Contas

No meu sonho
eu cruzava um portão imenso
enquanto uma voz dizia:
Que trazes para mim?
Rápido, tirei do bolso
uns versos magros e puídos
e os ergui dizendo:
Minha obra, na qual
investi meus dias.
E o papel de tão débil,
em flocos se desfez
enquanto a voz dizia:
Que trazes para mim?
Mais rápido, juntei nas mãos,
meus documentos,
minhas cartas de recomendação,
minhas contas em dia.
Mostrei tudo ao alto
mas um vento repentino
fez voar papéis e documentos
que se perderam na bruma fria.
E a voz, em som mais forte
novamente me inquiria:
Que trazes para mim?
Vasculhei os bolsos,
encontrei uma velha foto e disse:
Veja aqui: o marido razoável,
ora frio, concordo, um pai zeloso,
ora ausente, está bem.
E enquanto eu falava, na foto
as pessoas se moviam,
deixando seus acentos,
saindo do campo da objetiva,
como se a foto estivesse concluída
e fossem cuidar da vida.
E a voz como um badalo,
mais grave perguntou:
Que trazes para mim?
Uma última busca pelos bolsos.
Nada mais havia.
E então, erguendo as mãos
dei a resposta que devia:
Trago-lhe as mãos vazias.

Compromisso

Tenho um compromisso marcado
na última linha da minha agenda.
Nem lembro há quanto
para ele me preparo.
Mas que preparo se ainda não sei
local e horário?
Só sei que não haverá atraso,
nem congestionamento,
nem vôo cancelado.
Abro a agenda, conto os dias,
a cada dia menos dias
nas folhas da minha agenda
A cada dia mais me preparo.
Mas que preparo se não sei
que roteiro ou programa determinado?
Irei sozinho ou acompanhado?
Irei de classe econômica
ou vôo fretado?
A cada dia mais me preparo.
Inutilmente me preparo.

Quatro estações

Primavera

… que sopra seu hálito fecundo
e enche o ventre da planície
com sêmen denso e quente.
Ressurge viva a floresta petrificada.
Tempo de deitar a semente
e rogar aos deuses
pela messe farta.
Os curumins se exercitam
em fantasias à roda do fogo,
entre caçadas e heróicas batalhas.
O mundo é novo, é imenso
e cheio de mistérios.
Os animais falam, os brinquedos ouvem.
As coisas são muito boas ou muito ruins.
Os campos se cobrem de esperança
e os jovens se queimam pela primeira vez
com a brasa nova.
O pai chama o filho,
mostra-lhe as armas e os segredos
e o instrui na arte da caça.
E partem os dois para os perigos da mata.
O curumim se defronta
com a palpitante solidão da aventura,
conhece o medo e a superação do medo,
se extasia em afrontar a morte
quase tocando-a, crendo-se intocável.
No duelo entre o homem e a fera,
fera contra fera disputam o exíguo espaço
no círculo da vida.
No sangue da fera
escorrendo das mãos
vai-se o curumim, faz-se o homem.
Pai e filho retornam à casa
com a caça ao ombro
e todos celebram
a morte da morte,
a plenitude da vida.
O sol doura o trigo
e chega a hora
de apresentar as virgens à tribo.
As flores desfilam
seu carmim na pradaria.
Um olhar furtivo,
a palavra presa na garganta.
A história de amor,
tantas vezes encenada,
acontece de novo pela primeira vez.
Os dois se tocam,
agora como homem,
agora como mulher.
Dançam com volúpia
aos olhos e cochichos dos seus
e preparam o tempo da colheita.
Quem és para merecer esta beleza,
que é tanta, quase um desperdício,
este tempo que flui denso
sem passado nem futuro,
este mundo como banquete farto
posto em tua honra
sem que o saibas.
Pouco és para tanto mundo.
E o que fazer senão dançar
de mãos dadas com tua flor
fruindo a dádiva concedida
à mão farta por deuses generosos.

