Desabafo

Que sei da poesia?
Sei que a fazem
longe de mim
e de meu parco entendimento.
Na cadeia da escrita
sou o copista.
Não me encontrei.
Me encontrarei?
Baterei eternamente
a cabeça no vidro blindado
que me separa
do mínimo verso feliz?
Ah, que fosse o menor
da história da Literatura
mas que brilhasse sob luz intensa,
que tivesse ínfimo poder
e curto reinado
na retina do incauto,
que vendo-o num canto torto da estante
o colhesse e por um lampejo de instante
se deparasse diante do milagre da arte.
Que belo exemplo sou eu.
Não de poeta, mas de tentativa.
Diariamente levo das palavras
drible humilhante
e como cachorro estúpido
volto para lamber-lhe os pés.
Diariamente fujo
dos velhos poetas e os encontro
no armário, nas gavetas,
no verso brilhante que escrevo
e já oxida tão logo esfria.
Saibam todos que me lerem:
(há alguém lendo aí?)
Eu tento. Juro que tento
mas a arte é maior.
Como hei de toca-lo
amigo leitor?
Não somos patéticos?
Eu cá com meus pães
de farinha impura
e você buscando
a jazida oculta
na minha fala rala.
Garimpeiros, você eu.
Desejo-te mais sorte da próxima vez.

Autor: Radamés

Engenheiro curitibano pela UFPR, professor e produtor de conteúdos e ferramentas educacionais para a Internet.

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