Lambrequins

Na minha Curitiba
tem uma casa de madeira.
Na varanda com mureta de alvenaria,
a samambaia, a gaiola e o canário
melhor que qualquer radiola.
O teto, desnecessariamente inclinado
para o clima sem neve
abriga o sótão baixo onde
três gerações empilharam segredos.
Os pilares de tijolo a mantém suspensa.
No vão que se cria abaixo do piso
o vento gelado galopa como um huno,
guarda-se restos de uma vida
e nascem ninhadas de viralatas pulguentos.
Do beiral pingam lambrequins rendados.
Estalactites de saudade?
Lágrimas de passado?
Na sala, o quadro oval colorido a mão.
O casal eterno solidifica o lar.
Uma chaminé estreita
desenrola novelos de fumaça.
O fogão econômico aquece os calafrios da alma
com brasa boa de bracatinga.
Pela janela da cozinha
uma iaia com lenço na cabeça espia longamente
a espera de quem não vem.
Na parede do quarto o Cristo com coração em chamas,
olha por todos, até pelos de alma rota.

Vez ou outra esta casa passa
pela janela do ônibus ligeiríssimo.
Passa de relance e fica para trás,
não sei onde, não sei quando.
Decrépita, alguns lambrequins faltam no beiral.
A casinha sorri seu sorriso banguela
para o curitibano expresso.

Autor: Radamés

Engenheiro curitibano pela UFPR, professor e produtor de conteúdos e ferramentas educacionais para a Internet.

Seu comentário também é poesia