Temporão

Descobri tarde o amor.
Tarde descobri
que não era gênio.
Tarde encontrei a poesia.
Me despi tarde das vaidades.
Bem tarde concluí
que precisava de leitores
para meus versos.
O óbvio, em mim,
chega tarde
como tarde cheguei
ao encontro comigo mesmo.
Tarde me vi no espelho,
tarde abri aquela carta
esquecida na gaveta.
Sou assim. Sempre vejo
minhas vagas idéias geniais
se convertendo em fatos geniais
pela mão dos outros.
Sou eu: o que acontece tarde…

Demais.

Sítio arqueológico

Alta madrugada em noite fria.
Meus passos reboam
pela Rua XV, ora vazia.
Meu footing
fundamental e interminável.
Minha rua, meu grande sertão:
és pedra, asfalto, aço.
És além?
Quem me dera
sétimo, oitavo sentido
capaz de farejar na turfa do tempo,
rastrear debaixo deste calçadão,
fossilizado no piche,
o curitibano imemorial,
pai de todos os meus cacoetes.
Sob estas pedras,
talvez louças delicadas,
que serviram chá,
bolo de fubá e escasso sentimento.
Talvez agulha de radiola,
que já fez dançar curitibano frio,
que raro aplaude, mais raro sorri,
muito raro dança.
Uma busca diligente,
pode ser desentranhe,
aliança de ouro gravada,
o nome dele e o dela enlaçados,
perdida na sarjeta,
numa fenda de desamor.
Meus passos ecoam na calçada.
Suas vibrações penetram
o frio petit-pavé,
se incrustam
na memória basáltica
deste longo rio.
Caminho e um pouco de mim
fica na alma das pedras.
Lentamente me incorporo
ao solo sagrado
para ser um dia resquício,
relógio sem ponteiro,
lambrequim rachado,
canino de vampiro,
amálgama de rocha e tempo
que incertos arqueólogos
sondarão perplexos.

Quê te consome?

Quê te consome na rua?
O primeiro fio de cabelo branco
na cabeleira já não tão vasta.
O zero a menos no teu contracheque.
O rebolado da morena
que passou há pouco.
Teu encontro com quem não vem.
Aquela dor de dente?

O que te consome
diante da folha em branco
na hora de parir um verso?
Falta de assunto.
A seita literária da semana.
Aquele poeta guru
que tanto falam mas ninguém leu.
A nova rima tecnoendergonorgética.
O iminente apocalipse poético?

Ora, meu amigo.
Há algo errado com você.

Promissor

Aos meus olhos
me vejo sempre promissor,
embora já não seja jovem
e os outros não compartilhem
comigo este delírio.
Sim, amanhã farei o verso
que há de me redimir.
Amanhã terei a idéia
para uma obra estupenda.
Amanhã estarei pronto
e assumirei galhardo
o meu fulgurante destino.
Amanhã farei tudo isto.

Pretensão

Às vezes me pergunto
com que direito falo da dor,
se mal a conheço,
se canto os problemas do poeta
quando problema é ser analfabeto.
Eu que falei da vida
como fardo, quando é dádiva,
aos que sabem a dor verdadeira,
minhas desculpas, meu respeito.
Por favor, não me levem a sério.
Coloquem meu poema em seu devido lugar:
depois do sofrimento agudo,
depois da perda lancinante,
depois da áspera realidade.
Depois, só depois,
minhas buscas menores:
as perdas e danos do amor,
o tempo que me foge,
a palavra que não encontro.