Visões

Em um futuro esquecido
os humano-computadores
têm formidável entendimento
e frágeis sentimentos humanos.
As máquinas se auto reproduzem
e evoluem num ritmo inimaginável.
Os robôs são tão iguais aos homens,
que não há meios de saber
quem é robô e quem é homem.
A realidade virtual
é controlada pelos super computadores
e não se distingüe mais
da realidade de outrora, aliás,
o entendimento de realidade mudou
desde que as máquinas descobriram
o segredo para recombinar a matéria
pela vontade.
A humanidade sucumbiu
e o que restou dela
vaga pelo espaço numa imensa
espaçonave, muito maior
que a maior das megalópeles
que existiram no passado.
Nesta cidade sinistra
os humanos são párias
e as máquinas governam.
Acima de tudo e todos
está um cérebro-computador mestre,
atormentado e cruel
por ser imortal e não ter alma,
que lê a Bíblia setenta vezes sete vezes
a cada segundo
e nomeia a si mesmo
o Armagedom.

Baratas

Incansavelmente
exterminamos as baratas,
que viram a extinção dos dinossauros,
que andaram sobre os cadáveres
dos mamutes,
que habitaram nas cavernas
dos homens de Neantertal,
que se escondiam nas frestas
da muralha de Jericó,
que vivem bem no lixo,
que supostamente cobrirá a Terra
e a tornará inabitável.

Cenobitas

Os cenobitas estão entre nós.
Não confies nas aparências.
Aquele respeitável senhor
há pouco, com seus óculos,
sua gravata cinza,
sua Gazeta Mercantil,
talvez ele também um cenobita.
Os cenobitas se camuflam
em mil singelos disfarces,
se escondem nas mais escuras tocas,
usam portas ocultas que ninguém vê,
passam por ti várias vezes ao dia
sem que percebas.
Como vírus oportunistas,
jamais se revelam à luz do dia e
nunca atacam a alma saudável.
Mas te espreitam e farejam a dor
a quilômetros.
Ocultes tua ferida exposta.
É a tua dor que atrai
estes abutres da alma.
Não penses neles,
não os vejas e, principalmente,
jamais os invoques.
Não relaxes,
mantenha-se sempre alerta,
onde menos esperas, eis o cenobita,
talvez aí mesmo,
diante do espelho que miras.

Lamento

Aquela jovem que se aproxima,
delicada,
estupidamente feliz.
Em pouco será minha.
Trêfega virgem
que estiolará antes de florir,
que sabes do mal?
Mas se não eu
outra criatura da noite
há de te aviltar.
Ó, maldição que nos une.
Nem eu nem ti,
singela flor,
veremos de novo
um raio de sol.
Eu que odeio o sangue
e não tenho direito à morte,
sou feito do sangue, pelo sangue,
para o sangue,
também tenho um destino a cumprir.
Paira sobre mim
uma maldição imemorial.
O mal está em mim.
Mas não veio a mim
pela minha própria mão.
Pequei, há muito.
E como paga pelo pecado primeiro
sou condenado ao pecado eterno.
Eis porque meus olhos cintilam
diante do sangue
e nutro este mórbido gosto pela dor.
Quem me dera
a morte além da morte,
o aniquilamento absoluto,
o apagamento do pó.
Mas porque te digo isto?
Apenas venha para mim,
frágil flor de carne e pureza.
E que venha também logo a estaca.
Lutarei raivosamente contra ela,
como me foi destinado.
E quando ela cravar-se
em meu peito repleto
de podridão e imundície
entrarei sorrindo
no paraíso do nada.