Fragmentos

Ursa Maior

Existe uma estrela
que indica o Norte.
Não o meu, o seu,
mas o Norte do Norte.

Existe uma estrela
de brilho opaco,
de luz escura,
intangível aos móveis
referenciais cartesianos.

Existe uma estrela imóvel
que não está nas cartas celestes,
que brilha fora do alcance
da luneta dos cínicos.

Existe uma estrela
além do além do firmamento,
invulnerável, absoluta.
Existe uma estrela.

Um dia

Serei o último poeta metafísico inglês,
tirado do limbo pelo Borges
do século XXIII.

Serei desmantelado em sal
ao fugir da mítica Sodoma,
renascida e de novo arrasada.

Serei asfalto, concreto e aço
numa metrópole caótica e ensanguentada
fremindo em delírio na noite interminável.

Troféus

Veja aqui os troféus
da tua experiência:
uma acuidade milimétrica
para as próprias limitações,
alguns objetos de fetiche
a ornar teu castelo de papel,
o escudo de palavras ocas,
a fina ironia de cristal,
a consciência de morrer.
Veja mais:
que dissimulação primorosa
dos sentimentos,
que capacidade de não sentir,
que silêncio na veia quase imóvel.
Ah, não querer nascer de novo,
não se arrepender de nada,
fazer malabarismo com facas,
e abrir a porta em silêncio para a dor.
Que bom não se ver no espelho,
não ouvir a boca úmida que te beija ao longe
e lá no fundo, a brasa quase sem luz,
que eventualmente te faz humano,
e te põe a buscar uma ordem rigorosa
para as palavras.

Ser

O que fui,
o que pensavam de mim,
o que sou,
o que finjo ser,
o que penso que sou,
o que pensam de mim,
o que dizem a mim de mim,
o que quero ser,
o que querem que eu seja
o que quero que pensem de mim,
o que posso ser,
o que serei,
o que não quero ser,
o que não serei.

Ruínas

Exausto, coberto pelo pó da estrada,
jogas a mala ao chão
diante das ruínas esquecidas.
A porta resiste toscamente
ao avanço de tua mão.
Entras no velho templo,
desolado e vazio
e ao toque dos teus passos
o soalho range,
se umidifica, se regenera.
A luz, que há muito não entrava
rasga as frestas da vidraça
e se insinua tímida,
como é próprio a um tempo
de energia escassa.
Animal que abandonou a manada,
caminhas de mãos vazias
para o centro da nave.
Pelos pés escorrem lentamente
as raízes, avançando
no solo úmido e silencioso,
mais fundo e fundo,
sulcando e conhecendo tua terra,
chegando à câmara oculta,
preparando-te para a terra,
devolvendo-te à ela.

Pudor

Revelo-me quando me dispo.
Revelo-me quando me calo.
Falo quando falo,
mais falo quando travo.
Sou de uma transparência obscena
a qualquer um que resolva
me esquadrinhar.
Nem tento mais me esconder
dos olhos dos outros,
dos meus próprios olhos.
E por que haveria de fazê-lo
se não há manto
nem quarto escuro sem espelho
para minhas limitações.

Poema final

Um poema único,
um único poema,
rolado do alto da serra,
água primeira
da primeira fonte.

Um poema de sete portas
que se abrem para sete corredores
com sete portas cada.

Um poema milenar,
legado remoto de ancestrais,
cinzelado na pedra mais dura
inerte, invulnerável, absoluto.

Um poema que te justifique,
que chegue à tua última víscera,
te exiba em tiras,
mantas de charque no varal.

Um poema caído do Olimpo,
idéia perfeita tecida com palavra,
úmido de transcendência.

Um poema final.
Depois dele, silêncio,
refúgio no deserto,
jejum eterno.

Um poema que não virá.

Platonismo

O amor em si,
o amor a nada,
é inútil e inodoro.
Apenas decora
com sua beleza fria
a estante do filósofo.
Meu amor por ti
tem o gosto salgado
da tua pele
e me escolhe,
me tatua,
me talha.

O amor etéreo,
como uma reta,
se estende ao infinito
nas mentes matemáticas.
Meu amor por ti
queima indefeso ao vento.
Pode se apagar com a estação
ou talvez me ilumine a vida,
pois está na rua,
sangra, luta e sua.
Meu amor por ti
é um ser vivo.

O amor em tese
não dá trabalho.
É límpido, puro
e só precisa de contemplação.
Meu amor por ti
é conquista diária,
é campo de batalha.
Com ele não sei lidar,
e me queimo e me corto
e não o controlo,
pois não é hipótese, é fato.

Pirâmide

Há anos erijo minha pirâmide.
Só me seduzem
a arquitetura invulnerável,
a dureza do granito,
a longevidade do basalto.
Uns armam choupana
de folha de bananeira
e vivem bem aqui e agora.
Eu, inventei de construir pirâmide.

Panteão

Entras descalço no templo,
percorres as longas estantes,
tocas o passado comprimido
nas velhas palavras.
Os antigos profetas te olham
com a serenidade de quem
no seu tempo rompeu o selo
e cumpriu seu desígnio.
Humilde, recorres
aos anciãos da tribo.
Os profetas te sussurram
valiosos segredos,
te passam a fórmula
de certeiros unguentos.
E depois deste diálogo
tecido de silêncios
com as estrelas fixas
do teu firmamento
voltas ao teu mundo
de necessidades prementes
onde te aguardam
as questões urgentes
que profeta nenhum
responderá por ti.

