Lamento

Aquela jovem que se aproxima,
delicada,
estupidamente feliz.
Em pouco será minha.
Trêfega virgem
que estiolará antes de florir,
que sabes do mal?
Mas se não eu
outra criatura da noite
há de te aviltar.
Ó, maldição que nos une.
Nem eu nem ti,
singela flor,
veremos de novo
um raio de sol.
Eu que odeio o sangue
e não tenho direito à morte,
sou feito do sangue, pelo sangue,
para o sangue,
também tenho um destino a cumprir.
Paira sobre mim
uma maldição imemorial.
O mal está em mim.
Mas não veio a mim
pela minha própria mão.
Pequei, há muito.
E como paga pelo pecado primeiro
sou condenado ao pecado eterno.
Eis porque meus olhos cintilam
diante do sangue
e nutro este mórbido gosto pela dor.
Quem me dera
a morte além da morte,
o aniquilamento absoluto,
o apagamento do pó.
Mas porque te digo isto?
Apenas venha para mim,
frágil flor de carne e pureza.
E que venha também logo a estaca.
Lutarei raivosamente contra ela,
como me foi destinado.
E quando ela cravar-se
em meu peito repleto
de podridão e imundície
entrarei sorrindo
no paraíso do nada.

Autor: Radamés

Engenheiro curitibano pela UFPR, professor e produtor de conteúdos e ferramentas educacionais para a Internet.

Seu comentário também é poesia