Essencial

Quê te consome?

Quê te consome na rua?
O primeiro fio de cabelo branco
na cabeleira já não tão vasta.
O zero a menos no teu contracheque.
O rebolado da morena
que passou há pouco.
Teu encontro com quem não vem.
Aquela dor de dente?

O que te consome
diante da folha em branco
na hora de parir um verso?
Falta de assunto.
A seita literária da semana.
Aquele poeta guru
que tanto falam mas ninguém leu.
A nova rima tecnoendergonorgética.
O iminente apocalipse poético?

Ora, meu amigo.
Há algo errado com você.

Pretensão

Às vezes me pergunto
com que direito falo da dor,
se mal a conheço,
se canto os problemas do poeta
quando problema é ser analfabeto.
Eu que falei da vida
como fardo, quando é dádiva,
aos que sabem a dor verdadeira,
minhas desculpas, meu respeito.
Por favor, não me levem a sério.
Coloquem meu poema em seu devido lugar:
depois do sofrimento agudo,
depois da perda lancinante,
depois da áspera realidade.
Depois, só depois,
minhas buscas menores:
as perdas e danos do amor,
o tempo que me foge,
a palavra que não encontro.

Pregação

No centro da praça
ao entardecer
um homem humilde, inflamado,
prega a Bíblia
aos transeuntes apressados
que não param para ouvi-lo.
Vastos e incontáveis são os desertos.
Gostaria de dizer àquele homem
que toscamente o entendo
e o admiro, mas, infelizmente,
habitamos desertos diferentes.

O vento e a vela

Vamos esclarecer uma coisa
que são duas: a poesia e a poesia.
A primeira está no ar,
na rua, na praia, ou
na soleira da porta
ao lado do vira-lata que dorme.
A primeira é bela em si,
se não é, faz-se,
graças a um quê de pungência,
a uma inédita combinação
de objetos banais.
A segunda está no papel
e engarrafa a primeira
em frasco de palavras.
A segunda, se é bela,
é porque deu-se
a harmonia rara
entre o vento e a vela.

Ofício

Curvar-se sobre si,
dia após dia,
engastando palavras
num arranjo incerto,
sob contínuo açoite da dúvida,
enquanto na janela
um avião passa em chamas,
e pela fresta da porta
o suicida deixa
seu bilhete de adeus.

Tecer, parir
cordões de discurso,
po-los no mundo
para que tomem o próprio rumo
tal pergaminho queimado
da biblioteca de Alexandria,
htm tragado pelos hiper-computadores
da rede deserta.

Tornar palavras em objeto,
de suposta beleza,
de intangível valor.
Inocular na palavra
poderes secretos
de dilatar céptica pupila,
de mover ponteiros
em sentido contrário.

Mergulhar na água turva das formas.
Arpoar metáfora, oxímoro,
que tragam no ventre
emoção e pensamento.
Atender às perguntas
que pululam como vermes
na flácida massa da incerteza:
Que rima para tanger
as cordas retesadas do
sentimento?
Onde a harmonia celeste
entre o jarro e o vinho?
vinho que de tão pura vinha
remonta aos ritos ancestrais.

Amar a palavra. Ama-la,
sem esperar nada em troca.
Servir à palavra e só a ela servir.

Fraquezas

Minha querida:
sei que fracasso
onde se dá bem
qualquer canalha.
Sei que me ocupo
da poesia a sério.
Sei que já parei na rua
para escutar mendigos.
Sei que me perco em mim
e perdido, ainda assim
não me vejo, pois
a miopia que me embaça o espelho
só é menor que a que me separa
das coisas imediatas da vida.
Que fazer se não tenho
os óculos que preciso
e sendo um, sou dois:
o que quer ir ao fundo
e o que desliza
para fora do reflexo.
Minha querida,
não me olhe assim.
Você não aprecia nenhuma
das minhas qualidades inúteis?

Floresta

A exuberante floresta das palavras.
Quem para sobreviver
nesta fecunda e inóspita diversidade?
Inútil facão, repelente, mosquete.
Entre de mãos vazias,
como num santuário.
Ouça, acaricie, respire.
Ali, uma que corta.
Mais adiante, a que queima.
Ao fundo, a que cura.
No paraíso da linguagem
vigoram poucas, duras,
leis imutáveis.
Lá só colhe quem respeita.
o frágil equilíbrio das coisas,
quem sabe a diferença sutil
entre o cogumelo bom e o fatal.
Palavras não tem complacência,
aguardam indiferentes, vazias ainda,
por quem as queira,
quem as saiba,
quem as ame.
Difíceis, não se expõem na clareira.
Caminhe até o fundo da mata,
encontre o útero escuro.
Lá se nutre, virginal e úmida,
tua palavra rara.

Exemplo

A vida toda quis ser
um exemplo para si mesmo.
Nenhuma concessão,
nenhum pileque do bom,
nenhum arroto diante dos outros,
nenhuma irresponsabilidade
diante de si.
Sempre a corda tensa,
a hora rígida.
Para si a crítica mais cítrica.
De si o esforço mais drástico.
Sempre corrigindo
a postura da vontade,
marcando o passo do desejo,
classificando as palavras
segundo sua densidade.
Nunca pensou nem quis
ser diferente.
Tudo como se
alguém o vigiasse,
alguém que sempre e sempre
esconde a face.

