Essencial

Quê te consome?

Quê te consome na rua?
O primeiro fio de cabelo branco
na cabeleira já não tão vasta.
O zero a menos no teu contracheque.
O rebolado da morena
que passou há pouco.
Teu encontro com quem não vem.
Aquela dor de dente?

O que te consome
diante da folha em branco
na hora de parir um verso?
Falta de assunto.
A seita literária da semana.
Aquele poeta guru
que tanto falam mas ninguém leu.
A nova rima tecnoendergonorgética.
O iminente apocalipse poético?

Ora, meu amigo.
Há algo errado com você.

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Quatro estações

Temporão

Descobri tarde o amor.
Tarde descobri
que não era gênio.
Tarde encontrei a poesia.
Me despi tarde das vaidades.
Bem tarde concluí
que precisava de leitores
para meus versos.
O óbvio, em mim,
chega tarde
como tarde cheguei
ao encontro comigo mesmo.
Tarde me vi no espelho,
tarde abri aquela carta
esquecida na gaveta.
Sou assim. Sempre vejo
minhas vagas idéias geniais
se convertendo em fatos geniais
pela mão dos outros.
Sou eu: o que acontece tarde…

Demais.

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Fragmentos

Ursa Maior

Existe uma estrela
que indica o Norte.
Não o meu, o seu,
mas o Norte do Norte.

Existe uma estrela
de brilho opaco,
de luz escura,
intangível aos móveis
referenciais cartesianos.

Existe uma estrela imóvel
que não está nas cartas celestes,
que brilha fora do alcance
da luneta dos cínicos.

Existe uma estrela
além do além do firmamento,
invulnerável, absoluta.
Existe uma estrela.

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Descartável

Valor de mercado

Falar, citando Quintiliano,
sobre aqueles homens beócios
dos primeiros tempos,
que criavam palavras
segundo a primeira impressão que
lhes suscitava o contato com as coisas:

Sem valor de mercado.

Dizer não,
resistir ao impulso
de fazer errado
só porque todo mundo faz:

Sem valor de mercado.

Ver nos olhos de seu filho
uma mágoa escondida,
abraça-lo e pedir que lhe abrace
o mais forte possível:

Sem valor de mercado.

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Compromisso

Via Láctea

A noite se derrama sobre a metrópole.
Na avenida forma-se
o rio de lava urbana.
Dentro de mim
um maçarico queima sangue.
Sou um tentáculo do leviatã
que ofega e se crispa,
animal selvagem ferido,
que se contorce e urra,
em dor, velocidade, luz e febre,
A cidade se espalha na noite
e pulsa, ebule, caldeirão de óleo,
funga, resfolega e a emoção da vida
corre, circula nas avenidas.
Quem dera assimilar esta loucura,
magnífico caos organizado.
Quisera a omnipresença nas ruas,
nos quartos e nos becos.
Quem dera espalhar-me todo,
dividir-me em mil,
ser todos os habitantes da noite,
ser a própria cidade transpirando.
sentir no corpo
os carros em disparada,
o néon frenético, o bulício das calçadas.
Viesse a mim o poder de devorar
a beleza louca desta via-láctea.
Abre-te Sésamo, fera convulsiva da noite.
Deixa-me penetrar sua carne.
Sacia minha fome de ser você.
Quero o brilho doentio das lâmpadas de sódio,
a brutalidade do asfalto,
a frieza calculista do concreto.
E mais que tudo dá-me o direito
de ser os sussurros e gritos e silêncios
das almas atormentadas da noite.
Quero ser a escuridão dos becos.
a consciência dos culpados,
o desespero dos aflitos.
Dá-me a graça de ser pedra e carne,
delírio e esperança.
Ser o óleo de tuas engrenagens.
Máquina da noite, quero deslizar
por teus mecanismos.
Vejo-me triturado na tua boca impiedosa.
Meu sangue colorindo teus metais,
lubrificando teus mancais.
Deusa de concreto e alta voltagem
leva-me aos segredos ocultos nas tuas fundações.
Eu desejo tudo e tudo é pouco para mim
tamanha a fúria do desejo
que me martela as têmporas.
Eu amo o que está sob estas luzes
simplesmente porque existe
e tem o sabor selvagem de realidade.
Metrópole, minha sedução.
És matéria e estás fora de mim.
Amo burramente teu gosto de seiva crua
que me escapa e me domina.
Quero esta noite.
Tudo e nada eu quero e sinto.

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