Sítio arqueológico

Alta madrugada em noite fria.
Meus passos reboam
pela Rua XV, ora vazia.
Meu footing
fundamental e interminável.
Minha rua, meu grande sertão:
és pedra, asfalto, aço.
És além?
Quem me dera
sétimo, oitavo sentido
capaz de farejar na turfa do tempo,
rastrear debaixo deste calçadão,
fossilizado no piche,
o curitibano imemorial,
pai de todos os meus cacoetes.
Sob estas pedras,
talvez louças delicadas,
que serviram chá,
bolo de fubá e escasso sentimento.
Talvez agulha de radiola,
que já fez dançar curitibano frio,
que raro aplaude, mais raro sorri,
muito raro dança.
Uma busca diligente,
pode ser desentranhe,
aliança de ouro gravada,
o nome dele e o dela enlaçados,
perdida na sarjeta,
numa fenda de desamor.
Meus passos ecoam na calçada.
Suas vibrações penetram
o frio petit-pavé,
se incrustam
na memória basáltica
deste longo rio.
Caminho e um pouco de mim
fica na alma das pedras.
Lentamente me incorporo
ao solo sagrado
para ser um dia resquício,
relógio sem ponteiro,
lambrequim rachado,
canino de vampiro,
amálgama de rocha e tempo
que incertos arqueólogos
sondarão perplexos.

Lambrequins

Na minha Curitiba
tem uma casa de madeira.
Na varanda com mureta de alvenaria,
a samambaia, a gaiola e o canário
melhor que qualquer radiola.
O teto, desnecessariamente inclinado
para o clima sem neve
abriga o sótão baixo onde
três gerações empilharam segredos.
Os pilares de tijolo a mantém suspensa.
No vão que se cria abaixo do piso
o vento gelado galopa como um huno,
guarda-se restos de uma vida
e nascem ninhadas de viralatas pulguentos.
Do beiral pingam lambrequins rendados.
Estalactites de saudade?
Lágrimas de passado?
Na sala, o quadro oval colorido a mão.
O casal eterno solidifica o lar.
Uma chaminé estreita
desenrola novelos de fumaça.
O fogão econômico aquece os calafrios da alma
com brasa boa de bracatinga.
Pela janela da cozinha
uma iaia com lenço na cabeça espia longamente
a espera de quem não vem.
Na parede do quarto o Cristo com coração em chamas,
olha por todos, até pelos de alma rota.

Vez ou outra esta casa passa
pela janela do ônibus ligeiríssimo.
Passa de relance e fica para trás,
não sei onde, não sei quando.
Decrépita, alguns lambrequins faltam no beiral.
A casinha sorri seu sorriso banguela
para o curitibano expresso.

Via láctea

A noite se derrama sobre a metrópole.
Na avenida forma-se
o rio de lava urbana.
Dentro de mim
um maçarico queima sangue.
Sou um tentáculo do leviatã
que ofega e se crispa,
animal selvagem ferido,
que se contorce e urra,
em dor, velocidade, luz e febre,
A cidade se espalha na noite
e pulsa, ebule, caldeirão de óleo,
funga, resfolega e a emoção da vida
corre, circula nas avenidas.
Quem dera assimilar esta loucura,
magnífico caos organizado.
Quisera a omnipresença nas ruas,
nos quartos e nos becos.
Quem dera espalhar-me todo,
dividir-me em mil,
ser todos os habitantes da noite,
ser a própria cidade transpirando.
sentir no corpo
os carros em disparada,
o néon frenético, o bulício das calçadas.
Viesse a mim o poder de devorar
a beleza louca desta via-láctea.
Abre-te Sésamo, fera convulsiva da noite.
Deixa-me penetrar sua carne.
Sacia minha fome de ser você.
Quero o brilho doentio das lâmpadas de sódio,
a brutalidade do asfalto,
a frieza calculista do concreto.
E mais que tudo dá-me o direito
de ser os sussurros e gritos e silêncios
das almas atormentadas da noite.
Quero ser a escuridão dos becos.
a consciência dos culpados,
o desespero dos aflitos.
Dá-me a graça de ser pedra e carne,
delírio e esperança.
Ser o óleo de tuas engrenagens.
Máquina da noite, quero deslizar
por teus mecanismos.
Vejo-me triturado na tua boca impiedosa.
Meu sangue colorindo teus metais,
lubrificando teus mancais.
Deusa de concreto e alta voltagem
leva-me aos segredos ocultos nas tuas fundações.
Eu desejo tudo e tudo é pouco para mim
tamanha a fúria do desejo
que me martela as têmporas.
Eu amo o que está sob estas luzes
simplesmente porque existe
e tem o sabor selvagem de realidade.
Metrópole, minha sedução.
És matéria e estás fora de mim.
Amo burramente teu gosto de seiva crua
que me escapa e me domina.
Quero esta noite.
Tudo e nada eu quero e sinto.

Sombras

A solidão que neste momento
frequenta as sombras de meu quarto
e está em mim como um bicho na selva,
está em tantos que da janela não vejo,
mas suponho, espalhados e anônimos
sob as luzes da cidade
e que pulsam e penam como eu
neste instante de solidão fria.
Talvez bastasse um aceno
e a solidão se evolasse na noite.
Somos tantos, que sem rosto nos fechamos
em nossos quartos e nos desconhecemos.
Privamo-nos uns dos outros,
entregues ao silêncio
da noite que se derrama.
A solidão, porém, não é de alvenaria.
Não está neste quarto assim como a vejo.
está em algum lugar na raiz de mim mesmo,
de nós todos, cobertos pela mesma noite.

Risco

Eu vinha para casa do serviço
pensando no caminho
sobre o que escrever
quando estivesse aqui sentado.
E enquanto eu vinha
um carro da polícia
passou por mim em disparada,
um moleque me pediu esmola,
vi gente morando sob o viaduto
e no rádio falavam
de confronto entre posseiros e jagunços.
Eu, pensando no que escrever, pensei:
Poesia social é campo minado.
São muitos os perigos:
o de se inflamar à noite
e amanhecer em cinzas.
O de semear paraíso
e colher inferno.
O de praticar o que se critica.
O da crítica cega
com proposta muda.
Mas se uma criança revolve o lixo
e a FEBEM faz parte da vida
então a criança, o lixo e a FEBEM
fazem parte da poesia.
Por isso, caro leitor,
me apóie ou me critique,
me elogie ou me piche.
Só não fique inerte.
Divida comigo este alto risco.