Máquina do tempo

Velho

Tantos anos viajando
em mar aberto,
quantos lanhos
de vã luta por causa vã.
Olha aqui meus queimados
pelo fogo fátuo das frivolidades.
Não queiras saber das histórias
de minhas andanças por aí.
Se bem que sei que as sabes.
Tudo sabes de mim, não é?
Eis que volto e te encontro
aqui na varanda.
Adivinhavas minha chegada?
Aposto que estás aqui desde sempre.
Que tal supormos que tudo
aconteceu entre duas badaladas
do teu velho carrilhão.
Ainda funciona?
Sei que podes, pelo que és, pois,
preciso de ti uma vez mais.
Me ensina este olhar
que transpõe o horizonte,
o aperto da tua mão nodosa
que me aperta a alma,
este silêncio que diz tanto.
Quero ser rocha, ungüento, sal.
Pai, me ensina,
que meu filho me espera.

Proteína

E o que você quer mais?
Não basta a felicidade
fugaz e esporádica?
Que é ilusão,
claro, claro, ilusão
mas você esperava mais?
É transitória, rara,
aparece quando você nem quer,
quando precisa não aparece.
Desejava mais?
Ilusória, certo
se vista de perto.
Mas por que mais?
Não lhe serve a felicidade
que alguém vai provar
tratar-se de uma proteína
perambulando entre neurônios,
que é breve,
que é frágil,
vem de leve,
vai num sopro,
mas lhe serve,
não serve?
Ou você sonhava mais?
Mais que ilusão,
mais que um comichão
atravessando a espinha.
Sonhava.
Então esperarava mais.
Sonhava com o quê?
Esperava por quem?
Com o que não tem?
Com quem não vem?
Se você quiser,
ilusão tem.
Se não quiser,
passar bem.

Serraria

Faz tempo meu avô
levou meu pai, então garoto,
de carroça por uma picada estreita,
de lado a lado cercada
por uma muralha de pinheiros
até chegarem a uma serraria
construída pelas mãos grossas
e pelo raciocínio fino de meu avô
e depois de mostrar ao meu pai
toda a serraria
o levou até o pinhal
que rescendia a madeira recém cortada
e disse:
‘Veja, filho,
um pinheiro de muitos séculos.
Três homens não o conseguem abracar.
Veja quantos pinheiros mais há.
Quanta riqueza, a riqueza do Paraná.
Onde a vista alcança
você vê, você verá.
É tanta madeira.
Nunca há de se acabar.
É nossa riqueza, o pinheiro do Paraná.’
Um dia quando eu era apenas um garoto
meu pai tomou-me pela mão
e me levou por uma estrada poeirenta
e num descampado me mostrou:
‘ Aqui um dia teu avô chegou
abrindo picada no mato fechado.
Derrubou o mato, muito mato derrubou.
Fez uma serraria, aquela lá, abandonada.
Serrou muito pinheiro,
vendeu muita madeira.
Agora aqui, madeira já não há
e saiba, filho, se ninguém cuidar
um dia vai acabar
toda a madeira do Paraná.’

Esses dias passei de carro
pela estrada asfaltada
que um dia foi a picada
para a serraria do meu avô.
Da serraria, nada mais há.
Ao longe encherguei no descampado
um par de pinheiros miúdos e mirrados
que, provável, não interessaram a
madeireiro algum.
Na imaginação falo
ao filho que não tive:
‘Veja, filho, o pinheiro do Paraná.
Aqui um dia houve outros, muitos,
pinheiros e mais pinheiros,
fortes e inabaláveis,
seculares e intermináveis,
uma grande riqueza,
símbolos desta terra,
tombados para sempre,
para sempre tombados
os símbolos do Paraná.’

Gilda

Lembra da Gilda,
curitibano dos trezentos anos?
Não a mulher fatal do cinema,
a Gilda de Curitiba.
Esses dias passei na Rua das Flores:
Cadê a placa póstuma da Gilda
ao pé da árvore
na frente do bondinho?
Para quem não é daqui:
Gilda foi um mendigo, louco e bicha.
Já viu combinação mais infeliz?
Daqueles loucos que havia,
estavam sempre na rua,
como se vivessem do vento.
Gilda foi o último louco
folclórico de Curitiba.
Sua residência oficial
era a Rua das Flores,
o cartão postal da cidade.
Para uns incômodo, vergonha.
Para outros, motivo de galhofa.
Por muito tempo foi o louquinho
que a família curitibana
não trancou no porão.
Um dia apareceu morto,
provável, numa briga de mendigos.
E pergunto:
Por que não Rua Gilda?
ou Alameda Gilda?
ao menos Travessa Gilda?
Ou os loucos folclóricos
não são história?
Que memória é esta
que preserva generais sem guerra,
corruptos de bitola larga,
aristocratas inatingíveis,
enganadores do povo diplomados
e se esquece da Gilda.
Tá certo: louco, mendigo e bicha.
Mas se lhe falta título
por que não:
filósofo do cotidiano,
humorista performático,
vanguardista dos costumes?
Se lembraram de tantos
que nem mereciam.
Por que não da Gilda?
Cala-se Curitiba,
classe média em tudo.
Tua memória será
a do pinheiro tombado,
a da gralha que já não voa,
mas não da Gilda.

