Máquina do tempo

Velho

Tantos anos viajando
em mar aberto,
quantos lanhos
de vã luta por causa vã.
Olha aqui meus queimados
pelo fogo fátuo das frivolidades.
Não queiras saber das histórias
de minhas andanças por aí.
Se bem que sei que as sabes.
Tudo sabes de mim, não é?
Eis que volto e te encontro
aqui na varanda.
Adivinhavas minha chegada?
Aposto que estás aqui desde sempre.
Que tal supormos que tudo
aconteceu entre duas badaladas
do teu velho carrilhão.
Ainda funciona?
Sei que podes, pelo que és, pois,
preciso de ti uma vez mais.
Me ensina este olhar
que transpõe o horizonte,
o aperto da tua mão nodosa
que me aperta a alma,
este silêncio que diz tanto.
Quero ser rocha, ungüento, sal.
Pai, me ensina,
que meu filho me espera.

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Caminho para Roma

Parmênides de Eleia

Parmênides viu o movimento e achou absurdo.
Este grego, provável, amava o silêncio.
Seus lábios metafísicos pediam o ser
que aos filtros da razão
só podia ser imóvel.
Parmênides pensou o ser esfera.
Homogêneo. Estático. Permanente.
Ele no absurdo mundo do vir-a-ser.
As flechas correndo o ar. O movimento.
No amanhecer da história
um grego pensou o silêncio
como fórmula ideal.

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Cacto e pedras

Descoberta

A grande descoberta de minha vida
foi que não me importo em descobrir nada.
A vida como planura,
o silêncio do deserto como sinfonia.
O coração seco, o olhar cristalino.
A aceitação de mim como concha fechada.
Vejo e já perdi o que vi.
Minha solução como ausência de soluções.
A desistência do eu
em ser forma de mistério.
E tudo é puro olhar
e nada me preocupa ou faz querer
desvendar o que quer que seja.
Uma distância me separa
dos objetos que percebo.
Mas percebo-os e é tudo.

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Bicho urbano

Fim de noite

Em silêncio você anda na rua
e o tropeço no desejo
de viver paixão imensa
como a que você viu
no cinema, mas muito distante
desta tua noite de luzes cansadas.
Você é uma sombra que caminha
sob o silêncio da rua
de encontro ao silêncio do quarto,
ao silêncio do sono,
rumo à vida suspensa e muda.
Teus dias sempre os mesmos repetidos dias.
Uma surda fome de emoções vivas.
Você pensa no grande amor
que tanto te falta
nesta hora de coração selvagem.
Pensa na vida em alta voltagem
que só a literatura ofertou,
assim concentrada e quente.
E você se dirige
ao teu mundo de silêncio
esperando que na rua
surja de súbito,
mulher, talvez uma carta
ou simplesmente um aviso
Você aguarda seu momento de farta energia,
sua vida saindo da rotina vazia.
Nessa cidade enorme que não tem fim
você busca a parte da vida
que te abarrotará o coração
e como você, talvez ali mesmo na esquina,
alguém se consome na mesma procura.

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