe o que é consciência
Nem vê que eu sou um pobre rapaz
Você só pensa em luxo e riqueza
Tudo que você vê você quer
Ai, meu Deus, que saudade da Amélia
Aquilo sim é que era mulher

Às vezes passava fome ao meu lado
E achava bonito não ter o que comer
E quando me via contrariado
Dizia: Meu filho, que se há de fazer

Amélia não tinha a menor vaidade
Amélia é que era mulher de verdade
Amélia não tinha a menor vaidade
Amélia é que era mulher de verdade

Às vezes passava fome ao meu lado
E achava bonito não ter o que comer
E quando me via contrariado
Dizia: Meu filho, que se há de fazer

Amélia não tinha a menor vaidade
Amélia é que era mulher de verdade
Amélia não tinha a menor vaidade
Amélia é que era mulher de verdade

Bia Falcão e os dólares na cueca

Novela de televisão é melodrama e uma das regras desse gênero é que, no final, os mocinhos se dão bem e os vilões se dão mal. Não foi o que aconteceu ao final da novela Belíssima. Bia Falcão, a vilã, após cometer alguns assassinatos no Brasil, foge em um jatinho para Paris, onde encerra a novela em grande estilo bebendo champanhe com seu gigolô trazido do Brasil. Outra regra válida para novelas é que, somente em alguns poucos casos, o autor tem o direito de formar opinião no público e que, na maioria das vezes, ele apenas reflete a opinião formada dos espectadores. Infelizmente, para criar esse final contrário às regras do melodrama, o autor de Belíssima não teve que contrariar a opinião formada dos telespectadores. Ao contrário, a novela teve o fim que teve justamente porque os telespectadores estavam preparados para aceitar um fim com inversão de valores.
Ocorreu algo semelhante em 1988 com a novela Vale Tudo, da Rede Globo. No final de Vale Tudo, o vilão também escapa em um jatinho e manda uma banana para os brasileiros da janela.
Diferentes épocas, mas o mesmo contexto social. Em 1988, o país vivia um período de grande desgaste da classe política diante da opinião pública. A população presenciava políticos corruptos escapando ilesos de qualquer punição por suas falcatruas. Em 2006, a situação não é diferente na degradação da vida política.
Como em todo melodrama, o final é o momento de se passar a mensagem. Seria típico esperar um final em que os valores positivos triunfam, o bem vence o mal, etc. Mas porque o autor optou pela inversão de valores? Por que Bia Falcão terminou tomando champanhe na janela, com a paisagem da Torre Eifel ao fundo? Por que o garoto de programa, que durante a novela toda teve a oportunidade e o incentivo para mudar de ramo, optou por acompanhar Bia a Paris em mais uma concessão do autor à negação dos valores que um melodrama deveria reforçar?
Infelizmente, autor de novela não forma opinião num caso desses. Ele não pode ir contra a vontade do público. E talvez o público queira mesmo ver os vilões se dando bem. Talvez seja esta a reação torta do público diante da ressaca moral que vive o país. Talvez o brasileiro se enxergue bem no papel de gigolô da classe política e ache natural carregar dólares na cueca como mula a serviço de políticos corruptos.