Verão

O calor aquece as pedras,
as folhas tenras e os corpos suados.
Abrem-se os gineceus.
Os amantes se lambuzam em mel grosso
e os corpos se devoram
como serpes enroscadas.
Mas por um complô insondável,
por um excessivo acúmo de energia latente,
o paraiso azul tinge-se de cinza
e do seu cerne escapa o relâmpago.
Chega o tempo de seguir o vento.
O inquieto potro e o ousado vôo.
Tempo em que o filho não reconhece o pai
e o guerreiro galopa na campina.
O horizonte se afasta e chama.
Os tambores distantes anunciam a tempestade.
Pouco a pouco cresce a ira dos elementos.
O vento açoita as velhas árvores
e todo fúria, muda o imutável.
E com autoridade divina, extermina.
Os homens se pintam para a batalha.
As mulheres se vestem para a dor.
Os bravos apresentam os estandartes
aos deuses da guerra
e embarcam na nave da morte.
A bravura como escudo,
A estupidez como lança,
bêbados de valhalas,
os soldados se arremetem
contra a boca do leviatã.
Mecanicamente,
o monstro traga a vida
e cospe gente estilhaçada.
A quilômetros de tua última ingenuidade
marchas na terra devastada
e contemplas a grande obra
erigida em cinza, ódio e carniça.
A lança quebrada, o escudo partido.
Este peito outrora de tanto ardor,
tão repleto de legítima energia,
o que nele agora se aninha?
A medíocre sabedoria dos entediados
com a brutalidade da comédia?
Frieza e desprezo por si e pelo outro?

Outono

No meio do caminho
a troca da guarda na usina dos ventos.
Falam agora de um general
marchando do sul
que não governa pelo fogo,
nem adota estratégias rebuscadas.
De face inerte e dura,
quer apenas resultado.
Todas as folhas ao chão.
Os seres pressentem a lâmina
fria que devasta e purifica.
O artesão dá polimento
na emoção bruta, no ímpeto cego.
Nasce uma jóia de duvidoso brilho
que não vence pela exuberância,
mas pela sólida resistência.
Chegas a soleira da velha casa
e na varanda a cadeira de balanço
mecanicamente, como um badalo,
oscila vazia e te chama a ocupar o posto.
Eis que o filho se reconhece no pai.
Como ficou simples entender
as forças da vontade
e conduzir os outros ao sabor
de teus desígnios.
Que conforto ver o celeiro repleto
de grãos e o espírito pleno
de duvidosa sabedoria.

Inverno

Tudo volta ao princípio. Ou quase.
O mundo não é o mesmo depois de ti.
E se não foste Dante
foste o mendigo que com Dante
um dia cruzou
e fez espirrar as faíscas
que atearam fogo
a um verso da Comédia.
A mesa está posta
para o banquete vazio
de homens sem fome.
A obra inacabada
é dada por pronta.
Alguém te sugere
uma serena contemplação
da face do abismo.
Tua experiência.
Tão inútil aos outros.
Quase inútil a ti.
Feno acumulado no estábulo
onde ruminam tua renúncia,
teu desprendimento.
Os que permanecem
preparam a aurora e
à boca pequena,
organizam teu rito final.
Todo som se evade,
toda luz se consome,
todo aroma foge
e a boca seca
e o tato dorme
na noite ártica,
mas antes do último sopro
bruxuleante do acetileno,
antes de se recolher ao útero escuro,
ainda consegues ouvir
um derradeiro murmúrio do vento …

Troféus

Veja aqui os troféus
da tua experiência:
uma acuidade milimétrica
para as próprias limitações,
alguns objetos de fetiche
a ornar teu castelo de papel,
o escudo de palavras ocas,
a fina ironia de cristal,
a consciência de morrer.
Veja mais:
que dissimulação primorosa
dos sentimentos,
que capacidade de não sentir,
que silêncio na veia quase imóvel.
Ah, não querer nascer de novo,
não se arrepender de nada,
fazer malabarismo com facas,
e abrir a porta em silêncio para a dor.
Que bom não se ver no espelho,
não ouvir a boca úmida que te beija ao longe
e lá no fundo, a brasa quase sem luz,
que eventualmente te faz humano,
e te põe a buscar uma ordem rigorosa
para as palavras.

Ruínas

Exausto, coberto pelo pó da estrada,
jogas a mala ao chão
diante das ruínas esquecidas.
A porta resiste toscamente
ao avanço de tua mão.
Entras no velho templo,
desolado e vazio
e ao toque dos teus passos
o soalho range,
se umidifica, se regenera.
A luz, que há muito não entrava
rasga as frestas da vidraça
e se insinua tímida,
como é próprio a um tempo
de energia escassa.
Animal que abandonou a manada,
caminhas de mãos vazias
para o centro da nave.
Pelos pés escorrem lentamente
as raízes, avançando
no solo úmido e silencioso,
mais fundo e fundo,
sulcando e conhecendo tua terra,
chegando à câmara oculta,
preparando-te para a terra,
devolvendo-te à ela.