Compromisso

Via Láctea

A noite se derrama sobre a metrópole.
Na avenida forma-se
o rio de lava urbana.
Dentro de mim
um maçarico queima sangue.
Sou um tentáculo do leviatã
que ofega e se crispa,
animal selvagem ferido,
que se contorce e urra,
em dor, velocidade, luz e febre,
A cidade se espalha na noite
e pulsa, ebule, caldeirão de óleo,
funga, resfolega e a emoção da vida
corre, circula nas avenidas.
Quem dera assimilar esta loucura,
magnífico caos organizado.
Quisera a omnipresença nas ruas,
nos quartos e nos becos.
Quem dera espalhar-me todo,
dividir-me em mil,
ser todos os habitantes da noite,
ser a própria cidade transpirando.
sentir no corpo
os carros em disparada,
o néon frenético, o bulício das calçadas.
Viesse a mim o poder de devorar
a beleza louca desta via-láctea.
Abre-te Sésamo, fera convulsiva da noite.
Deixa-me penetrar sua carne.
Sacia minha fome de ser você.
Quero o brilho doentio das lâmpadas de sódio,
a brutalidade do asfalto,
a frieza calculista do concreto.
E mais que tudo dá-me o direito
de ser os sussurros e gritos e silêncios
das almas atormentadas da noite.
Quero ser a escuridão dos becos.
a consciência dos culpados,
o desespero dos aflitos.
Dá-me a graça de ser pedra e carne,
delírio e esperança.
Ser o óleo de tuas engrenagens.
Máquina da noite, quero deslizar
por teus mecanismos.
Vejo-me triturado na tua boca impiedosa.
Meu sangue colorindo teus metais,
lubrificando teus mancais.
Deusa de concreto e alta voltagem
leva-me aos segredos ocultos nas tuas fundações.
Eu desejo tudo e tudo é pouco para mim
tamanha a fúria do desejo
que me martela as têmporas.
Eu amo o que está sob estas luzes
simplesmente porque existe
e tem o sabor selvagem de realidade.
Metrópole, minha sedução.
És matéria e estás fora de mim.
Amo burramente teu gosto de seiva crua
que me escapa e me domina.
Quero esta noite.
Tudo e nada eu quero e sinto.

Sombras

A solidão que neste momento
frequenta as sombras de meu quarto
e está em mim como um bicho na selva,
está em tantos que da janela não vejo,
mas suponho, espalhados e anônimos
sob as luzes da cidade
e que pulsam e penam como eu
neste instante de solidão fria.
Talvez bastasse um aceno
e a solidão se evolasse na noite.
Somos tantos, que sem rosto nos fechamos
em nossos quartos e nos desconhecemos.
Privamo-nos uns dos outros,
entregues ao silêncio
da noite que se derrama.
A solidão, porém, não é de alvenaria.
Não está neste quarto assim como a vejo.
está em algum lugar na raiz de mim mesmo,
de nós todos, cobertos pela mesma noite.

Sentido

O sentido das coisas?
Só preciso dele para compor versos.
E se não o tenho
sai o verso melhor ainda.
Na rua, inexplicavelmente,
o sentido está dado.
Cortar o cabelo,
arrumar emprego,
atingir o orgasmo.
Onde está o sentido?
Não sei. Terei de procurá-lo?
Consolar um doente,
explicar de onde vem os bebês,
pintar um quadro.
Mas qual o sentido?
Não sei. Vivo bem sem cogitá-lo.
Perder o sono,
amar sem ser amado,
morrer no dia de Finados.
Por quê? Por quê? Por quê?
Não sei.
Não foi de perguntar que perdi o sono.
Não foi por falta de sentido
que deixei de ser amado.
Com ou sem resposta
tudo pode acontecer em Finados.

Risco

Eu vinha para casa do serviço
pensando no caminho
sobre o que escrever
quando estivesse aqui sentado.
E enquanto eu vinha
um carro da polícia
passou por mim em disparada,
um moleque me pediu esmola,
vi gente morando sob o viaduto
e no rádio falavam
de confronto entre posseiros e jagunços.
Eu, pensando no que escrever, pensei:
Poesia social é campo minado.
São muitos os perigos:
o de se inflamar à noite
e amanhecer em cinzas.
O de semear paraíso
e colher inferno.
O de praticar o que se critica.
O da crítica cega
com proposta muda.
Mas se uma criança revolve o lixo
e a FEBEM faz parte da vida
então a criança, o lixo e a FEBEM
fazem parte da poesia.
Por isso, caro leitor,
me apóie ou me critique,
me elogie ou me piche.
Só não fique inerte.
Divida comigo este alto risco.

Partido

Já não vivo encharcado de utopia.
Basta-me uma luta a cada dia.
Já não tenho sonho de redenção.
Construo o mundo com pé no chão.
Não serei o homem novo.
Não me queiram homem do povo,
que novo sou a cada instante
e povo é o omisso e o atuante.
E se me cobram um partido,
digo que separados ou unidos
a esperança lá no firmamento
é uma chama em risco a todo momento.
Nos revezamos para nutrir sua luz casta
mas a chama é fraca e a luta é vasta.
E assim vamos em miséria de recursos
aqui e ali buscando um novo curso.
Bem ou mal vamos juntos.

Papel em branco

Fatigado esperas um dia
em que o tempo comece de novo.
O passado se esfumando por mágica
e voltas a ser prancheta vazia.
Tua vida rescrita
em límpido couche.
Aguardas teu dia de remissão,
teu segundo nascimento,
não um sinal no calendário,
mas um dia em que a vida exala
um ar de pureza e frescor
e as esperanças não resultam inúteis,
os problemas são objetos solúveis
e há um excelente motivo
para continuar a viver.
Que impulso te compele a esta busca,
a esse brilho nos olhos
que te faz tão humano
e nos faz tão iguais
na espera desse dia:
Quem não o espera?

