Autópsia

Um homem não é seu discurso
e o canto não vale pelo autor.
Se vale, vale por si.
Refletir-me nos versos?
Mesmo velhos poetas, imbuídos
de sincero amor pela palavra
e a duras penas libertos da vaidade
não se despem inteiros no espelho da arte.
Sempre resta oculto um dente escuro,
uma sinal de nascença,
porque existe distância entre
as prioridades literárias
e a realidade da vida,
e à arte, supostamente,
interessa mais o que é da natureza humana,
que as tristes limitações individuais
do caráter, do sangue.
Se falo de mim,
já que estabelecido há séculos
que a argila do poeta é o eu profundo,
é por obediência
aos desígnios da Poesia
a quem sirvo devotadamente
nos limites de minha capacidade.
Imito a perícia do legista
mas não corto tão fundo.
Pouco em mim é de valor literário.
O são certas fraquezas específicas
e bem escolhidas num universo maior
de ricas limitações.
E além das pobrezas que canto
quantas outras nem vislumbro,
provável mais terríveis e primeiras,
ou julgas mais fácil enxergar a si
que ao outro?
O melhor de mim, se há, é o verso
que mal floresce e já não está em mim,
e se resulta oco e sem melodia
consideres que a laboriosa gestação,
comumente o faz superior à boca que o sopra.

Autor: Radamés

Engenheiro curitibano pela UFPR, professor e produtor de conteúdos e ferramentas educacionais para a Internet.

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