Poeta guru

O poeta guru agoniza no leito.
Três exegetas seus
fazem vigília à sua cabeceira.
O poeta guru abre os olhos.
De sua boca sai um murmúrio débil.
Os três exegetas se apressam
em trazer os ouvidos
para junto da boca do poeta guru.
– O que ele disse?
– Não ouvi.
– Não podemos perder suas palavras finais.
– Vejam. Vai falar de novo.
O poeta guru balbucia ansiado:
– Co …
Os exegetas se afligem.
– Que sublimes palavras quer nos passar?
– Estamos aqui mestre,
ávidos para interpreta-lo.
– Honre-nos com o divino verbo.
– Co … ma … co…
Os exegetas se agitam.
– Oh, desgraça. Seu último verso,
talvez o melhor,
paira na boca e não encontra saída.
– O que dizem tais sílabas misteriosas?
– Será que medita a forma perfeita?
O poeta guru se contorce no leito.
– Co … mm…
Nisso, o enfermeiro, que entrava:
– Comadre, gente. Ele quer a comadre.
O enfermeiro pega a comadre
embaixo da cama e ajeita
sob o corpo do poeta.
Alguns minutos depois
o poeta expira.
Em seu rosto, um ar
de alívio e libertação.

Autor: Radamés

Engenheiro curitibano pela UFPR, professor e produtor de conteúdos e ferramentas educacionais para a Internet.

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