Águas em junho

Da janela do apartamento assisto
a morte dos sonhos frágeis.
Um a um despencando pela sacada.
É junho e meu coração em desatada sangria,
como estas águas frias
correndo nas ruas.
Neste tempo de frio e águas
meus sonhos sumindo na sarjeta,
se dissolvendo nas águas.
Em junho os sonhos se vão.
Não todos, apenas sonhos vãos.
Versos e versos se perdendo pelo vento,
que me importa.
A quinta essência escorrega da janela
e se arrebenta no asfalto.
Adeus sonhos transcendentes.
Recomeço com coisas simples e realizáveis.
Não realização fácil, mas palpável.
Abro os braços ao mundo do imediato.
Coisas simples:
amor e vida sem tormentos,
emoções simples, só e simplesmente.

Feliz e não sabia

HOUVE UM TEMPO,
tempo em que eu não me conhecia,
eu era jovem, promissor,
e decerto venceria.
Tempo em que eu me sentia
um eleito com toda primazia.
Eu era o maestro
e meu destino a sinfonia.
Tempo em que eu me media
pelo que julgava que podia
e o futuro se faria como réplica
do que eu me atribuía.
Bons tempos aqueles
em que eu queria vencer
e achava que venceria.

Houve um tempo
em que a todos eu criticava
e a mim mesmo não me via,
presunçoso que era
e nem sabia.
Radical, eu empacava e intransigia,
mas era alienado e não sabia.
Eu me pavoneava, me enaltecia,
sendo medíocre mas não sabia.
Eu errava e mesmo errando eu insistia,
provinciano, mas não, não sabia.
Para ser sincero,
naquele tempo eu não sabia nada
mas achava que sabia.
Eu me sentia capaz da maior das poesias
e a poesia passava do meu lado
e eu nem sentia.
Bons tempos aqueles.
Eu era feliz e não sabia.

Quem me viu, quem me vê

VENCER NA VIDA.
De todas as minhas ilusões
esta foi a mais ridícula e obtusa.
Quantos agora não se engalfinham
nas disputas mais cerradas
para realizar este sonho vão
que para mim faz parte do passado
e não se concretizará.

Quem me viu, quem me vê.
Como tantos que tanto
prometem na juventude
e se desenham aos olhos
de seus entes queridos
como o vencedor dos vencedores
eu mesmo acreditava em mim.

Vencer na vida era poder dizer:
‘Você sabe com quem está falando?’
Era um cargo de dar inveja,
um carro de tirar o fôlego,
uma mulher de parar o trânsito.
Hoje não há vitórias.
Não há horizontes.
Por que frincha, por que porta
me perdi desse paraíso
que é ser pessoa comum?

Quem me viu, quem me vê.
Todos que me cercavam apostavam
no meu futuro de jovem promissor.
Hoje me consideram um corpo estranho
no seu mundo de verdades saudáveis.
Me olham de esguelha
porque não levo cinzelado na fronte
o vasto código de certezas
que é bom para as pessoas de bem.

Vencer na vida.
Que sombra de vitória pode haver
para quem se sente inepto
para este tipo de disputa
e assume isto como fato consumado?

Quem me viu, quem me vê.
Se hoje sou diferente,
se desaponto os que apostaram em mim,
não foi por gosto ou pirraça.
Acordei. Aconteceu.
Deu no que deu.

Vencer na vida.
Já foi o tempo
em que se justificava ser apenas promissor.
Eu devia estar completo,
servir de exemplo,
mas minha vocação foi sempre
para tudo e nada.
Me desculpem.
Não venci.
Não vencerei.

Contas

No meu sonho
eu cruzava um portão imenso
enquanto uma voz dizia:
Que trazes para mim?
Rápido, tirei do bolso
uns versos magros e puídos
e os ergui dizendo:
Minha obra, na qual
investi meus dias.
E o papel de tão débil,
em flocos se desfez
enquanto a voz dizia:
Que trazes para mim?
Mais rápido, juntei nas mãos,
meus documentos,
minhas cartas de recomendação,
minhas contas em dia.
Mostrei tudo ao alto
mas um vento repentino
fez voar papéis e documentos
que se perderam na bruma fria.
E a voz, em som mais forte
novamente me inquiria:
Que trazes para mim?
Vasculhei os bolsos,
encontrei uma velha foto e disse:
Veja aqui: o marido razoável,
ora frio, concordo, um pai zeloso,
ora ausente, está bem.
E enquanto eu falava, na foto
as pessoas se moviam,
deixando seus acentos,
saindo do campo da objetiva,
como se a foto estivesse concluída
e fossem cuidar da vida.
E a voz como um badalo,
mais grave perguntou:
Que trazes para mim?
Uma última busca pelos bolsos.
Nada mais havia.
E então, erguendo as mãos
dei a resposta que devia:
Trago-lhe as mãos vazias.

Colheita

Miro meu verso
como miro a planície desolada
onde jaz a carcaça
e prolifera a erva amarga.
Não mereci a messe farta.
Não semeei no tempo certo.
Não combati a praga.
Miro o verso. Miro-me:
terra esturricada,
colheita perdida.