Fim de noite

Em silêncio você anda na rua
e o tropeço no desejo
de viver paixão imensa
como a que você viu
no cinema, mas muito distante
desta tua noite de luzes cansadas.
Você é uma sombra que caminha
sob o silêncio da rua
de encontro ao silêncio do quarto,
ao silêncio do sono,
rumo à vida suspensa e muda.
Teus dias sempre os mesmos repetidos dias.
Uma surda fome de emoções vivas.
Você pensa no grande amor
que tanto te falta
nesta hora de coração selvagem.
Pensa na vida em alta voltagem
que só a literatura ofertou,
assim concentrada e quente.
E você se dirige
ao teu mundo de silêncio
esperando que na rua
surja de súbito,
mulher, talvez uma carta
ou simplesmente um aviso
Você aguarda seu momento de farta energia,
sua vida saindo da rotina vazia.
Nessa cidade enorme que não tem fim
você busca a parte da vida
que te abarrotará o coração
e como você, talvez ali mesmo na esquina,
alguém se consome na mesma procura.

Presente

Não serei nostálgico.
Bons velhos tempos?
Não se faz como antigamente?
Não é para mim
que vivo do presente.
Se tudo vai mal,
se só vejo dor a minha frente,
quero sempre e sempre
existir para o presente.
Qualquer coisa pode parecer ótima
depois que passa,
ao se tornar idealidade
expurgada das mil sujas contingências,
mas o que eu quero
é o que se dá no presente.
O tempo passa, sei que passa,
que vou fazer?
Só trato de questões urgentes.
Estou completo no presente.

Tudo certo

Caminho pela rua ao final da tarde.
Numa banca, de passagem,
leio as manchetes dos jornais.
Tragédias, horrores ocorrendo longe de mim.
Volto para casa de consciência limpa.
Nada do que li me diz respeito.
Sou maior, vacinado,
estou feliz e em dia com meus impostos.
Um mendigo me pede esmola
e conta uma história triste
que não me diz respeito.
Passo no bar para comprar cigarros.
O dono do bar comenta
que foi assaltado e me pergunta
onde vamos parar desse jeito.
Digo-lhe qualquer coisa e saio.
O que lhe acontece não me diz respeito.
Volto cansado mas tranqüilo.
Chegando em casa tomo um banho,
me refaço, me tranco, estou satisfeito.
A noite correndo lá fora, decididamente,
não me diz respeito.

Opções

Tenha muita paciência.
Ainda lhe restam todas as opções.
Não se altere. Fique calmo.
Ainda lhe resta saltar do 15º andar
mas você não saltará.
Ainda lhe resta bater a cabeça na parede
até o crânio rachar
mas você não baterá.
Ainda lhe resta se afogar na bebida
mas você não se afogará.
Lhe resta ainda se redimir e rezar
mas você não rezará.
Resta um grito na noite
mas você não gritará.
Resta ainda ficar louco
mas você não ficará.
Resta se iludir com promessas e esperanças
mas você não se iludirá.
Resta dormir e sonhar
mas o sono não virá.
Como vê, tudo e nada lhe resta.
Mais certo, te resta esperar.

Águas em junho

Da janela do apartamento assisto
a morte dos sonhos frágeis.
Um a um despencando pela sacada.
É junho e meu coração em desatada sangria,
como estas águas frias
correndo nas ruas.
Neste tempo de frio e águas
meus sonhos sumindo na sarjeta,
se dissolvendo nas águas.
Em junho os sonhos se vão.
Não todos, apenas sonhos vãos.
Versos e versos se perdendo pelo vento,
que me importa.
A quinta essência escorrega da janela
e se arrebenta no asfalto.
Adeus sonhos transcendentes.
Recomeço com coisas simples e realizáveis.
Não realização fácil, mas palpável.
Abro os braços ao mundo do imediato.
Coisas simples:
amor e vida sem tormentos,
emoções simples, só e simplesmente.