Tales de Mileto

Existe o princípio uno
que a tudo rege,
que a tudo gera,
que a tudo forma.
A água é o princípio.
Tudo vem da água.
A água primordial e límpida
que recobre os mares,
que flui na calha dos rios,
que nos mata a sede,
que nos forma,
que se evapora para os céus
e do céu cai como benção dos deuses.
Existe o princípio uno e simples,
simples como água.

Pedra de Sísifo

Sísifo sobe a encosta e do seu rosto
verte o suor de seu esforço.
Rolando a pedra sempre para cima
imagina um término para sua sina.
Sísifo, não sabes por ventura
que habitas um inferno de procura?
Pensas no fardo que te coube por Destino:
levar a pedra, tua vida, ao alto do cimo.
Não te conformas de ser a vida pedra
que o tempo todo se promete e não se entrega
e nem se completa mesmo que tanto se prometa
nem se explica por mais intensa a busca aflita.
Labutas nesta faina noite e dia
enquanto alheio desta luta o tempo fia
uma túnica que lhe serve de mortalha.
Inútil querer vencer esta batalha.
Só te resta rolar a pedra pela escarpa
esperando a resposta que te escapa.
O teu trabalho é desígnio de Destino
e Destino é o nome que dás ao mistério.
Destino para ti é o que não tem caminho,
além de todos, entre deuses, um deus sozinho.
É a palavra para o que não se explica,
onde toda palavra nada explicita
e o que ali não termina
com certeza dali germina.
Sísifo sobe a encosta e a vida segue igual,
vida de um ponto de vista mais geral
igual em tudo a tudo que virá.
Ser Sísifo é este hábito de labuta
de quem sabe o que no topo se dará.
Sempre a metódica busca
de prosseguir e resignar-se,
de não atingir e enfrentar impasses.
Sísifo me respondas: a pedra te justifica?
Esta caminhada para o cimo nos explica?
Mal de Sísifo não é eterno.
Chega a morte e o leva ao termo.
Mas por mais que a morte insista
vem a vida e já se infiltra.
A vida se renova em cada fruto
e assim se propaga a eterna luta.
A vida na vida se inaugura
e Sísifo, és eterno, pois, nalgum ventre
outro Sísifo agora se encasula.
A mesma pedra, o mesmo olhar a frente
o Sísifo menino presencia.
E se não fosse a luta, esta criança, o que faria?

A besta de Tebas

Há muito tempo, próximo a Tebas
habitava uma besta com corpo de animal,
rosto de mulher e frágeis sentimentos humanos.
Obcecada por um enigma,
a besta atacava os viajantes,
ofertando-lhes a vida ou a morte
segundo a resposta que lhe dessem.
Como os mortais não satisfaziam
sua ânsia de esclarecer o enigma
a besta a todos devorava
e passou a ter consigo a certeza
que apenas um semideus saciaria
sua angustiada curiosidade.
E ocorreu que certa feita
Édipo, um semideus,
cruzou o caminho da besta.
O enigma foi proposto
mas Édipo não compreendeu
e disse à besta que o enigma era o homem.
A besta, estranhamente não o devorou
mas desistiu de buscar a solução do enigma.
Acometida de repentino desespero
lançou-se ao abismo.
Então propagou-se a lenda
que Édipo venceu a esfinge.

Roma

Todos os caminhos levam a Roma
e Roma, dizem, é uma cidade magnífica,
mas distante e misteriosa.
Todos querem ir a Roma, pois,
no sonho de qualquer viajante
existe a promessa de uma cidade
que é o centro do mundo
para onde todos vão.
Conheço velhos andarilhos
que há muito buscam Roma
mas nem por isso
estão mais próximos dela
que afoitos iniciantes.
Já disseram que um louco incendiou Roma
mas ninguém crê.
Todos seguem palmilhando o caminho
batido pelas pegadas dos que se foram
e muito antes queriam Roma.
E não há mapas. Não há placas.
Não há estrelas no céu indicando Roma.
As bússolas apontam o Norte,
não apontam para Roma.
E o corpo cansa e a mente fraqueja
mas o viajante prossegue
porque só em Roma há pousada.
Roma é a capital do Império,
para onde todos vão.