Caminho para Roma

Parmênides de Eleia

Parmênides viu o movimento e achou absurdo.
Este grego, provável, amava o silêncio.
Seus lábios metafísicos pediam o ser
que aos filtros da razão
só podia ser imóvel.
Parmênides pensou o ser esfera.
Homogêneo. Estático. Permanente.
Ele no absurdo mundo do vir-a-ser.
As flechas correndo o ar. O movimento.
No amanhecer da história
um grego pensou o silêncio
como fórmula ideal.

Heráclito de Éfeso

Divino oráculo que soprais palavras de fogo,
sábias mensagens dignas de lavrar no mármore,
preciso tom para as sumas verdades,
que verdade há, senão, a contínua renovação
das águas do rio?
O mundo que habitamos: uma chama palpitante,
caminhos que sobem e que descem,
num perpétuo mágico fogo contínuo.
Tudo, a púrpura túnica que te orna o corpo,
os fumos olorosos que procuram o céu,
as espadas que se cruzam em batalha,
os corpos que se queimam na brasa do amor,
tudo não é a mesma coisa por mais
que um incomensurável instante.
Neste mundo o eterno devir,
a luta entre contrários, a tudo rege.
E não nasce o mesmo astro por duas repetidas vezes.
Já outro astro lhe assumiu a rota quando se pôs.
O fogo: a moeda de tudo.
Todas as trocas se dão pelo fogo.
A matéria se retrai, resfolega e crepita.
Os fumos da combustão, por movimento descendente
se adensam de novo e de novo formam
matéria para o eterno fogo.
Saibam os que desejarem na razão se alimentar:
a eternidade para nada há.
A cada avanço do carro celestial de fogo
o cosmos é um novo cosmos.
Oh, voz do oráculo, segredai aos pobres mortais
que tudo nada dura.
Apenas assistimos ao eterno devir.

Anaximandro de Mileto

O princípio é o caos.
Do caos tudo sai.
Ao caos tudo volta.
Tudo que vem a ser
e é diferenciado emerge
do homogêneo indefinido.

Para o caos não há definições.
A plena homogeneidade.
O total uno caos.

Quando algo emerge
já nele se contém
um germe de corrosão

que o leva novamente ao caos.
O mundo o que é
senão esta agressiva luta

de emergir e florescer
para de novo descer
e ao caos baixar.

Ah! Quisera a infinita paz.
O perfeito silêncio de não ser
um ser em particular,

antes apenas uma pura
e indizível homogeneidade.
Um perpétuo moto,

ritual de ascensão e queda
eis a pena eterna
a ser cumprida.

O caos a tudo chama.
O que do caos escapa
com certeza nele acaba.

Anaxímenes de Mileto

E tudo se transforma.
A dura matéria sólida crepita
e se converte em fumo
que sobe para o céu.
A água se evapora dos potes
para o ar e do ar
nos chega como chuva que bebemos
e se nos incorpora.
E quanto ao ar, nós o sorvemos para viver.
A água se converte em sólido.
O sólido se converte em líquido.
Os animais digerem as plantas e crescem.
E quando morremos
nosso corpo se transforma
em poeira mineral
que baixa ao solo.
E do solo nascerá a vida
que dará vida aos que no futuro
a vida procurarem.
Tudo se converte em tudo.

Tales de Mileto

Existe o princípio uno
que a tudo rege,
que a tudo gera,
que a tudo forma.
A água é o princípio.
Tudo vem da água.
A água primordial e límpida
que recobre os mares,
que flui na calha dos rios,
que nos mata a sede,
que nos forma,
que se evapora para os céus
e do céu cai como benção dos deuses.
Existe o princípio uno e simples,
simples como água.

Éden

Deus criou
o Homem e a Mulher
à sua imagem e semelhança.
Um dia arrependeu-se
da dor que lhes causava
e os tornou mortais
para livra-los
do castigo da eternidade.

Longevidade

Vivêssemos
duzentos anos, seria pouco.
Trezentos anos, ainda pouco.
Mil anos, pouco mais que pouco.
Vivêssemos a eternidade
seria demais.

