Cacto e pedras

O hábito de viver se limitando
ao hábito de persistir,
como pedras ao sol,
como cacto no deserto,
como pedras, como cacto.
Que ciência mais profunda
que esta ausência de sabedoria
encontrável nos desertos?
O deserto nos ensina
por não dar lições
a lição do silêncio pleno.
Uma vida sem oásis,
sem problemas, sem contrastes.
Ser para ver.
Ser para ser.
E tudo que vai além
da mensagem dos sentidos
fenece como erva no deserto,
nesse deserto de vida,
nessa vida sem umidade,
plana e horizontal,
como cacto,
como pedras no deserto.

Ruínas

Exausto, coberto pelo pó da estrada,
jogas a mala ao chão
diante das ruínas esquecidas.
A porta resiste toscamente
ao avanço de tua mão.
Entras no velho templo,
desolado e vazio
e ao toque dos teus passos
o soalho range,
se umidifica, se regenera.
A luz, que há muito não entrava
rasga as frestas da vidraça
e se insinua tímida,
como é próprio a um tempo
de energia escassa.
Animal que abandonou a manada,
caminhas de mãos vazias
para o centro da nave.
Pelos pés escorrem lentamente
as raízes, avançando
no solo úmido e silencioso,
mais fundo e fundo,
sulcando e conhecendo tua terra,
chegando à câmara oculta,
preparando-te para a terra,
devolvendo-te à ela.

Panteão

Entras descalço no templo,
percorres as longas estantes,
tocas o passado comprimido
nas velhas palavras.
Os antigos profetas te olham
com a serenidade de quem
no seu tempo rompeu o selo
e cumpriu seu desígnio.
Humilde, recorres
aos anciãos da tribo.
Os profetas te sussurram
valiosos segredos,
te passam a fórmula
de certeiros unguentos.
E depois deste diálogo
tecido de silêncios
com as estrelas fixas
do teu firmamento
voltas ao teu mundo
de necessidades prementes
onde te aguardam
as questões urgentes
que profeta nenhum
responderá por ti.