Para que serve a Matemática?

Esses dias, meu filho me perguntou para que serve a Matemática? Por coincidência, a pergunta veio depois de uma nota baixa no boletim do primeiro trimestre. Fiquei sem resposta. Melhor: preferi não dar nenhuma das respostas padronizadas que me vieram à cabeça, pois a pergunta dele era retórica, praticamente um desabafo que precisava apenas ser ouvido e não contestado.

Obviamente, a Matemática serve para muitas coisas e não me refiro à situações práticas como calcular usando uma trena quantos galões de tinta vão ser gastos para pintar a casa. Matemática forma o caráter, pois para estudá-la é preciso cultivar virtudes como a paciência e a dedicação. A matemática nos ensina a não depender de recompensas imediatas, já que seus frutos são colhidos a longo prazo. Pela Matemática entendemos o que é progressão do conhecimento. A Matemática estimula o desenvolvimento de competências externas a ela mesma como operar em níveis altos de abstração. Em outras palavras, a Matemática pode ajudá-lo a tomar decisões complexas e a prever cenários. A Matemática fortalece o intelecto e poderia ser toscamente comparada à uma ginástica cerebral. Enfim, a Matemática é repleta de utilidades não matemáticas.

Para os matemáticos, porém, o questionamento sobre a utilidade da Matemática é totalmente inútil. Utilidade? Como assim? O conhecimento é um fim em si, dirão, não requer utilidade para ser buscado. Basta ao matemático a maravilhosa sensação da descoberta dos mistérios dos números. Além disso, o conhecimento matemático é uma experiência estética. Sim, a Matemática é bela e a beleza só é bela na maioria dos casos porque é matemática. Por fim, a Matemática é mística. Galileu dizia que a Matemática é a linguagem usada por Deus para escrever o mundo.

Diante disso tudo, para que procurar utilidade para a Matemática? Talvez, eu não consiga com esses argumentos melhorar a relação do meu filho com os números e nem há razões para forçar essa aproximação. O mundo não funcionaria se todos tivessem os mesmos interesses. É matemático: precisamos de sociodiversidade.

Para que serve um caderno de caligrafia?

Parker duofold ouro

Já é possível ver alunos brasileiros assistindo aula com notebook sobre a carteira. Alguns deles são felizardos com renda familiar para tanto. Outros são alunos que participam de programas de governo como o UCA (Um Computador por Aluno). Esses alunos são resistentes à escrita manual. Dizem que teclar é mais prático, mais organizado, mais moderno. Uma parte dos professores acha que independente dos avanços tecnológicos, escrever à mão é importante. Não dá para contar com o computador em todas as situações, dizem.

Estamos em um período de transição das tecnologias de escrita e ainda é cedo para dizer se a escrita manual vai se tornar obsoleta, mas essa conversa me fez lembrar de outra habilidade: a de produzir fogo sem recorrer a fósforos ou isqueiro. Nossos antepassados que moravam em cavernas dominavam bem essa técnica que hoje só é conhecida por poucos especialistas como escoteiros e militares. No tempo das cavernas, ninguém pensava que fosse possível sobreviver sem saber acender uma fogueira a partir de madeira seca. Atualmente, se você sair por aí dizendo que essa habilidade é importante vai ser ridicularizado.

Tenho a impressão que a habilidade para a escrita manual logo estará empalhada no museu das técnicas obsoletas. Em uma geração a tecnologia da escrita vai ser reescrita. Para ser sincero, não estou preocupado com o destino dos cadernos de caligrafia. Ao longo da história tantas habilidades foram ultrapassadas. Quantos sabem se expressar com pena e tinta nanquim na atualidade?

Não se descabelem, saudosistas das belas formas curvilíneas dos calígrafos exímios. Outras habilidades mais urgentes vos esperam. Digitar com dez dedos sem olhar para o teclado, por exemplo. Bem, talvez nem isso seja necessário no futuro próximo repleto de computadores comandados por voz.

A diferença entre o físico e o engenheiro

Balança

Em um serviço on-line de perguntas e respostas voltado para estudantes do ensino fundamental e médio, o aluno perguntou:

Se eu preencher uma garrafa PET de 500ml com areia, quanto ela vai pesar?

A resposta de outro aluno veio rápída:

Pegue uma garrafa PET de 500ml, encha com areia e pese na balança.

A pergunta, provavelmente, partiu de algum professor de física ou ciências e, por intermédio do aluno perguntador, chegou ao serviço on-line. Se eu fosse o aluno perguntador, faria exatamente o que lhe foi sugerido. Depois, fotografaria a garrafa sobre a balança e entregaria a foto ao professor como prova inequívoca de vocação para a física experimental. O professor teria que aceitar a resposta, mesmo que sua expectativa fosse receber um cálculo usando as fórmulas da densidade aparente. Caso o professor não tivesse senso de humor nem respeito por inteligências múltiplas, o aluno perguntador poderia argumentar dizendo que a questão não especificava um método de resolução.

Não vou esconder minha simpatia pelo aluno que respondeu à pergunta. Além de ajudar um colega voluntariamente, ele mostrou um senso prático incomum nos dias correntes. Alguns professores podem achar que esse empirismo não tem o alcance de uma demonstração teórica abstrata. Concordo que abstração é importante, mas senso prático também é na mesma proporção. Tudo depende do abacaxi que você tem nas mãos para descascar. E assim demonstramos na teoria e na prática que ensinar para a vida é uma arte.

Crédito de imagem: Filizola