Quatro estações

Primavera

… que sopra seu hálito fecundo
e enche o ventre da planície
com sêmen denso e quente.
Ressurge viva a floresta petrificada.
Tempo de deitar a semente
e rogar aos deuses
pela messe farta.
Os curumins se exercitam
em fantasias à roda do fogo,
entre caçadas e heróicas batalhas.
O mundo é novo, é imenso
e cheio de mistérios.
Os animais falam, os brinquedos ouvem.
As coisas são muito boas ou muito ruins.
Os campos se cobrem de esperança
e os jovens se queimam pela primeira vez
com a brasa nova.
O pai chama o filho,
mostra-lhe as armas e os segredos
e o instrui na arte da caça.
E partem os dois para os perigos da mata.
O curumim se defronta
com a palpitante solidão da aventura,
conhece o medo e a superação do medo,
se extasia em afrontar a morte
quase tocando-a, crendo-se intocável.
No duelo entre o homem e a fera,
fera contra fera disputam o exíguo espaço
no círculo da vida.
No sangue da fera
escorrendo das mãos
vai-se o curumim, faz-se o homem.
Pai e filho retornam à casa
com a caça ao ombro
e todos celebram
a morte da morte,
a plenitude da vida.
O sol doura o trigo
e chega a hora
de apresentar as virgens à tribo.
As flores desfilam
seu carmim na pradaria.
Um olhar furtivo,
a palavra presa na garganta.
A história de amor,
tantas vezes encenada,
acontece de novo pela primeira vez.
Os dois se tocam,
agora como homem,
agora como mulher.
Dançam com volúpia
aos olhos e cochichos dos seus
e preparam o tempo da colheita.
Quem és para merecer esta beleza,
que é tanta, quase um desperdício,
este tempo que flui denso
sem passado nem futuro,
este mundo como banquete farto
posto em tua honra
sem que o saibas.
Pouco és para tanto mundo.
E o que fazer senão dançar
de mãos dadas com tua flor
fruindo a dádiva concedida
à mão farta por deuses generosos.

Verão

O calor aquece as pedras,
as folhas tenras e os corpos suados.
Abrem-se os gineceus.
Os amantes se lambuzam em mel grosso
e os corpos se devoram
como serpes enroscadas.
Mas por um complô insondável,
por um excessivo acúmo de energia latente,
o paraiso azul tinge-se de cinza
e do seu cerne escapa o relâmpago.
Chega o tempo de seguir o vento.
O inquieto potro e o ousado vôo.
Tempo em que o filho não reconhece o pai
e o guerreiro galopa na campina.
O horizonte se afasta e chama.
Os tambores distantes anunciam a tempestade.
Pouco a pouco cresce a ira dos elementos.
O vento açoita as velhas árvores
e todo fúria, muda o imutável.
E com autoridade divina, extermina.
Os homens se pintam para a batalha.
As mulheres se vestem para a dor.
Os bravos apresentam os estandartes
aos deuses da guerra
e embarcam na nave da morte.
A bravura como escudo,
A estupidez como lança,
bêbados de valhalas,
os soldados se arremetem
contra a boca do leviatã.
Mecanicamente,
o monstro traga a vida
e cospe gente estilhaçada.
A quilômetros de tua última ingenuidade
marchas na terra devastada
e contemplas a grande obra
erigida em cinza, ódio e carniça.
A lança quebrada, o escudo partido.
Este peito outrora de tanto ardor,
tão repleto de legítima energia,
o que nele agora se aninha?
A medíocre sabedoria dos entediados
com a brutalidade da comédia?
Frieza e desprezo por si e pelo outro?

Outono

No meio do caminho
a troca da guarda na usina dos ventos.
Falam agora de um general
marchando do sul
que não governa pelo fogo,
nem adota estratégias rebuscadas.
De face inerte e dura,
quer apenas resultado.
Todas as folhas ao chão.
Os seres pressentem a lâmina
fria que devasta e purifica.
O artesão dá polimento
na emoção bruta, no ímpeto cego.
Nasce uma jóia de duvidoso brilho
que não vence pela exuberância,
mas pela sólida resistência.
Chegas a soleira da velha casa
e na varanda a cadeira de balanço
mecanicamente, como um badalo,
oscila vazia e te chama a ocupar o posto.
Eis que o filho se reconhece no pai.
Como ficou simples entender
as forças da vontade
e conduzir os outros ao sabor
de teus desígnios.
Que conforto ver o celeiro repleto
de grãos e o espírito pleno
de duvidosa sabedoria.

Inverno

Tudo volta ao princípio. Ou quase.
O mundo não é o mesmo depois de ti.
E se não foste Dante
foste o mendigo que com Dante
um dia cruzou
e fez espirrar as faíscas
que atearam fogo
a um verso da Comédia.
A mesa está posta
para o banquete vazio
de homens sem fome.
A obra inacabada
é dada por pronta.
Alguém te sugere
uma serena contemplação
da face do abismo.
Tua experiência.
Tão inútil aos outros.
Quase inútil a ti.
Feno acumulado no estábulo
onde ruminam tua renúncia,
teu desprendimento.
Os que permanecem
preparam a aurora e
à boca pequena,
organizam teu rito final.
Todo som se evade,
toda luz se consome,
todo aroma foge
e a boca seca
e o tato dorme
na noite ártica,
mas antes do último sopro
bruxuleante do acetileno,
antes de se recolher ao útero escuro,
ainda consegues ouvir
um derradeiro murmúrio do vento …