Crianças dormindo

Agora, enquanto escrevo,
perto daqui, crianças dormem na rua.
Precisava dizer isso?
Você sabe melhor que eu, não é?
Crianças dormem na rua, ora.
Ou talvez eu seja um afortunado
e você esteja lendo-me num tempo
em que crianças já não dormem na rua.
Mas se esse tempo ainda não veio
talvez seja preciso dizer:
Crianças dormem na rua.
Sim, sou piegas, demagogo,
hipócrita, o quê mais?
Paciência. Crianças dormem na rua.
Isso não é nada poético.
E escrever sobre este tema
não traz cama quente e limpa
para as crianças lá fora.
Poemas não contém proteínas
e não distribuem renda.
Poemas são poemas
e crianças são crianças.
Logo irei dormir e confesso,
dormirei bem, mesmo com
crianças na rua.
E você não perderá o sono
por causa deste poema, certo?
Bem, sono tranqüilo a parte,
se as matérias primas do poema
são palavra e vida,
tem que ser possível incluir nele
as crianças que dormem na rua.
Eu queria falar sobre o tema,
só não sabia como
neste mundo de utopias fracassadas.
Primeiro quis descrever a cena
com metáforas e metonímias.
Depois pensei em refletir
sobre possíveis soluções.
Mas achei melhor dizer simplesmente:
Crianças dormem na rua.
Precisa dizer mais?

Autor: Radamés

Engenheiro curitibano pela UFPR, professor e produtor de conteúdos e ferramentas educacionais para a Internet.

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