Maturidade

A maturidade:
apenas uma concha vazia que se aproxima.
Um novo modo de habitar o mundo
posto que és um homem acostumado ao trabalho
e tua vida está completa.
Um doce fastio no fim da tarde
e voltas do trabalho de mãos vazias,
olhos vazios, vazia paisagem.
Tantos compromissos econômicos,
de família, de política,
amizade, amor e procura de vida.
Já nada te consome ou dilacera.
A angústia se tornou inútil.
Todas as palavras ditas,
todos os versos já escritos.
Maturidade

Muleta

O velhinho trêmulo
entra na igreja.
Rio de sua fé.
A fé é a sua muleta
E eu, velho,
no que vou me apoiar?

Duas

Estava dividido entre duas metades,
duas escravas suas.
Uma que lhe dava o prazer
e pedia-lhe a mão,
de quem tirava todos os véus do corpo,
talvez da alma,
a do estupendo gozo gritado,
a rainha da noite
que sonhava ser
sua rainha do lar.
Outra que lhe dava
a fachada do respeito,
dama de forno e fogão,
a do inigualável bolinho de bacalhau,
rainha do lar,
com quem não tinha
e a quem não dava o prazer
e que se olhava sozinha no espelho
erguendo a saia,
mostrando a coxa,
sonhando em segredo
ser a rainha da noite.
Duas metades que se completavam
e nunca se uniriam.

Muro

Sonhou com o frufru dos cetins,
com um buquê de rosas vermelhas
sobre a mesa,
o champanhe francês
no baldinho com gelo,
dois cálices delgados, elegantes,
um sapato sobre o tapete persa,
o sutiã na cadeira,
a suave música de Glenn Miller
e lá fora a melhor vista da cidade
numa noite quente e estrelada.
Sonhou.
Mas a sua primeira vez
foi ali atrás do muro, em pé.
Algo escorreu pela coxa
e um pingo da saliva dele
caiu sobre o ombro
na hora do último arranco.
Doeu um pouco e logo passou.

Fantasmas do retrato

Súbito, você que já se habituava
a isso que chamam vida e seus revezes
ouve a voz de gente conversando na sala
onde bem sabe não há ninguém.
Os fantasmas perambulam pela casa.
Esfumados, mas presentes, te acenam
e emitem sons que você já ouviu
não sabe onde.
Você escuta a conversa dos fantasmas
Algo em teu coração range como o soalho há pouco.
Uma palavra mais rude que volta do passado,
uma tua esperança de amor
que nunca veio a ser.
Inevitavelmente os fantasmas retornam
e o que era calmaria em teu peito
se converte em pulsação forte,
intensidade pura.
Inútil mudar de sala, de casa, cidade.
Os fantasmas viajam contigo.
Por todos os lugares, acorrentados a você
seguem cadáveres de manhãs geladas,
fósseis de um entardecer de junho.
Após a última badalada
esta arca de coisas perdidas
se recupera das entranhas
renasce e cresce.
Os fantasmas eternos.

Poeta guru

O poeta guru agoniza no leito.
Três exegetas seus
fazem vigília à sua cabeceira.
O poeta guru abre os olhos.
De sua boca sai um murmúrio débil.
Os três exegetas se apressam
em trazer os ouvidos
para junto da boca do poeta guru.
– O que ele disse?
– Não ouvi.
– Não podemos perder suas palavras finais.
– Vejam. Vai falar de novo.
O poeta guru balbucia ansiado:
– Co …
Os exegetas se afligem.
– Que sublimes palavras quer nos passar?
– Estamos aqui mestre,
ávidos para interpreta-lo.
– Honre-nos com o divino verbo.
– Co … ma … co…
Os exegetas se agitam.
– Oh, desgraça. Seu último verso,
talvez o melhor,
paira na boca e não encontra saída.
– O que dizem tais sílabas misteriosas?
– Será que medita a forma perfeita?
O poeta guru se contorce no leito.
– Co … mm…
Nisso, o enfermeiro, que entrava:
– Comadre, gente. Ele quer a comadre.
O enfermeiro pega a comadre
embaixo da cama e ajeita
sob o corpo do poeta.
Alguns minutos depois
o poeta expira.
Em seu rosto, um ar
de alívio e libertação.

