Muro

Sonhou com o frufru dos cetins,
com um buquê de rosas vermelhas
sobre a mesa,
o champanhe francês
no baldinho com gelo,
dois cálices delgados, elegantes,
um sapato sobre o tapete persa,
o sutiã na cadeira,
a suave música de Glenn Miller
e lá fora a melhor vista da cidade
numa noite quente e estrelada.
Sonhou.
Mas a sua primeira vez
foi ali atrás do muro, em pé.
Algo escorreu pela coxa
e um pingo da saliva dele
caiu sobre o ombro
na hora do último arranco.
Doeu um pouco e logo passou.

Duas

Estava dividido entre duas metades,
duas escravas suas.
Uma que lhe dava o prazer
e pedia-lhe a mão,
de quem tirava todos os véus do corpo,
talvez da alma,
a do estupendo gozo gritado,
a rainha da noite
que sonhava ser
sua rainha do lar.
Outra que lhe dava
a fachada do respeito,
dama de forno e fogão,
a do inigualável bolinho de bacalhau,
rainha do lar,
com quem não tinha
e a quem não dava o prazer
e que se olhava sozinha no espelho
erguendo a saia,
mostrando a coxa,
sonhando em segredo
ser a rainha da noite.
Duas metades que se completavam
e nunca se uniriam.

Poeta guru

O poeta guru agoniza no leito.
Três exegetas seus
fazem vigília à sua cabeceira.
O poeta guru abre os olhos.
De sua boca sai um murmúrio débil.
Os três exegetas se apressam
em trazer os ouvidos
para junto da boca do poeta guru.
– O que ele disse?
– Não ouvi.
– Não podemos perder suas palavras finais.
– Vejam. Vai falar de novo.
O poeta guru balbucia ansiado:
– Co …
Os exegetas se afligem.
– Que sublimes palavras quer nos passar?
– Estamos aqui mestre,
ávidos para interpreta-lo.
– Honre-nos com o divino verbo.
– Co … ma … co…
Os exegetas se agitam.
– Oh, desgraça. Seu último verso,
talvez o melhor,
paira na boca e não encontra saída.
– O que dizem tais sílabas misteriosas?
– Será que medita a forma perfeita?
O poeta guru se contorce no leito.
– Co … mm…
Nisso, o enfermeiro, que entrava:
– Comadre, gente. Ele quer a comadre.
O enfermeiro pega a comadre
embaixo da cama e ajeita
sob o corpo do poeta.
Alguns minutos depois
o poeta expira.
Em seu rosto, um ar
de alívio e libertação.

Inacinho

Esses dias lembrei do Inacinho,
crítico sistemático
da sociedade consumista,
que se definia como
o legítimo rebelde sem causa,
o errado de carteirinha,
o avesso da cartilha do bom moço,
que adorava passar na rua
com seu cabelão comprido,
seboso e desgrenhado
para ouvir o comentário:
‘Este mundo está perdido.’
Hoje, em que se use
comprido, raspado ou colorido
ninguém pára mais
para olhar o cabelo dos outros
ainda bem que o Inacinho
se tornou empresário,
dono de uma grife
de moda alternativa
e contestatória.