Contas

No meu sonho
eu cruzava um portão imenso
enquanto uma voz dizia:
Que trazes para mim?
Rápido, tirei do bolso
uns versos magros e puídos
e os ergui dizendo:
Minha obra, na qual
investi meus dias.
E o papel de tão débil,
em flocos se desfez
enquanto a voz dizia:
Que trazes para mim?
Mais rápido, juntei nas mãos,
meus documentos,
minhas cartas de recomendação,
minhas contas em dia.
Mostrei tudo ao alto
mas um vento repentino
fez voar papéis e documentos
que se perderam na bruma fria.
E a voz, em som mais forte
novamente me inquiria:
Que trazes para mim?
Vasculhei os bolsos,
encontrei uma velha foto e disse:
Veja aqui: o marido razoável,
ora frio, concordo, um pai zeloso,
ora ausente, está bem.
E enquanto eu falava, na foto
as pessoas se moviam,
deixando seus acentos,
saindo do campo da objetiva,
como se a foto estivesse concluída
e fossem cuidar da vida.
E a voz como um badalo,
mais grave perguntou:
Que trazes para mim?
Uma última busca pelos bolsos.
Nada mais havia.
E então, erguendo as mãos
dei a resposta que devia:
Trago-lhe as mãos vazias.

Autor: Radamés

Engenheiro curitibano pela UFPR, professor e produtor de conteúdos e ferramentas educacionais para a Internet.

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