Porão

Um dia desses, alta madrugada,
apague as luzes, cerre as cortinas,
desligue tudo que produz ruido,
vá até a porta do teu porão
e ouça.
Apure o ouvido
e tente sondar além
das grossas paredes
que você edificou.
Quem sabe
ruídos mínimos venham
pelas frestas da porta.
Sons abafados, lúgubres,
como vozes, como gemidos,
como súplicas.
Preste atenção
ao que lhe chega de além da porta.
Algo se move no cubículo
continuamente,
de um lado para o outro
Seriam passos?
Encoste o ouvido à porta com cuidado.
Um arfar úmido,
uma agitação primitiva,
e então algo arranha a porta
com raiva crescente
e logo passa a bater contra ela.
O arfar se converte em rosnado
e as pancadas começam
a comprometer as grossas tábuas,
pois, o que está lá dentro
já se arremessa contra elas.
O que você fará então?
Te adianto que alguns abrem a porta.
Você tem a chave.
Vai jogá-la ao mar?
Desista.
Sempre haverá uma chave no teu bolso
enquanto a fera urra do outro lado.
A decisão sempre será sua.

Autor: Radamés

Engenheiro curitibano pela UFPR, professor e produtor de conteúdos e ferramentas educacionais para a Internet.

Seu comentário também é poesia