Ondas eletromagnéticas

Quem tiver olhos para ver
não verá.
O espiritual não emite ondas
na faixa da luz visível
e se emitir ondas
são do tipo imperceptível
a qualquer sentido humano,
a qualquer engenhoca humana,
a qualquer razão humana.

Galileu Galilei

Está instaurada a dúvida.
A metódica dúvida epistemológica.
Neste mundo a terra não está no centro
nenhum saber é saber completo.
Seja bem-vinda era da razão.
Não há que se temer a revisão.
Nada que se diga ou que foi dito
merece estatuto de dogma irrestrito.
Cuidado com a verdade
que se pretende
maior que a realidade,
pois, os fatos são os fatos
e fluem diante de nós
que estupefatos
assistimos ao espetáculo.

Pedra de Sísifo

Sísifo sobe a encosta e do seu rosto
verte o suor de seu esforço.
Rolando a pedra sempre para cima
imagina um término para sua sina.
Sísifo, não sabes por ventura
que habitas um inferno de procura?
Pensas no fardo que te coube por Destino:
levar a pedra, tua vida, ao alto do cimo.
Não te conformas de ser a vida pedra
que o tempo todo se promete e não se entrega
e nem se completa mesmo que tanto se prometa
nem se explica por mais intensa a busca aflita.
Labutas nesta faina noite e dia
enquanto alheio desta luta o tempo fia
uma túnica que lhe serve de mortalha.
Inútil querer vencer esta batalha.
Só te resta rolar a pedra pela escarpa
esperando a resposta que te escapa.
O teu trabalho é desígnio de Destino
e Destino é o nome que dás ao mistério.
Destino para ti é o que não tem caminho,
além de todos, entre deuses, um deus sozinho.
É a palavra para o que não se explica,
onde toda palavra nada explicita
e o que ali não termina
com certeza dali germina.
Sísifo sobe a encosta e a vida segue igual,
vida de um ponto de vista mais geral
igual em tudo a tudo que virá.
Ser Sísifo é este hábito de labuta
de quem sabe o que no topo se dará.
Sempre a metódica busca
de prosseguir e resignar-se,
de não atingir e enfrentar impasses.
Sísifo me respondas: a pedra te justifica?
Esta caminhada para o cimo nos explica?
Mal de Sísifo não é eterno.
Chega a morte e o leva ao termo.
Mas por mais que a morte insista
vem a vida e já se infiltra.
A vida se renova em cada fruto
e assim se propaga a eterna luta.
A vida na vida se inaugura
e Sísifo, és eterno, pois, nalgum ventre
outro Sísifo agora se encasula.
A mesma pedra, o mesmo olhar a frente
o Sísifo menino presencia.
E se não fosse a luta, esta criança, o que faria?

A besta de Tebas

Há muito tempo, próximo a Tebas
habitava uma besta com corpo de animal,
rosto de mulher e frágeis sentimentos humanos.
Obcecada por um enigma,
a besta atacava os viajantes,
ofertando-lhes a vida ou a morte
segundo a resposta que lhe dessem.
Como os mortais não satisfaziam
sua ânsia de esclarecer o enigma
a besta a todos devorava
e passou a ter consigo a certeza
que apenas um semideus saciaria
sua angustiada curiosidade.
E ocorreu que certa feita
Édipo, um semideus,
cruzou o caminho da besta.
O enigma foi proposto
mas Édipo não compreendeu
e disse à besta que o enigma era o homem.
A besta, estranhamente não o devorou
mas desistiu de buscar a solução do enigma.
Acometida de repentino desespero
lançou-se ao abismo.
Então propagou-se a lenda
que Édipo venceu a esfinge.

