Velho

Tantos anos viajando
em mar aberto,
quantos lanhos
de vã luta por causa vã.
Olha aqui meus queimados
pelo fogo fátuo das frivolidades.
Não queiras saber das histórias
de minhas andanças por aí.
Se bem que sei que as sabes.
Tudo sabes de mim, não é?
Eis que volto e te encontro
aqui na varanda.
Adivinhavas minha chegada?
Aposto que estás aqui desde sempre.
Que tal supormos que tudo
aconteceu entre duas badaladas
do teu velho carrilhão.
Ainda funciona?
Sei que podes, pelo que és, pois,
preciso de ti uma vez mais.
Me ensina este olhar
que transpõe o horizonte,
o aperto da tua mão nodosa
que me aperta a alma,
este silêncio que diz tanto.
Quero ser rocha, ungüento, sal.
Pai, me ensina,
que meu filho me espera.

Poesia que eu não faria

(à guisa de humour)
Aos taxidermistas da poesia

‘… fechando-se no como escrever o escritor acaba por encontrar a pergunta aberta por excelência: Por que o mundo? Qual o sentido das coisas?’

Roland Barthes

Se não sois também poeta,
crítico literário,
doutor em letras,
editor, exegeta,
quer dizer,
se sois o tipo de leitor
a quem deviam se destinar
todas as poesias
estais liberado
de percorrer estas
por demais enfadonhas
mal traçadas linhas.

Poesia.
Mas o que é a poesia?
pergunta-se o poeta
diante da página vazia.

Ó tarefa dorida,
ó sonho dantesco,
ó áspero ofício.
Garimpar o oculto verso:
sublime sacrifício.

E enquanto o verso não aparece
o latifúndio cresce
e o operário meu irmão
é explorado pelo patrão.

Poesia é vida?
Poesia é sonho?
Poesia é noite?
Poesia é amor?
Poesia é ser?
O sorriso da criança é poesia?
O beijo longo dos amantes é poesia?
O pôr do sol é poesia?
Poesia. Onde estás que não respondes.

VERSO (?)

(RE)VERSO

(Trans)VERSO

(Uni) VERSO

(CON)VERSO

(DI)VERSO(S)

Poesia é palavra.
Sendo palavra
fala de palavra enquanto palavra.
Palavra voltada sobre si.
Poesia fala de poesia.
Palavra sobre palavra.

E o poeta? Este quem é?
Garimpeiro de estrelas,
intrépido combatente das causas perdidas,
pastor da singela metáfora,
bardo que tange a lira,
operário da palavra,
ourives da preciosa rima,
cavaleiro solitário,
o poeta/ o asceta/ o profeta,
homem comum ao lado do povo,
anacoreta de nuvens,
aquele que eleva sua voz mais alto,
tudo isto é o poeta
e muito mais, pois,
não há barreiras ao que canta.

Distante voz alada
um retrato morto no firmamento ebúrneo
caverna hermética oculta
sarsa, como torre se alevanta
no poente um grito pungente: poesia.

O poema atravessa o signo.
O signo libera o sema.
O sema habita no fonema.

Não há mais poesia.
Canibal de si
o poeta se engoliu.
Levou consigo seus poemas.
Resta-nos o vazio.

Pô: poesia?
Sei lá, entende?

Proteína

E o que você quer mais?
Não basta a felicidade
fugaz e esporádica?
Que é ilusão,
claro, claro, ilusão
mas você esperava mais?
É transitória, rara,
aparece quando você nem quer,
quando precisa não aparece.
Desejava mais?
Ilusória, certo
se vista de perto.
Mas por que mais?
Não lhe serve a felicidade
que alguém vai provar
tratar-se de uma proteína
perambulando entre neurônios,
que é breve,
que é frágil,
vem de leve,
vai num sopro,
mas lhe serve,
não serve?
Ou você sonhava mais?
Mais que ilusão,
mais que um comichão
atravessando a espinha.
Sonhava.
Então esperarava mais.
Sonhava com o quê?
Esperava por quem?
Com o que não tem?
Com quem não vem?
Se você quiser,
ilusão tem.
Se não quiser,
passar bem.

Maturidade

A maturidade:
apenas uma concha vazia que se aproxima.
Um novo modo de habitar o mundo
posto que és um homem acostumado ao trabalho
e tua vida está completa.
Um doce fastio no fim da tarde
e voltas do trabalho de mãos vazias,
olhos vazios, vazia paisagem.
Tantos compromissos econômicos,
de família, de política,
amizade, amor e procura de vida.
Já nada te consome ou dilacera.
A angústia se tornou inútil.
Todas as palavras ditas,
todos os versos já escritos.
Maturidade

Fantasmas do retrato

Súbito, você que já se habituava
a isso que chamam vida e seus revezes
ouve a voz de gente conversando na sala
onde bem sabe não há ninguém.
Os fantasmas perambulam pela casa.
Esfumados, mas presentes, te acenam
e emitem sons que você já ouviu
não sabe onde.
Você escuta a conversa dos fantasmas
Algo em teu coração range como o soalho há pouco.
Uma palavra mais rude que volta do passado,
uma tua esperança de amor
que nunca veio a ser.
Inevitavelmente os fantasmas retornam
e o que era calmaria em teu peito
se converte em pulsação forte,
intensidade pura.
Inútil mudar de sala, de casa, cidade.
Os fantasmas viajam contigo.
Por todos os lugares, acorrentados a você
seguem cadáveres de manhãs geladas,
fósseis de um entardecer de junho.
Após a última badalada
esta arca de coisas perdidas
se recupera das entranhas
renasce e cresce.
Os fantasmas eternos.