Pássaro migrador

Vejo no céu o pássaro migrador.
Daqui pressinto seu anseio
de encontra pousada.
Mesmo exausto ele segue
traçando redemoinhos,
curvas insolúveis.
Fia em trajeto aleatório
um labirinto de caminhos,
entrecruzados, circulares
e ao fundo o mesmo horizonte frio
nascendo a cada dia.
Sempre que olho para o céu
esse pássaro sombrio navegando o firmamento.
Não desiste? Não se estropia?
Ao fim da tarde estou cá a olhar
o desenho mágico dessa ave louca.
Sem descanso voa, voa ….

Fim de noite

Em silêncio você anda na rua
e o tropeço no desejo
de viver paixão imensa
como a que você viu
no cinema, mas muito distante
desta tua noite de luzes cansadas.
Você é uma sombra que caminha
sob o silêncio da rua
de encontro ao silêncio do quarto,
ao silêncio do sono,
rumo à vida suspensa e muda.
Teus dias sempre os mesmos repetidos dias.
Uma surda fome de emoções vivas.
Você pensa no grande amor
que tanto te falta
nesta hora de coração selvagem.
Pensa na vida em alta voltagem
que só a literatura ofertou,
assim concentrada e quente.
E você se dirige
ao teu mundo de silêncio
esperando que na rua
surja de súbito,
mulher, talvez uma carta
ou simplesmente um aviso
Você aguarda seu momento de farta energia,
sua vida saindo da rotina vazia.
Nessa cidade enorme que não tem fim
você busca a parte da vida
que te abarrotará o coração
e como você, talvez ali mesmo na esquina,
alguém se consome na mesma procura.

Descoberta

A grande descoberta de minha vida
foi que não me importo em descobrir nada.
A vida como planura,
o silêncio do deserto como sinfonia.
O coração seco, o olhar cristalino.
A aceitação de mim como concha fechada.
Vejo e já perdi o que vi.
Minha solução como ausência de soluções.
A desistência do eu
em ser forma de mistério.
E tudo é puro olhar
e nada me preocupa ou faz querer
desvendar o que quer que seja.
Uma distância me separa
dos objetos que percebo.
Mas percebo-os e é tudo.

Proteína

E o que você quer mais?
Não basta a felicidade
fugaz e esporádica?
Que é ilusão,
claro, claro, ilusão
mas você esperava mais?
É transitória, rara,
aparece quando você nem quer,
quando precisa não aparece.
Desejava mais?
Ilusória, certo
se vista de perto.
Mas por que mais?
Não lhe serve a felicidade
que alguém vai provar
tratar-se de uma proteína
perambulando entre neurônios,
que é breve,
que é frágil,
vem de leve,
vai num sopro,
mas lhe serve,
não serve?
Ou você sonhava mais?
Mais que ilusão,
mais que um comichão
atravessando a espinha.
Sonhava.
Então esperarava mais.
Sonhava com o quê?
Esperava por quem?
Com o que não tem?
Com quem não vem?
Se você quiser,
ilusão tem.
Se não quiser,
passar bem.

Muro

Sonhou com o frufru dos cetins,
com um buquê de rosas vermelhas
sobre a mesa,
o champanhe francês
no baldinho com gelo,
dois cálices delgados, elegantes,
um sapato sobre o tapete persa,
o sutiã na cadeira,
a suave música de Glenn Miller
e lá fora a melhor vista da cidade
numa noite quente e estrelada.
Sonhou.
Mas a sua primeira vez
foi ali atrás do muro, em pé.
Algo escorreu pela coxa
e um pingo da saliva dele
caiu sobre o ombro
na hora do último arranco.
Doeu um pouco e logo passou.