Cosmogonia

No momento primordial o Divino
que pairava sobre o Nada
olhou para a palma de sua mão
e sentenciou: ‘Expande-te, organiza-te
segundo minha vontade,
para meus fins,
tudo conforme minha lei que ora te dou.’
E soprando sua vontade sobre sua palma
fez-se do Nada na sua palma
uma bolha infinitesimal
de absoluto caos.
E como no sopro da vontade do Divino
se estabelecera a existência do tempo
foi num tempo infinitesimal
que a bolha de caos
se expandiu explosivamente
na direção do infinito.
E do que era caos absoluto
emergiram coisas diferenciadas
que se atraem e repelem
segundo as leis sopradas
pelo hálito do Divino.
Começou assim a longa história
da organização das coisas:
por uma bola de fogo
que vinda do Nada
se expande para o infinito.
A contagem do tempo
se distanciou do momento original.
Surgiram coisas como a matéria e a energia.
A bruma cósmica incandescente
se adensou originando bolas rubras
a girar em torno de si e em torno de outras.
Fez-se a luz e o som,
a terra e o fogo,
a água e o ar.
Estando formados os corpos celestes,
num deles, cuja crosta já não ardia,
recoberto por mares estéreis
que cingiam continentes de terra escalavrada
resolveu o Divino pousar sua mão
para que se desse o segundo ato da criação.
E o verbo divino rugiu sobre os mares:
‘ Reproduze-te, modifica-te.’
Isto dito, a mão do Divino inoculou
nas águas uma molécula
que tragou a matéria próxima
unindo pedaços esparsos numa ordem rígida
e liberando no final
outra molécula igual a si.
Assim nasceu a vida
que se organizou mais e mais,
de mutação em mutação,
crescendo em número, variedade e complexidade.
E quando os seres vivos dominaram as águas
passaram à terra e também ao ar
e toda crosta da esfera ficou habitada.
No terceiro ato da criação
estando um símio a espreita da caça
deslizou ao seu lado a sombra do Divino
e o verbo sibilou como brisa leve
na planície onde habitava o símio:
‘ Doravante desejarás ser o que sou.
Lego-te o desejo de atingires
a consciência de tua natureza
e o desejo de suplanta-la,
mas não os meios.
Vai, modifica o mundo
norteado pelo sentido
que tu mesmo darás a tua vida.
Buscarás tudo o que for dado
a tua razão saber.
Para o que tua razão não alcança
e teus sentidos não percebem
criarás tuas próprias conjeturas
que nunca serão confirmadas
mas que usarás como base à tua ética
ou como mera literatura.
Nada saberás de mim,
mesmo que me invoques ou renegues.
Agora estás no mundo com a consciência de si.’
Isto dito, nada mais falou.
O símio que permanecia encolhido
atrás de um arbusto,
vendo que a caça o percebera
e já insinuava a fuga
teve o ímpeto
de catar uma pedra ao chão
e arremessa-la contra a caça em fuga.
Atingiu-a, debilitando-a com o golpe,
o suficiente para captura-la.
Com a caça dominada entre os braços
o símio guinchava de satisfação
enquanto a sombra do Divino
se dissipava na planície.

Pássaro migrador

Vejo no céu o pássaro migrador.
Daqui pressinto seu anseio
de encontra pousada.
Mesmo exausto ele segue
traçando redemoinhos,
curvas insolúveis.
Fia em trajeto aleatório
um labirinto de caminhos,
entrecruzados, circulares
e ao fundo o mesmo horizonte frio
nascendo a cada dia.
Sempre que olho para o céu
esse pássaro sombrio navegando o firmamento.
Não desiste? Não se estropia?
Ao fim da tarde estou cá a olhar
o desenho mágico dessa ave louca.
Sem descanso voa, voa ….

Roma

Todos os caminhos levam a Roma
e Roma, dizem, é uma cidade magnífica,
mas distante e misteriosa.
Todos querem ir a Roma, pois,
no sonho de qualquer viajante
existe a promessa de uma cidade
que é o centro do mundo
para onde todos vão.
Conheço velhos andarilhos
que há muito buscam Roma
mas nem por isso
estão mais próximos dela
que afoitos iniciantes.
Já disseram que um louco incendiou Roma
mas ninguém crê.
Todos seguem palmilhando o caminho
batido pelas pegadas dos que se foram
e muito antes queriam Roma.
E não há mapas. Não há placas.
Não há estrelas no céu indicando Roma.
As bússolas apontam o Norte,
não apontam para Roma.
E o corpo cansa e a mente fraqueja
mas o viajante prossegue
porque só em Roma há pousada.
Roma é a capital do Império,
para onde todos vão.

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Autor: Radamés

Engenheiro curitibano pela UFPR, professor e produtor de conteúdos e ferramentas educacionais para a Internet.

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