Dor

A dor verdadeira,
a legítima dor,
dor de perda imensa,
de injustiça atroz,
esta dor te beneficia?
A dor te torna duro?
Torna-te puro?
Te faz exemplo
ou cão sarnento?
A dor presente te
impermeabiliza
contra a dor futura?
A dor te recoze a têmpera?
Arrasa ou solidifica?
Revolta ou edifica?
Pode a dor tatuar
linhas de virtude
entre os calos de tua mão?
Se não pode, quê pode então?
Só açoita pelo sabor do estalo?
Só escarifica a alma porque
também o vento escarifica a pedra?
Ah, mas para quê
se ocupar das mil
mal vislumbradas
funções da dor
se te basta saber
que ela existe em ti
como o espinho pertence ao cacto
que produz belas flores no deserto.

Desabafo

Que sei da poesia?
Sei que a fazem
longe de mim
e de meu parco entendimento.
Na cadeia da escrita
sou o copista.
Não me encontrei.
Me encontrarei?
Baterei eternamente
a cabeça no vidro blindado
que me separa
do mínimo verso feliz?
Ah, que fosse o menor
da história da Literatura
mas que brilhasse sob luz intensa,
que tivesse ínfimo poder
e curto reinado
na retina do incauto,
que vendo-o num canto torto da estante
o colhesse e por um lampejo de instante
se deparasse diante do milagre da arte.
Que belo exemplo sou eu.
Não de poeta, mas de tentativa.
Diariamente levo das palavras
drible humilhante
e como cachorro estúpido
volto para lamber-lhe os pés.
Diariamente fujo
dos velhos poetas e os encontro
no armário, nas gavetas,
no verso brilhante que escrevo
e já oxida tão logo esfria.
Saibam todos que me lerem:
(há alguém lendo aí?)
Eu tento. Juro que tento
mas a arte é maior.
Como hei de toca-lo
amigo leitor?
Não somos patéticos?
Eu cá com meus pães
de farinha impura
e você buscando
a jazida oculta
na minha fala rala.
Garimpeiros, você eu.
Desejo-te mais sorte da próxima vez.

Colheita

Miro meu verso
como miro a planície desolada
onde jaz a carcaça
e prolifera a erva amarga.
Não mereci a messe farta.
Não semeei no tempo certo.
Não combati a praga.
Miro o verso. Miro-me:
terra esturricada,
colheita perdida.

Bresson

Henry Cartier Bresson,
grande ladrão de instantes,
fotografava com os olhos,
dos quais, sua Leica
era a extensão natural.
Como o ponta de lança
que na confusão do lance
à boca do gol
encontra a fenda
para o fundo da rede,
Bresson, no meio da rua,
aguardava o momento puro
de fisgar a poesia em movimento.
Mas depois do disparo
não foi gente, momento ou rua
que ficou no fundo da objetiva.
A mágica composição de elementos
não resistiu ao olho da Leica.
No ato mesmo do disparo
o instante já estava perdido.
Restou, cor, sombra e luz.
Ficou arte, que não é o instante
e nem o retém.
A foto é um fato novo no mundo,
um objeto distante de tudo que evoca.
Uma foto de Bresson
é o milagre da arte
que reconstrói o momento,
que sonha paralisar
a lágrima na sua queda,
pois, a vida é instante,
movimento, queda.

Bilac

Nas minhas caminhadas
por este mundo a parte,
é diante de ti que estaco,
como arqueólogo diligente
sobre pergaminhos cifrados
de uma civilização passada.
Amaste com fé e orgulho,
tombaste em prol do estilo
e eu que não amo e não tombo
rio de teu mundo saudável
quando o risível sou eu.
Ah, se ainda houvesse tema elevado,
se fosse possível soneto bem torneado,
se não houvesse escombro e caos.

Beleza

A linda morena em um dia ensolarado
passa sorrindo ao teu llado
e deixa um rastro de fino perfume na rua
antes de dobrar a esquina
para nunca mais ser vista por ti.
A beleza se oferece a ti diária
em minutos, segundos contados
com a urgência do que vai se acabar num estalo.
Vai-se a morena na esquina,
evola-se o perfume no ar,
vai-se até o dia ensolarado.
Resta a impressão
de um desperdício generalizado
de beleza por todo lado.

Autópsia

Um homem não é seu discurso
e o canto não vale pelo autor.
Se vale, vale por si.
Refletir-me nos versos?
Mesmo velhos poetas, imbuídos
de sincero amor pela palavra
e a duras penas libertos da vaidade
não se despem inteiros no espelho da arte.
Sempre resta oculto um dente escuro,
uma sinal de nascença,
porque existe distância entre
as prioridades literárias
e a realidade da vida,
e à arte, supostamente,
interessa mais o que é da natureza humana,
que as tristes limitações individuais
do caráter, do sangue.
Se falo de mim,
já que estabelecido há séculos
que a argila do poeta é o eu profundo,
é por obediência
aos desígnios da Poesia
a quem sirvo devotadamente
nos limites de minha capacidade.
Imito a perícia do legista
mas não corto tão fundo.
Pouco em mim é de valor literário.
O são certas fraquezas específicas
e bem escolhidas num universo maior
de ricas limitações.
E além das pobrezas que canto
quantas outras nem vislumbro,
provável mais terríveis e primeiras,
ou julgas mais fácil enxergar a si
que ao outro?
O melhor de mim, se há, é o verso
que mal floresce e já não está em mim,
e se resulta oco e sem melodia
consideres que a laboriosa gestação,
comumente o faz superior à boca que o sopra.

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Autor: Radamés

Engenheiro curitibano pela UFPR, professor e produtor de conteúdos e ferramentas educacionais para a Internet.

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