Inacinho

Esses dias lembrei do Inacinho,
crítico sistemático
da sociedade consumista,
que se definia como
o legítimo rebelde sem causa,
o errado de carteirinha,
o avesso da cartilha do bom moço,
que adorava passar na rua
com seu cabelão comprido,
seboso e desgrenhado
para ouvir o comentário:
‘Este mundo está perdido.’
Hoje, em que se use
comprido, raspado ou colorido
ninguém pára mais
para olhar o cabelo dos outros
ainda bem que o Inacinho
se tornou empresário,
dono de uma grife
de moda alternativa
e contestatória.

Rio Belém

Rio Belém
que já correu solto,
como um jorro,
como um potro.
Do Rio Belém,
agora o que se tem?
Nem um litro
de água clara no museu.
Nem um peixe seu
empalhado por zoólogo.
Nem endereço
de alguém que lembre
de quando,
afogado em si,
morreu o Rio Belém.

Rio Belém,
que já matou sede,
que já foi claro,
que já deu peixe.
Rio Belém,
agora retificado,
reprimido,
estuprado,
escondido.

Rio Belém,
que desgosto,
rio esgoto,
rio morto.
Rio Belém.
Adeus.
Amém.

Museu Paranaense

Visito o Museu Paranaense.
Nas salas e nos corredores
retratos pintados de figuras ilustres do passado.
Este de ar altivo,
a praça em frente leva seu nome,
famoso e irremediavelmente morto.
Mais adiante um cavalheiro de olhar confiante,
distinto e irreversivelmente morto.
Ao fundo, um que comandou por décadas
a política paranaense,
solene, a mão firme apontando para o futuro,
mas interminavelmente morto.
Ali, em tamanho natural, um bispo,
severo, como se dono das chaves do Reino,
porém, inevitavelmente morto.
Desfila a procissão de rostos diante de mim.
Capitães de indústria, empreendedores e mortos.
Políticos matreiros, aristocráticos e mortos.
Jovens senhoras, lindas
e infinitamente mortas.
Professores, médicos, advogados,
sólidos, serenos, sábios e mortos,
como eu na minha hora,
talvez sem fama,
sem classe, sem título,
sem retrato, sem nome de rua,
mas principalmente
morto.

Poesia que eu não faria

(à guisa de humour)
Aos taxidermistas da poesia

‘… fechando-se no como escrever o escritor acaba por encontrar a pergunta aberta por excelência: Por que o mundo? Qual o sentido das coisas?’

Roland Barthes

Se não sois também poeta,
crítico literário,
doutor em letras,
editor, exegeta,
quer dizer,
se sois o tipo de leitor
a quem deviam se destinar
todas as poesias
estais liberado
de percorrer estas
por demais enfadonhas
mal traçadas linhas.

Poesia.
Mas o que é a poesia?
pergunta-se o poeta
diante da página vazia.

Ó tarefa dorida,
ó sonho dantesco,
ó áspero ofício.
Garimpar o oculto verso:
sublime sacrifício.

E enquanto o verso não aparece
o latifúndio cresce
e o operário meu irmão
é explorado pelo patrão.

Poesia é vida?
Poesia é sonho?
Poesia é noite?
Poesia é amor?
Poesia é ser?
O sorriso da criança é poesia?
O beijo longo dos amantes é poesia?
O pôr do sol é poesia?
Poesia. Onde estás que não respondes.

VERSO (?)

(RE)VERSO

(Trans)VERSO

(Uni) VERSO

(CON)VERSO

(DI)VERSO(S)

Poesia é palavra.
Sendo palavra
fala de palavra enquanto palavra.
Palavra voltada sobre si.
Poesia fala de poesia.
Palavra sobre palavra.

E o poeta? Este quem é?
Garimpeiro de estrelas,
intrépido combatente das causas perdidas,
pastor da singela metáfora,
bardo que tange a lira,
operário da palavra,
ourives da preciosa rima,
cavaleiro solitário,
o poeta/ o asceta/ o profeta,
homem comum ao lado do povo,
anacoreta de nuvens,
aquele que eleva sua voz mais alto,
tudo isto é o poeta
e muito mais, pois,
não há barreiras ao que canta.

Distante voz alada
um retrato morto no firmamento ebúrneo
caverna hermética oculta
sarsa, como torre se alevanta
no poente um grito pungente: poesia.

O poema atravessa o signo.
O signo libera o sema.
O sema habita no fonema.

Não há mais poesia.
Canibal de si
o poeta se engoliu.
Levou consigo seus poemas.
Resta-nos o vazio.

Pô: poesia?
Sei lá, entende?

Baixe o pergaminho digital

Autor: Radamés

Engenheiro curitibano pela UFPR, professor e produtor de conteúdos e ferramentas educacionais para a Internet.

Seu comentário também é poesia