Arquitetura moderna

Adeus ao martírio dos sonhos.
Adeus sentimentos que deixam lanhos.
Minha revolução pessoal
se assemelha à revolução arquitetônica.
Adeus Art Nuveau.
A curva francesa cedendo lugar à régua T.
Vertical. Horizontal.
O expurgo dos excessos.
A arcada sentimental desce do pódium.
Agora a reta e o ponto. Parede nua.
A beleza simples dos objetos geométricos simples.
Cubos, prismas caem do céu.
Descem como pluma.
Leves, assentam cuidadosamente no solo.
Pelo pouco peso
nem precisam se agarrar ao chão.
Como bailarinas ficam no ar,
pela ponta do pé, querendo levitar.
Formas simples, formas claras.
Esta arquitetura não é própria ao pesadelo.
Minha revolução:
Fazer da vida um edifício leve
que abusa do vão livre.
Estes prédios leves são para o ver
e não para o por quê.
Este projeto de vida
que não nasceu nas pranchetas da angústia
tem o estilo claro da moderna arquitetura.
Arquitetura e vida fundidas no mesmo projeto:
Gerar o objeto fácil,
sem dilemas, sem perguntas.
Simples, leve e limpo.

Cacto e pedras

O hábito de viver se limitando
ao hábito de persistir,
como pedras ao sol,
como cacto no deserto,
como pedras, como cacto.
Que ciência mais profunda
que esta ausência de sabedoria
encontrável nos desertos?
O deserto nos ensina
por não dar lições
a lição do silêncio pleno.
Uma vida sem oásis,
sem problemas, sem contrastes.
Ser para ver.
Ser para ser.
E tudo que vai além
da mensagem dos sentidos
fenece como erva no deserto,
nesse deserto de vida,
nessa vida sem umidade,
plana e horizontal,
como cacto,
como pedras no deserto.