Oxímoros

Na minha fraqueza
está minha fortaleza.
No meu erro
está meu acerto.
Na minha derrota
está minha vitória.
No meu sonho
está meu pesadelo.

Ode à bunda

Que outro, não eu,
suave, a serena face,
os expressivos olhos cante.
Cantarei a última flor do corpo,
primeira no pensamento,
a multifuncional, curvilínea,
nacionalmente preferida bunda.

Corpo

Vejo meu corpo no espelho
mas não me vejo. Então, quê vejo?
Meu corpo: janela para o mundo,
que me obedece
em algumas poucas coisas,
mas teima em caminhar sem mim.
Onde termina meu corpo,
onde começo eu?
Ou não há fronteira possível
entre nós?
Se minha mão fosse decepada
eu vendo-a diria:
aquilo não sou eu.
Há linha divisória
por onde passa a faca
sem que meu corpo deixe
de ser minha morada?
Ah, não direi mais: meu corpo.
Sou eu no espelho, não ele.
Não importa se o percebo
a partir da fria gelatina
da quinta dimensão.
Estamos destinados um ao outro.

Copo d’água

Engraçadas as coisas.
Dúcteis e cristalinas
ao virginal primeiro toque
da ingenuidade.
Este copo d’água na mesa.
Que pode um copo desafiar?
Adiciono pouco a pouco
mais água no copo cheio
e a água não se entrega à queda.
Água se agarra à água
e se curva toda na borda do copo.
Resiste heróica e gelatinosa,
ao menos até um estranho e definido limite
quando a primeira gota se desprende
e serpenteia pelo vidro abaixo.
Em forma de gota.
Serpenteando.
Deixando rastro.
Para baixo.
Pronto. Não conto mais com a simplicidade
de um copo d’água.

Bonde

O amor vem,
o amor vai.
Em trajetória imutável,
indiferente aos teus apelos,
o amor passa
e se te encontra,
te arrasta, te colhe.
Se não estás no ponto,
se te atrasas ao encontro,
te deixa sem olhar para trás.

Biblioteca

Meu sonho é uma biblioteca
de mansão inglesa.
Daquelas que se organizam em círculo,
com mezanino para acessar
a parte alta das estantes.
Ao centro, o tapete persa,
a escrivaninha vitoriana,
o sofá chesterfield.
As edições raras de clássicos,
com capas duras
em marroquim vermelho.
Num canto, o carrilhão
faz do passar das horas
um momento de ascese.
E talvez, em alguma prateleira,
o livro de páginas infinitas de Borges.
Uma biblioteca, uma fortaleza.
Não é o mundo,
mas é um mundo.

Flagrantes

1
Vovô, quer um chocolate?
Têm Crunch, Smash e Krot.
– Ah, lindinha. Não têm
Diamante Negro, Sonho de Valsa
ou Serenata de Amor?

2
Diante do hotel suspeito:
‘Será que encaro esta?’
‘Terei de encarar este?’
– Oi, beleza.
– Olá, gostosão.
‘Meio gorda.’
‘Velho caidaço.’
– É quanto?
– É tanto.
‘Vagabunda.’
‘Otário.’
Os dois entram no hotel.

3
À saída do Sacre Couer
o respeitável pai de família,
aguarda as filhas
enquanto com olhar austero
e desejo inconfessável
contempla os meninos.

4
– João vem pra casa
que tua mãe morreu.
– Mas logo na hora do almoço?

5
– Então? Encontrou?
– Infelizmente, não.
Verifiquei em todo
nosso vasto catálogo.
Realmente seu ouvido foge
aos padrões vigentes.
– Não há nada a fazer?
– Não. Mas o senhor está certo
que não lhe serve um tango argentino?

Elixir Caxambú

Saibam tantos quantos lerem
este reclame que nas melhores
casas do ramo encontra-se disponível
o inigualável Elixir Caxambú,
o preferido dos corações aflitos,
insuperável no reparo dos males
os mais diversos,
seja prisão de ventre,
paixão insensata,
cólicas das senhoras nos seus dias,
ou dores de causa incerta.
O revigorante Elixir Caxambú
com sua exclusiva fórmula
e gosto o mais delicioso,
agrada às crianças, aos adultos
e aos idosos,
sendo especialmente indicado
contra a ciática,
para deitar bichas,
contra dores reumáticas,
aos carentes de todos os tipos,
aos asmáticos, aos anêmicos,
e aos desenganados.
Ao visitar a botica de sua confiança
não esqueça de pedir
pelo exclusivo Elixir Caxambú,
o amigo da sua felicidade.

Ah, diga lá Doutor Oriovisto,
do alto de sua experiência
de milhares de receitas aviadas
por que não se fabrica mais
o formidável Elixir Caxambú?

Estatísticas do amor

Dediquei 99% de mim a ti
e tu, 1% de ti a mim,
mas por uma má confluência de astros
os 1% aconteceram
ao mesmo tempo.

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Autor: Radamés

Engenheiro curitibano pela UFPR, professor e produtor de conteúdos e ferramentas educacionais para a Internet.

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