Nós

Não nascemos irmãos,
nos fazemos irmãos
num duro aprendizado
de renúncia, desprendimento.
No sangue trazemos só
uma tímida vocação para o outro
que lançada na correta estação
e cultivada no justo procedimento
das lavouras sensíveis
dá sua flor, seu fruto exuberante.
Não nascemos solidários.
A mão estendida, o gesto fraterno
não pertencem à seqüência natural
de movimentos de nossa complexa arquitetura.
O que existe em nós é uma possibilidade,
uma seta que aponta o caminho íngreme.
Enxergar o outro, sair de si,
fazer sua a dor do outro,
atos que por vezes
nos é difícil admirar,
que dizer de neles nos aventurarmos,
ou deles fazer nosso propósito.
Forte e raro é o que se doa, o que abdica.
O bom é raro,
tanto mais raro quanto melhor.

Muro de Berlim

Pela tevê assisto a queda
do muro de Berlim
e as picaretas trabalham
em mim.
Cai o muro de Berlim.
A utopia chega ao fim.
Desmorona, se esfacela,
tijolo por tijolo
um sonho implode, por fim.
Não. Não sou a favor do muro.
É o que o que com ele chega ao fim.
Já agonizava, bem sabia,
mas a morte anunciada
não te alivia
quando se vê a morte, enfim.
E tantos sonharam com a utopia.
Por ela tantos lutaram no dia-a-dia
e agora morta assim.
Não lamentarei mais
que a morte não volta atrás.
Um sonho está morto.
Os erros foram tantos.
É o fim?

Habitat

No final da tarde,
sob o viaduto imenso,
considero a dimensão da realidade.
Pessoas, buzinas, concreto
escoam em chamas
pelo retrovisor.
A noite beija o asfalto.
Elétrica e nervosa a vida pulula
na dura geografia metropolitana.
Cansada, a cidade se veste para a noite.
A fauna das esquinas
exibe seus tesouros e nada pára.
Decididamente esta cidade
não cabe em mim.
Sou uma bolha de carne pulsante.
Volto do trabalho cansado
e as coisas não estão no lugar.
Trabalhei. O mundo ficou melhor?
Logo estarei em casa,
onde, me aguardam,
onde me guardo.
A senhora da noite segue rugindo
seu canto áspero e sedutor,
como fera, como mãe, como máquina.

Crianças dormindo

Agora, enquanto escrevo,
perto daqui, crianças dormem na rua.
Precisava dizer isso?
Você sabe melhor que eu, não é?
Crianças dormem na rua, ora.
Ou talvez eu seja um afortunado
e você esteja lendo-me num tempo
em que crianças já não dormem na rua.
Mas se esse tempo ainda não veio
talvez seja preciso dizer:
Crianças dormem na rua.
Sim, sou piegas, demagogo,
hipócrita, o quê mais?
Paciência. Crianças dormem na rua.
Isso não é nada poético.
E escrever sobre este tema
não traz cama quente e limpa
para as crianças lá fora.
Poemas não contém proteínas
e não distribuem renda.
Poemas são poemas
e crianças são crianças.
Logo irei dormir e confesso,
dormirei bem, mesmo com
crianças na rua.
E você não perderá o sono
por causa deste poema, certo?
Bem, sono tranqüilo a parte,
se as matérias primas do poema
são palavra e vida,
tem que ser possível incluir nele
as crianças que dormem na rua.
Eu queria falar sobre o tema,
só não sabia como
neste mundo de utopias fracassadas.
Primeiro quis descrever a cena
com metáforas e metonímias.
Depois pensei em refletir
sobre possíveis soluções.
Mas achei melhor dizer simplesmente:
Crianças dormem na rua.
Precisa dizer mais?

Cinzas

Nem tudo termina na quarta-feira de cinzas.
Ainda te resta uma centelha de vida
pulsando na veia, que vai germinar
em vontade de novos carnavais.
O fim de alegria não é
o fim da vontade de alegria.
Em teu peito te esperam latentes
noites de emoção galopante
e se não vier a utopia, saiba,
em ti estará sempre renascendo
a esperança de outro carnaval.
Por mais que você esbanje
seu potencial de desejo
e passe por outras quartas de cinzas
o carnaval se promete no fundo de si.
Você palmilha a rua vazia
enquanto o sol nasce como sempre
a leste todo dia
e tudo a sua volta
cumpre o ritual da renovação.
Dormente na quarta-feira, breve,
você verá crescer
o anseio de um novo momento,
mágico e intenso,
festival de ascensão e queda,
orgasmo e prostração,
como foi, como será.

Chances

A chance de teu grande amor
na próxima esquina,
é a mesma de um bilhete de loteria,
mas você confia.
A chance de redenção nesta hora vazia
é menor que a de teu grande amor
mas você confia.
Confia apesar da pequena chance
de todas as grandes coisas da tua vida.
Além de todas as chances
pequenas ou grandes
você continua. Avança.
Amanhã talvez não seja
melhor que este dia esquartejado na tarde
mas é só o dia que agoniza.
Atravessando a tarde tua esperança irradia.
No meio da rua,
no rio de corpos correndo atrás da vida
que como você contam com poucas chances
para seus grandes planos,
entre eles você continua. Pulsa.
Tua esperança segue na rua.

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Autor: Radamés

Engenheiro curitibano pela UFPR, professor e produtor de conteúdos e ferramentas educacionais para a Internet.

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