Ursa maior

Existe uma estrela
que indica o Norte.
Não o meu, o seu,
mas o Norte do Norte.

Existe uma estrela
de brilho opaco,
de luz escura,
intangível aos móveis
referenciais cartesianos.

Existe uma estrela imóvel
que não está nas cartas celestes,
que brilha fora do alcance
da luneta dos cínicos.

Existe uma estrela
além do além do firmamento,
invulnerável, absoluta.
Existe uma estrela.

Troféus

Veja aqui os troféus
da tua experiência:
uma acuidade milimétrica
para as próprias limitações,
alguns objetos de fetiche
a ornar teu castelo de papel,
o escudo de palavras ocas,
a fina ironia de cristal,
a consciência de morrer.
Veja mais:
que dissimulação primorosa
dos sentimentos,
que capacidade de não sentir,
que silêncio na veia quase imóvel.
Ah, não querer nascer de novo,
não se arrepender de nada,
fazer malabarismo com facas,
e abrir a porta em silêncio para a dor.
Que bom não se ver no espelho,
não ouvir a boca úmida que te beija ao longe
e lá no fundo, a brasa quase sem luz,
que eventualmente te faz humano,
e te põe a buscar uma ordem rigorosa
para as palavras.

Ruínas

Exausto, coberto pelo pó da estrada,
jogas a mala ao chão
diante das ruínas esquecidas.
A porta resiste toscamente
ao avanço de tua mão.
Entras no velho templo,
desolado e vazio
e ao toque dos teus passos
o soalho range,
se umidifica, se regenera.
A luz, que há muito não entrava
rasga as frestas da vidraça
e se insinua tímida,
como é próprio a um tempo
de energia escassa.
Animal que abandonou a manada,
caminhas de mãos vazias
para o centro da nave.
Pelos pés escorrem lentamente
as raízes, avançando
no solo úmido e silencioso,
mais fundo e fundo,
sulcando e conhecendo tua terra,
chegando à câmara oculta,
preparando-te para a terra,
devolvendo-te à ela.