Feliz e não sabia

HOUVE UM TEMPO,
tempo em que eu não me conhecia,
eu era jovem, promissor,
e decerto venceria.
Tempo em que eu me sentia
um eleito com toda primazia.
Eu era o maestro
e meu destino a sinfonia.
Tempo em que eu me media
pelo que julgava que podia
e o futuro se faria como réplica
do que eu me atribuía.
Bons tempos aqueles
em que eu queria vencer
e achava que venceria.

Houve um tempo
em que a todos eu criticava
e a mim mesmo não me via,
presunçoso que era
e nem sabia.
Radical, eu empacava e intransigia,
mas era alienado e não sabia.
Eu me pavoneava, me enaltecia,
sendo medíocre mas não sabia.
Eu errava e mesmo errando eu insistia,
provinciano, mas não, não sabia.
Para ser sincero,
naquele tempo eu não sabia nada
mas achava que sabia.
Eu me sentia capaz da maior das poesias
e a poesia passava do meu lado
e eu nem sentia.
Bons tempos aqueles.
Eu era feliz e não sabia.

Quem me viu, quem me vê

VENCER NA VIDA.
De todas as minhas ilusões
esta foi a mais ridícula e obtusa.
Quantos agora não se engalfinham
nas disputas mais cerradas
para realizar este sonho vão
que para mim faz parte do passado
e não se concretizará.

Quem me viu, quem me vê.
Como tantos que tanto
prometem na juventude
e se desenham aos olhos
de seus entes queridos
como o vencedor dos vencedores
eu mesmo acreditava em mim.

Vencer na vida era poder dizer:
‘Você sabe com quem está falando?’
Era um cargo de dar inveja,
um carro de tirar o fôlego,
uma mulher de parar o trânsito.
Hoje não há vitórias.
Não há horizontes.
Por que frincha, por que porta
me perdi desse paraíso
que é ser pessoa comum?

Quem me viu, quem me vê.
Todos que me cercavam apostavam
no meu futuro de jovem promissor.
Hoje me consideram um corpo estranho
no seu mundo de verdades saudáveis.
Me olham de esguelha
porque não levo cinzelado na fronte
o vasto código de certezas
que é bom para as pessoas de bem.

Vencer na vida.
Que sombra de vitória pode haver
para quem se sente inepto
para este tipo de disputa
e assume isto como fato consumado?

Quem me viu, quem me vê.
Se hoje sou diferente,
se desaponto os que apostaram em mim,
não foi por gosto ou pirraça.
Acordei. Aconteceu.
Deu no que deu.

Vencer na vida.
Já foi o tempo
em que se justificava ser apenas promissor.
Eu devia estar completo,
servir de exemplo,
mas minha vocação foi sempre
para tudo e nada.
Me desculpem.
Não venci.
Não vencerei.

Velho

Tantos anos viajando
em mar aberto,
quantos lanhos
de vã luta por causa vã.
Olha aqui meus queimados
pelo fogo fátuo das frivolidades.
Não queiras saber das histórias
de minhas andanças por aí.
Se bem que sei que as sabes.
Tudo sabes de mim, não é?
Eis que volto e te encontro
aqui na varanda.
Adivinhavas minha chegada?
Aposto que estás aqui desde sempre.
Que tal supormos que tudo
aconteceu entre duas badaladas
do teu velho carrilhão.
Ainda funciona?
Sei que podes, pelo que és, pois,
preciso de ti uma vez mais.
Me ensina este olhar
que transpõe o horizonte,
o aperto da tua mão nodosa
que me aperta a alma,
este silêncio que diz tanto.
Quero ser rocha, ungüento, sal.
Pai, me ensina,
que meu filho me espera.

Maturidade

A maturidade:
apenas uma concha vazia que se aproxima.
Um novo modo de habitar o mundo
posto que és um homem acostumado ao trabalho
e tua vida está completa.
Um doce fastio no fim da tarde
e voltas do trabalho de mãos vazias,
olhos vazios, vazia paisagem.
Tantos compromissos econômicos,
de família, de política,
amizade, amor e procura de vida.
Já nada te consome ou dilacera.
A angústia se tornou inútil.
Todas as palavras ditas,
todos os versos já escritos.
Maturidade

Temporão

Descobri tarde o amor.
Tarde descobri
que não era gênio.
Tarde encontrei a poesia.
Me despi tarde das vaidades.
Bem tarde concluí
que precisava de leitores
para meus versos.
O óbvio, em mim,
chega tarde
como tarde cheguei
ao encontro comigo mesmo.
Tarde me vi no espelho,
tarde abri aquela carta
esquecida na gaveta.
Sou assim. Sempre vejo
minhas vagas idéias geniais
se convertendo em fatos geniais
pela mão dos outros.
Sou eu: o que acontece tarde…

Demais.