Serraria

Faz tempo meu avô
levou meu pai, então garoto,
de carroça por uma picada estreita,
de lado a lado cercada
por uma muralha de pinheiros
até chegarem a uma serraria
construída pelas mãos grossas
e pelo raciocínio fino de meu avô
e depois de mostrar ao meu pai
toda a serraria
o levou até o pinhal
que rescendia a madeira recém cortada
e disse:
‘Veja, filho,
um pinheiro de muitos séculos.
Três homens não o conseguem abracar.
Veja quantos pinheiros mais há.
Quanta riqueza, a riqueza do Paraná.
Onde a vista alcança
você vê, você verá.
É tanta madeira.
Nunca há de se acabar.
É nossa riqueza, o pinheiro do Paraná.’
Um dia quando eu era apenas um garoto
meu pai tomou-me pela mão
e me levou por uma estrada poeirenta
e num descampado me mostrou:
‘ Aqui um dia teu avô chegou
abrindo picada no mato fechado.
Derrubou o mato, muito mato derrubou.
Fez uma serraria, aquela lá, abandonada.
Serrou muito pinheiro,
vendeu muita madeira.
Agora aqui, madeira já não há
e saiba, filho, se ninguém cuidar
um dia vai acabar
toda a madeira do Paraná.’

Esses dias passei de carro
pela estrada asfaltada
que um dia foi a picada
para a serraria do meu avô.
Da serraria, nada mais há.
Ao longe encherguei no descampado
um par de pinheiros miúdos e mirrados
que, provável, não interessaram a
madeireiro algum.
Na imaginação falo
ao filho que não tive:
‘Veja, filho, o pinheiro do Paraná.
Aqui um dia houve outros, muitos,
pinheiros e mais pinheiros,
fortes e inabaláveis,
seculares e intermináveis,
uma grande riqueza,
símbolos desta terra,
tombados para sempre,
para sempre tombados
os símbolos do Paraná.’

Autor: Radamés

Engenheiro curitibano pela UFPR, professor e produtor de conteúdos e ferramentas educacionais para a Internet.

Seu comentário também é poesia